Política e Resenha

Lagoa das Bateias: Quando a Cidade Volta a Pertencer ao Seu Povo

 

 

 

Por Padre Carlos

O que se viu neste domingo no Parque Municipal Lagoa das Bateias não foi apenas um evento público, tampouco uma simples caminhada ecológica. O que se presenciou foi algo mais profundo, mais raro e mais transformador: o despertar de uma cidade para si mesma.

Vitória da Conquista, tantas vezes marcada por contrastes urbanos e desigualdades territoriais, deu sinais claros de que começa a resgatar um de seus valores mais essenciais — o pertencimento. E não há política pública mais poderosa do que aquela que devolve ao cidadão o sentimento de que ele faz parte do espaço onde vive.

A Lagoa das Bateias amanheceu viva. Não apenas cheia, mas significativa. Centenas de pessoas ocuparam o parque não como visitantes ocasionais, mas como protagonistas de uma nova narrativa urbana. Caminhada, mutirão de limpeza, atividades físicas, cultura, lazer e consciência ambiental se entrelaçaram numa dinâmica orgânica, onde o mais importante não era o evento em si, mas o que ele representava: a retomada do espaço público como extensão da vida comunitária.

É inevitável reconhecer o papel da gestão municipal nesse processo. A administração da prefeita Sheila Lemos tem apostado na requalificação urbana como instrumento de transformação social, e isso começa a produzir efeitos visíveis. No entanto, mais do que obras, o que se viu foi uma mudança de abordagem — uma política que entende que cidade não se constrói apenas com concreto, mas com vínculos.

Nesse contexto, emerge uma figura que compreende com sensibilidade o espírito do tempo: Lucas Batista. Ao afirmar que a Lagoa é “a casa das pessoas, o quintal das pessoas”, ele sintetiza uma visão moderna de gestão pública, onde o espaço urbano deixa de ser um equipamento e passa a ser uma experiência coletiva.

E foi exatamente isso que se viu. Não havia espectadores passivos. Havia cidadãos ativos. Pessoas que caminharam, dançaram, respiraram, mas também refletiram e agiram. A imagem de moradores retirando lixo, pneus e resíduos do parque é, ao mesmo tempo, um retrato do abandono passado e um símbolo potente de reconstrução social. É a cidadania deixando de ser discurso e se tornando prática.

A força do evento esteve, sobretudo, na participação popular. A Zona Oeste, historicamente esquecida em muitos aspectos, mostrou sua vitalidade, sua capacidade de mobilização e seu desejo de ser vista, ouvida e respeitada. Ali, naquele espaço revitalizado, não havia periferia — havia centralidade humana.

Outro ponto que merece destaque é a integração de políticas públicas. Meio ambiente, esporte, saúde, cultura e educação deixaram de atuar de forma isolada e passaram a dialogar entre si. Esse modelo integrado é, hoje, uma das principais tendências de gestão urbana inteligente e sustentável, capaz de gerar impacto real na qualidade de vida da população.

O sucesso da caminhada ecológica não pode ser medido apenas por números ou pela diversidade de atividades. Seu verdadeiro significado está na mudança de mentalidade que começa a germinar. Um parque revitalizado não se sustenta apenas com investimento público — ele depende do cuidado cotidiano da população. E isso, finalmente, começa a acontecer.

O que se viveu na Lagoa das Bateias foi mais do que um evento bem executado. Foi um marco simbólico. Um ponto de inflexão. A prova concreta de que, quando poder público e comunidade caminham juntos, a cidade deixa de ser um cenário inerte e se transforma em obra coletiva.

Se esse movimento persistir — com continuidade, responsabilidade e participação ativa — a Lagoa das Bateias não será apenas um espaço recuperado. Tornar-se-á um símbolo de transformação urbana, cidadania ativa e reconstrução do tecido social em Vitória da Conquista.

E talvez, no futuro, possamos olhar para este domingo não como um evento isolado, mas como o início de uma nova consciência urbana: aquela em que a cidade, finalmente, volta a pertencer ao seu povo.