“O meu olhar é nítido como um girassol.”
O Girassol que Não Sabe que É Belo
Uma crônica sobre ver, sentir e a coragem de não pensar
Você já parou — parou de verdade, quero dizer, com aquela parada que dói um pouco porque obriga os pensamentos a calarem — diante de um girassol?
Não me refiro àqueles girassóis de postal, estampados em almofada ou tatuados no tornozelo de alguém que um dia quis ser leve. Falo do girassol de verdade. Aquele que fica na beira da estrada de terra, meio torto, com as pétalas amarelas já cansadas pelo sol da tarde, e mesmo assim — e mesmo assim — vira o rosto com uma solenidade quase religiosa na direção do astro que o criou. O girassol não sabe que é belo. Não tem pressa de ser entendido. Ele apenas olha.
Foi exatamente isso que senti — um calor súbito no peito, como quem abre uma janela esquecida — quando li pela primeira vez o poema de Alberto Caeiro. Aquele verso inicial: “O meu olhar é nítido como um girassol.” Pus o livro no colo. Olhei para o teto. Precisei respirar.
Sabe por quê? Porque em dezenas de anos lendo filosofia, teologia, história, política — todos esses saberes respeitáveis que nos constroem e, ao mesmo tempo, nos encalham —, ninguém havia me dito algo tão simples e tão imenso com apenas oito palavras.
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Caeiro — que é Fernando Pessoa sendo outra pessoa, Pessoa sendo o mais radicalmente outro de si mesmo — não é um poeta comum. É uma espécie de criança velha, ou de velho recém-nascido. Ele anda pelas estradas. Olha para a direita. Olha para a esquerda. De vez em quando olha para trás. E o que vê a cada momento é, espantosamente, aquilo que nunca antes tinha visto.
Pense nisso um instante, meu amigo, minha amiga. Quantas vezes você passou pela mesma rua, viu a mesma árvore, cumprimentou o mesmo vizinho — e não viu absolutamente nada? A rotina é um tecido espesso que forramos sobre os olhos. Achamos que conhecer uma coisa é o mesmo que vê-la. Mas Caeiro nos desmonta essa ilusão com a delicadeza cruel de quem retira um espinho: conhecer não é ver. Nomear não é sentir.
E tem mais. Ele diz — ouça bem, porque isso vai custar um pouco ao seu ego intelectual, e ao meu também — que “pensar é estar doente dos olhos”. Que o mundo não foi feito para ser pensado. Foi feito para ser olhado. Para ser visto. Para ser sentido.
Quando li isso pela primeira vez, protestei. Como qualquer teólogo treinado protestaria. Mas a vida — ah, a vida é uma professora que não usa quadro-negro, ela simplesmente acontece — foi me ensinando, com a paciência de quem tem eternidade, que Caeiro não estava errado. Ele estava falando de outra coisa. Estava falando daquele excesso de mediação entre nós e o mundo. Aquela camada de conceitos, rótulos, categorias, julgamentos que colocamos entre o olho e a rosa antes que o olho a veja.
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Há uma cena que não consigo esquecer. Estava eu numa cela do presídio — anos de ministério pastoral entre muros e grades me ensinaram que a dignidade humana sobrevive em condições que a imaginação recusa — quando um homem, cumprindo pena havia doze anos, me apontou para um vão de janela gradeada. Lá fora, entre os ferros, um pedaço de céu azul. Um azul tão absurdamente azul que doía.
Ele disse: “Padre, o senhor acredita que eu olho para esse azul todo dia como se fosse a primeira vez?”
Naquele momento entendi Caeiro com o corpo inteiro, não com a cabeça. Entendi que o pasmo essencial de que fala o poeta — aquele espanto de criança que nasce e percebe que nasceu de verdade — não é um privilégio dos poetas nem dos filósofos. É uma faculdade que todos nós trazemos, mas que vamos, ano a ano, enterrando sob camadas de pressa, de tédio, de eficiência.
O homem da cela tinha perdido quase tudo. Mas havia conservado o olhar.
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Caeiro vai mais fundo ainda — e aqui é onde o poema me provoca teologicamente, de um modo que não me incomoda, mas me desafia. Ele diz que crê no mundo como num malmequer, porque o vê. Não porque raciocinou a respeito. Não porque leu tratados. Porque viu. E ver, para ele, é já uma forma de fé. Uma fé sensorial, pagã, cheia de luz de agosto e cheiro de terra molhada.
Quem viveu nas tradições da Teologia da Libertação — como eu vivi, nos anos de formação em Belo Horizonte, ouvindo José Comblin falar do pobre como lugar teológico — sabe que há uma percepção parecida nessa tradição: Deus não é encontrado primeiro nos tratados, mas no rosto do outro. Nos olhos do camponês. Nas mãos da mulher que lava roupa no rio. A realidade concreta, o mundo visto, o mundo sentido antes de ser interpretado.
Caeiro é pagão. Eu sou padre. Mas entre ele e eu existe essa ponte invisível e resistente: a convicção de que há algo de sagrado no ato puro de ver.
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E então chegamos ao final do poema. Àquele verso que é quase uma bofetada delicada, dessas que a gente leva no rosto e fica grato:
“Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar…”
Não pensar. Ora. Numa época em que somos bombardeados por análises, métricas, opiniões, avaliações, ratings, termômetros e bússolas morais de todo tipo — Caeiro nos diz: pare. Ame. Não explique o amor. Não o disseque. Não o transforme em dado.
Porque quem ama nunca sabe o que ama. Nem sabe porque ama. Nem sabe o que é amar. E esse não-saber, ao contrário do que nossa cultura da performance nos quer fazer crer, não é fraqueza. É a forma mais alta de presença. É a inocência de quem chegou antes da linguagem.
Conheço pessoas que amam assim. Uma paroquiana da área rural. Ela não sabia explicar o que era o amor, mas quando chegávamos à porta da sua casa ainda com fome do caminho, o prato aparecia na mesa com uma velocidade que desafiava a física. Ela não tinha filosofia. Tinha sentidos. Tinha olhos nítidos como um girassol.
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Escrevo isto para você — sim, para você especificamente, que carrega este texto nos olhos agora — como um convite. Um convite sem cerimônia, sem litania, sem obrigação de resposta.
Hoje, antes que a noite feche o céu sobre o Sudoeste baiano e as luzes de Vitória da Conquista acendam uma a uma como velas ao redor de uma altar que ninguém pediu mas que existe mesmo assim — pare. Pare em algum lugar. Olhe para alguma coisa sem querer nada dela. Sem nomear. Sem fotografar para postar. Sem pensar no que vai dizer quando contar a alguém.
Apenas olhe. Com o olhar nítido que você tinha quando era criança e ainda não sabia que o mundo precisava ser explicado para existir.
Você vai se surpreender com o que vai ver.
Vai se sentir — talvez pela primeira vez em muito tempo — nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo.
Padre Carlos
Colunista | Política e Resenha — Vitória da Conquista, Bahia




