Política e Resenha

O Cheiro do Tempo – Crônica Literária


Crônica Literária

O Cheiro do Tempo

por Padre Carlos

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Há manhãs que não pedem licença.

Entram pela janela antes mesmo de você abrir os olhos — primeiro o cheiro, depois a luz, e só por último a consciência de que um novo dia começou. Nessas manhãs, o tempo não é um relógio. É um velho que prepara café sem coador, que assopra a chaleira velha, que deixa o pó assentar no fundo como quem sabe que a pressa é inimiga do sabor. E do vivido.

Conheci um homem assim. Ou talvez eu o tenha inventado. Ou talvez ele seja todos os velhos que já vi de manhã cedo, sentados à soleira, com um copo nas mãos e os olhos voltados para um horizonte que só eles enxergavam. O aroma do café que ele preparava não ficava na cozinha. Subia, atravessava cômodos, dobrava corredores, e ia pousar, manso, em cada canto da casa — como um fio de memória tecendo a manhã, como diria o poeta.

Ele cantava. Não se sabe bem se para si mesmo ou para alguém que já foi. “Você por aqui é novidade” — essa frase de canção antiga que, repetida vezes sem conta, vai deixando de ser canção e vira reza, encantamento, mantra.

Há palavras que, de tanto ditas, perdem o significado e ganham outra coisa: ganham peso, ganham silêncio, ganham a textura do tempo.

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Lembro das arraias.

Aqui em Salvador, ninguém chama de pipa. Arraia é o nome certo, o nome da terra, e a palavra já tem asas só de ser dita. Arraias no céu de fim de tarde — leves, loucas, disputando o azul com as nuvens e os pássaros. Cada linha puxada por uma mão de criança que ainda não sabe que está aprendendo a soltar: a soltar o barbante, a soltar o dia, a soltar tudo que um dia vai embora de qualquer jeito.

A infância é isso. Um copo de água fresca bebido sem pensar, porque quando se é criança não se pensa em sede, se bebe. Um raio de sol na montanha que aquece sem queimar — porque tudo, nessa idade, vem na medida certa do milagre. Uma cabeleira comprida boiando nos lagos da memória, que a gente vai puxando, puxando, e ela não acaba nunca, porque a memória é funda e o passado não tem fundo.

O sino não conta minutos,
conta momentos.

O menino que eu quero lembrar — e que mora em algum lugar dentro de cada um que leu até aqui — sentia o cheiro de jasmim vindo da casa grande. Havia uma casa grande, sempre há uma casa grande na infância de quem cresceu em um balneário. Com seus mistérios e suas sombras, com seu jardim que cheirava diferente do resto do mundo. E havia o sino da Igreja, marcando as horas que o relógio não sabia marcar — porque o sino não conta minutos, conta momentos.

E as freiras que passavam em frente ao portão, com seus hábitos brancos ou seria marrom? Seus passos silenciosos, como se carregassem nas solas dos sapatos o segredo de como se atravessa um dia com graça.

Mais um dia se ia. Assim. Quieto.

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O filósofo diria que o tempo é uma flecha. O físico, que é uma dimensão. O poeta, que é um rio. Mas o cronista — esse ser menor e mais humano — diria apenas que o tempo cheira a café.

E que há hábitos que o corpo guarda depois que a mente esquece. O jeito de segurar o copo. O gesto de assoar. A melodia murmurada sem letra, sem começo, sem fim. Esses hábitos não são nostalgia — a nostalgia dói, a nostalgia sabe que perdeu. Esses hábitos são outra coisa: são o tempo que ficou no corpo como uma caixa de recordações que ninguém mais abre, mas todos sabem onde está.

O vento leva as arraias. O café esfria. O sino para de tocar. As freiras dobram a esquina e somem. O jasmim fecha suas pétalas quando escurece. E o velho do copo de café, que cantava sem saber que cantava, vai ficando quieto — não porque não tenha mais nada a dizer, mas porque chegou àquela hora da tarde em que as palavras são desnecessárias e basta existir.

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Há manhãs que não pedem licença.

E há crônicas que são apenas isso: a tentativa honesta de dizer que existimos, que sentimos, que o cheiro do café ainda sobe pela janela, e que enquanto isso acontecer, o tempo — esse velho sem coador, esse menino de arraia, esse sino que marca o que o relógio esquece — ainda não terminou.

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Vitória da Conquista, abril de 2026