Política e Resenha

A derrota de Lula e O calvário de Messias

Há dias em que a política não apenas se move — ela se revela. A quarta-feira que selou a rejeição de Jorge Messias ao Supremo não foi apenas uma derrota circunstancial do governo; foi um raio-X impiedoso das forças que hoje disputam o comando real de Brasília. E o que essa radiografia expõe é menos um acidente e mais um rearranjo profundo — talvez duradouro.

Comecemos pelo fato bruto: pela primeira vez em mais de um século, um governo federal vê seu indicado ao Supremo Tribunal Federal ser derrotado no Senado. Não se trata de um tropeço técnico. Trata-se de uma ruptura simbólica. O Senado — historicamente deferente às escolhas presidenciais para a Corte — decidiu dizer “não”. E disse com margem suficiente para transformar dúvida em mensagem política.

Mas mensagens políticas nunca são unívocas. Elas são escritas em camadas.

O calvário de Messias

Jorge Messias não caiu por um erro isolado. Seu percurso até a derrota foi uma travessia marcada por uma aposta arriscada — e, no fim, equivocada. Na sabatina, optou por falar menos ao campo que o indicou e mais àquele que precisava conquistar. Tentou construir pontes com a oposição conservadora, especialmente pelo viés religioso e por acenos a uma postura mais contida do Supremo.

Era uma estratégia compreensível — mas politicamente perigosa.

Ao “pregar para os não convertidos”, como se diz, ele acabou deixando de consolidar o terreno onde sua vitória deveria ser inquestionável: o centro e a base governista. A lógica era simples, mas implacável: votos considerados garantidos deixaram de ser tratados como prioridade. E, em política, o que não é cultivado tende a se dissipar.

O resultado — 34 votos a favor, 42 contra — não foi apenas insuficiente. Foi revelador. Revelador de que o apoio presumido não existia com a solidez imaginada.

O erro de cálculo — e de leitura

O governo operava com números que variavam entre 41 e 46 votos. A realidade entregou sete a menos que o mínimo esperado. Em um universo de 81 senadores, isso não é margem de erro — é falha estrutural de articulação.

Mais grave: ninguém estava verdadeiramente convicto da vitória. Havia esperança, havia projeção, havia narrativa. Mas não havia certeza. E quando um governo entra em votação decisiva sem convicção interna, ele já está, de certa forma, em desvantagem.

O papel de Davi Alcolumbre: o operador silencioso que fez barulho

Se Messias errou na estratégia, Davi Alcolumbre acertou na execução. Sua atuação — inicialmente discreta, depois deliberadamente visível — foi decisiva.

Ele não apenas influenciou votos; ele construiu um gesto político. Ao deixar “digitais” no processo, enviou um recado claro ao Palácio do Planalto: o Senado tem autonomia, e ele tem controle sobre uma fatia decisiva dele.

Mais do que isso, Alcolumbre parece ter jogado olhando para 2027, não para 2026. Ao se aproximar de setores da direita e dialogar com figuras como Flávio Bolsonaro e Rogério Marinho, ele se posiciona em um cenário futuro de Senado potencialmente mais conservador.

Não foi apenas uma derrota do governo. Foi uma demonstração de força de um ator que pretende ser indispensável.

O Supremo na equação

Outro elemento delicado — e raramente explícito — foi o comportamento de ministros do próprio Supremo. Nomes como Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes surgem, ainda que nos bastidores, como peças que influenciaram o ambiente político.

Esse cruzamento entre Judiciário e articulação política não é novo, mas ganha contornos mais sensíveis quando o tema é a própria composição da Corte. A derrota de Messias, nesse sentido, também ecoa como um aviso institucional: o STF não é apenas destinatário das decisões políticas — ele participa, direta ou indiretamente, da arena onde elas são moldadas.

A derrota de Luiz Inácio Lula da Silva: mais política do que aritmética

Para Luiz Inácio Lula da Silva, o impacto vai além do placar. Trata-se de autoridade. Governos não vivem apenas de votos — vivem da percepção de que conseguem obtê-los.

Essa derrota cria uma dúvida perigosa: o governo ainda controla sua base?

Se a resposta for “não com segurança”, o efeito imediato é o enfraquecimento da agenda legislativa. Reformas travam. Projetos emperram. E aliados passam a recalcular suas próprias apostas.

É o início potencial do fenômeno conhecido em Brasília como “pato manco”: quando o governo ainda existe formalmente, mas já perdeu a capacidade de impor sua vontade.

O recado mais amplo

Talvez o ponto mais importante não esteja na derrota em si, mas no que ela sinaliza:

  • Uma reorganização da direita no Senado;
  • Um centrão mais autônomo — e menos previsível;
  • Um governo que precisa recalibrar sua articulação;
  • E um ambiente institucional mais tensionado entre Executivo, Legislativo e Judiciário.

Epílogo: não é o fim — é o início de outra fase

A política brasileira raramente oferece capítulos isolados. Esta quarta-feira não encerra uma história; inaugura outra.

O governo ainda tem tempo, instrumentos e capital político para reagir. Mas a margem de erro diminuiu. E o custo das próximas decisões será mais alto.

Quanto a Jorge Messias, sua trajetória recente deixa uma lição clássica — quase didática: na política, tentar conquistar todos sem consolidar os seus pode significar terminar sem nenhum.

E, às vezes, a derrota não vem do adversário declarado — mas da confiança mal calculada nos aliados silenciosos.