
Padre Carlos
Brasília tem o hábito cruel de devorar seus próprios aliados quando o poder sangra. Nos corredores frios da República, onde as amizades quase sempre têm prazo de validade, basta uma derrota política para que se procure imediatamente um culpado, um traidor, um rosto a ser lançado à fogueira. Foi exatamente isso que começou a acontecer após a rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal. E, de maneira apressada, irresponsável e até covarde, setores da política e parte da imprensa passaram a apontar seus dedos para o senador Jaques Wagner.
Eu não vou me calar diante disso.
Conheço Wagner desde os tempos difíceis, quando o Brasil ainda respirava o ar pesado da repressão e muitos dos que hoje gritam nos salões acarpetados sequer sabiam o que significava enfrentar riscos reais por um projeto político. Trabalhamos juntos no Polo Petroquímico. Vi de perto o militante, o homem, o companheiro. Conheço seu caráter. Conheço sua história. E exatamente por isso tenho dificuldade em acreditar nessa narrativa simplista e conveniente de que ele teria “apunhalado” Luiz Inácio Lula da Silva.
Há algo profundamente injusto em tentar reduzir décadas de amizade, confiança e caminhada política a uma conspiração de bastidor.
Jaques Wagner não é apenas um aliado político de Lula. Ele está entre os melhores amigos que Lula construiu na vida pública e também na esfera pessoal. Isso não é pouca coisa em Brasília. Num ambiente marcado por oportunistas, sobreviventes e adesistas de ocasião, amizades verdadeiras são raras. E talvez seja exatamente isso que muitos não compreendam: relações políticas construídas na luta não se desfazem com a facilidade de um comentário de rede social ou de uma derrota parlamentar.
Mas também é preciso dizer a verdade inteira.
Há meses Wagner vinha confidenciando a pessoas próximas seu desconforto com a narrativa de que a indicação de Jorge Messias seria uma articulação sua apenas porque o ministro da AGU havia trabalhado ao seu lado. Segundo ele, fazia questão de afirmar que a escolha era exclusivamente de Lula. Mais do que isso: reclamava que essa versão o colocara em rota de colisão com Davi Alcolumbre. Isso não é detalhe menor. Na política, versões criadas nos bastidores podem destruir pontes antes mesmo que alguém perceba.
Também não se pode ignorar que o senador Renan Calheiros já havia levantado suspeitas anteriormente, quando acusou Wagner de um suposto acordo envolvendo a pauta da dosimetria no Senado. Desde então, criou-se um ambiente venenoso de desconfiança, murmúrios e intrigas. Brasília virou um imenso tribunal informal onde ninguém precisa apresentar provas; basta insinuar.
E é justamente aí que mora o perigo.
A esquerda brasileira comete, muitas vezes, o erro de destruir seus próprios quadros históricos no primeiro momento de crise. É como se houvesse uma necessidade permanente de encontrar hereges internos para explicar derrotas que, quase sempre, têm causas muito mais profundas e estruturais. A derrota do governo no caso Jorge Messias não nasceu apenas de um homem. Ela expôs fissuras graves na articulação política, mostrou o crescimento do poder do Centrão, revelou a autonomia cada vez maior do Senado e escancarou a nova geometria do poder em Brasília.
Transformar Jaques Wagner em símbolo da traição talvez seja apenas a maneira mais fácil de evitar discussões mais difíceis.
Porque o problema real talvez seja outro: o governo perdeu capacidade de coordenação política? O Senado passou a operar sob uma lógica própria? O Palácio do Planalto subestimou adversários silenciosos? Essas perguntas são mais importantes do que fabricar um Judas da semana.
O silêncio de Wagner, entretanto, começa a pesar. Quando uma narrativa ganha força, o vazio da ausência pública vira combustível para versões cada vez mais agressivas. Por isso, chegou a hora de o senador falar. Não para se humilhar diante da opinião pública nem para pedir absolvição política, mas para apresentar sua verdade. O debate democrático exige transparência. E quem tem história não deve temer a luz.
Mas enquanto isso não acontece, eu me recuso a participar desse linchamento moral.
Há uma diferença enorme entre divergência política e traição. A política brasileira perdeu o senso dessa fronteira. Hoje qualquer discordância vira conspiração. Qualquer silêncio vira prova. Qualquer derrota exige um sacrificado no altar das redes sociais.
Eu não vou me calar diante dessa mentira conveniente.
Porque conheço homens que mudam de lado ao sabor do vento. Conheço políticos que vivem ajoelhados diante do poder. Conheço os profissionais da conveniência. E, sinceramente, Jaques Wagner nunca me pareceu um deles.
O que vejo agora é uma tentativa apressada de apagar biografias inteiras para satisfazer a fome imediata de culpados.
E isso, além de injusto, é perigoso para a própria democracia.




