Milton Santos: 100 Anos de um Pensador Global
Introdução
Milton Almeida dos Santos (1926-2001) foi um dos mais proeminentes geógrafos, intelectuais e humanistas brasileiros, cuja obra e pensamento transcenderam fronteiras, influenciando profundamente a geografia e as ciências sociais em escala global. Nascido em Brotas de Macaúbas, Bahia, este filho de professores primários deixou um legado intelectual vasto e transformador, sendo reverenciado por suas ideias sobre o espaço geográfico, a globalização e as desigualdades sociais. Em 2026, celebramos o centenário de seu nascimento, uma oportunidade para revisitar e reafirmar a relevância de sua contribuição para a compreensão do mundo contemporâneo.
Biografia e Trajetória
Milton Santos nasceu em 3 de maio de 1926, em Brotas de Macaúbas, na Chapada Diamantina, Bahia. Filho de Adalgisa Umbelina de Almeida Santos e Francisco Irineu dos Santos, ambos professores primários, cresceu em um ambiente que valorizava a educação e o conhecimento . Sua formação inicial foi marcada pela influência intelectual de seus pais, que o incentivaram desde cedo ao estudo .
Formou-se em Direito pela Universidade Federal da Bahia (1948), mas sua paixão pela geografia falou mais alto. Doutorou-se em Geografia pela Université de Strasbourg, França, em 1958, sob a orientação do Professor Jean Tricart .
Até 1964, Milton Santos desenvolveu uma carreira acadêmica e pública intensa no Brasil. Foi jornalista e redator do jornal *A Tarde* (1954-1964), professor de geografia humana na Universidade Católica de Salvador (1956-1960) e professor catedrático de geografia humana na Universidade Federal da Bahia, onde fundou o Laboratório de Geociências. Além disso, atuou como diretor da Imprensa Oficial da Bahia (1959-1961), presidente da Fundação Comissão de Planejamento Econômico do Estado da Bahia (1962-1964) e representante da Casa Civil do presidente Jânio Quadros na Bahia (1961). Suas pesquisas iniciais focaram nas realidades locais, como a cidade de Salvador e a região do Recôncavo.
O golpe militar de 1964 impôs um exílio forçado a Milton Santos, que o levou a uma carreira internacional. Entre 1964 e 1977, atuou como professor convidado em diversas universidades na França (Toulouse, Bordeaux, Paris-Sorbonne) e no IEDES (Instituto de Estudos do Desenvolvimento Econômico e Social). Posteriormente, sua trajetória o levou ao MIT (Massachusetts Institute of Technology – Boston) como pesquisador, e a universidades em Toronto (Canadá), Caracas (Venezuela), Dar-es-Salam (Tanzânia) e Columbia University (Nova Iorque) [2]. Esse período foi crucial para a ampliação de seu foco de pesquisa e para o desenvolvimento de sua teorização em geografia, com destaque para o estudo das peculiaridades da economia urbana dos países subdesenvolvidos, resultando em obras como *Les Villes Du Tiers Monde* (1971) e *L’Espace Partagé: les deux circuits de l’économie des pays sous-développés* (1975).
Em 1977, Milton Santos retornou ao Brasil. Após dois anos, conseguiu retomar suas atividades docentes na Universidade Federal do Rio de Janeiro (1979-1983) e, posteriormente, na Universidade de São Paulo (USP), onde se tornou professor titular de geografia humana até sua aposentadoria compulsória. Recebeu o título de Professor Emérito da USP em 1997 e continuou a pesquisar, publicar e orientar estudantes até o fim de sua vida. Em 1995, foi reintegrado oficialmente à Universidade Federal da Bahia, da qual havia sido demitido por “ausência”.
Obra e Pensamento Geográfico
A vasta obra de Milton Santos é caracterizada por uma abordagem crítica e humanista da geografia. Ele é considerado um dos principais expoentes da Geografia Crítica no Brasil e no mundo. Entre seus conceitos mais influentes, destacam-se:
* **Meio Técnico-Científico-Informacional**: Este conceito descreve a fase atual do desenvolvimento geográfico, onde a técnica, a ciência e a informação se tornam os pilares da organização do espaço. É um período marcado pela intensificação da presença de objetos técnicos modernos e da ciência no processo de transformação do espaço geográfico, impulsionado pela terceira fase da industrialização mundial.
* **Espaço Dividido / Espaço Compartilhado**: Refere-se à coexistência de dois circuitos da economia urbana (superior e inferior) nos países subdesenvolvidos, evidenciando as desigualdades e a fragmentação do espaço .
* **Por uma Geografia Nova**: Publicado em 1978, este livro é considerado um marco na teoria miltoniana, criticando a Nova Geografia e propondo uma abordagem que vê o espaço como uma instância social ativa, introduzindo a noção de formação socioespacial.
* **Por uma Outra Globalização**: Nesta obra de 2000, Milton Santos analisa a globalização sob três perspectivas: como fábula (o discurso hegemônico que oculta as contradições), como perversidade (os efeitos negativos como desemprego e pobreza) e como possibilidade (a chance de construir um mundo mais justo e solidário). Ele argumentava que a globalização não é um processo homogêneo, mas multifacetado, com oportunidades e desafios [16].
Suas principais obras incluem: *O Centro da Cidade do Salvador* (1959), *A Cidade nos Países Subdesenvolvidos* (1965), *Por uma Geografia Nova* (1978), *Espaço e Método* (1985), *Metamorfoses do Espaço Habitado* (1988), *Técnica, Espaço, Tempo: Globalização e meio técnico-científico informacional* (1994), *A Natureza do Espaço* (1996) e *Por uma outra globalização* (2000).
Prêmios e Reconhecimento
Milton Santos recebeu inúmeros títulos acadêmicos e honrarias ao longo de sua carreira. O reconhecimento mais significativo foi o **Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud**, em 1994, considerado o
“Nobel da Geografia” . Ele foi o primeiro e único latino-americano a receber essa distinção, o que atesta a relevância e o impacto global de seu pensamento. Além disso, doze universidades brasileiras e sete universidades estrangeiras lhe concederam o título de Doutor Honoris Causa [2].
Legado e Influência
O legado de Milton Santos é vasto e multifacetado. Sua obra continua a ser uma referência fundamental para a compreensão das dinâmicas socioespaciais, especialmente em um contexto de globalização e crescente desigualdade. Ele defendeu uma geografia engajada, que servisse como ferramenta para o planejamento de políticas públicas e para a construção de uma sociedade mais justa .
Milton Santos também é reconhecido por sua contribuição para o pensamento decolonial e antirracista. Embora a questão racial não tenha sido o foco central de sua obra, sua vivência como homem negro e suas análises sobre as desigualdades sociais permeiam seu trabalho, revelando um compromisso com a temática da população negra e a crítica ao racismo estrutural presente na sociedade brasileira. Uma de suas frases célebres reflete essa percepção: “No Brasil existe um tipo de apartheid: não é feio ser racista, é feio dizer que você é racista”.
Sua visão humanista da geografia é expressa em diversas citações, como: “A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos, quando apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une”. Ele nos convida a pensar o espaço não apenas como um palco de eventos, mas como um ator social, um espaço do cidadão, onde as relações de poder e as possibilidades de transformação se manifestam.
Centenário e Celebrações (2026)
O ano de 2026 marca o centenário de nascimento de Milton Santos, e diversas instituições e eventos estão sendo organizados para celebrar sua vida e obra. Seminários, publicações e homenagens estão programados para ocorrer ao longo do ano, reafirmando a atualidade de seu pensamento. Dentre as celebrações, destacam-se:
* **Seminário de Milton Santos 100 Anos**: Previsto para ocorrer de 4 a 8 de maio de 2026, em São Paulo, com formato híbrido (presencial e virtual), organizado pelo Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP) e o Departamento de Geografia da USP.
* **Publicações Comemorativas**: Lançamentos de livros e artigos especiais dedicados ao centenário, como a obra “Milton Santos 100 Anos – Um Geógrafo do Século XXI”, o 20º e último volume da Coleção Milton Santos da Editora da USP.
* **Homenagens em Brotas de Macaúbas**: A cidade natal de Milton Santos, Brotas de Macaúbas, Bahia, também está organizando eventos, como a 1ª Corrida em homenagem aos 100 anos de Milton Santos, unindo esporte e celebração.
Essas celebrações reforçam a importância de Milton Santos como um intelectual que continua a inspirar novas gerações de geógrafos, urbanistas, sociólogos e pensadores críticos em todo o mundo.
Milton Santos foi um gigante do pensamento geográfico, um humanista engajado e um crítico perspicaz das estruturas que moldam o espaço e a sociedade. Sua vida, marcada pela resiliência diante do exílio e pela dedicação incansável ao conhecimento, é um testemunho de sua paixão pela geografia e pelo Brasil. Ao celebrar seus 100 anos, reverenciamos não apenas um filho ilustre de Brotas de Macaúbas, mas um cidadão do mundo cujas ideias continuam a nos guiar na busca por uma globalização mais justa, solidária e humana. Seu legado é um convite permanente à reflexão crítica e à ação transformadora.












