Política e Resenha

A República dos Penduricalhos


Política & Resenha · Opinião

Escândalo Nacional

A República dos Penduricalhos

Trabalhar? Detalhe. O Importante é Receber

 

 

Por Padre Carlos  ·  Vitória da Conquista, Bahia  ·  Maio de 2026

Existe algo de profundamente ofensivo acontecendo no Brasil. Não ofensivo apenas ao bolso do contribuinte — que já apanha diariamente do imposto, da inflação, dos combustíveis, do supermercado e do plano de saúde —, mas ofensivo à inteligência coletiva do povo brasileiro.

O cidadão acorda às cinco da manhã, pega ônibus lotado, enfrenta fila no SUS, trabalha doente porque tem medo de perder o emprego e, quando finalmente chega em casa, descobre que uma parcela da elite do funcionalismo público conseguiu criar uma obra-prima da ficção tropical: o “acúmulo de função sem função”.

Sim, o Brasil alcançou um novo estágio filosófico. Agora é possível receber gratificação até estando de licença. O sujeito não está trabalhando, mas estaria, em tese, acumulando o trabalho que não está fazendo. É quase um fenômeno quântico jurídico. Schopenhauer desistiria do Direito brasileiro em menos de vinte minutos.

Magistrados e membros do Ministério Público poderão receber penduricalhos de até R$ 16 mil por acúmulo de função mesmo durante afastamentos e licenças — justamente quando o país acreditava que haveria um freio nos chamados supersalários.

Mas o Brasil é uma espécie de parque temático da criatividade remuneratória.

Quando o teto constitucional ameaça funcionar, surge um auxílio.

Quando o auxílio fica feio demais, muda-se o nome.

Quando a sociedade protesta, cria-se uma resolução.

E quando o STF parece apertar o cerco… inventa-se uma nova interpretação da velha mamata.

É o “drible hermenêutico” sobre a Constituição.

A Semântica do Privilégio

O mais fascinante é a semântica. Nunca é privilégio. Nunca é excesso. Nunca é farra. Não. São “verbas indenizatórias”, “parcela compensatória”, “valorização por antiguidade”, “acúmulo funcional”. O assalto ganha perfume francês quando recebe linguagem burocrática.

Imagine explicar isso para uma enfermeira da rede pública:

“Olha, você não foi trabalhar porque estava licenciada, mas receberá um bônus extra porque, metafisicamente, acumulou funções em outra dimensão.”

Ou para um professor:

“Parabéns, mestre. O senhor continuará sem reajuste, mas fique feliz porque alguém em Brasília descobriu como ganhar R$ 16 mil extras sem precisar comparecer fisicamente.”

O Brasil virou uma monarquia sem coroa, mas com contracheque.

A Aristocracia Institucional

Enquanto milhões de brasileiros sobrevivem com um salário mínimo humilhante, a aristocracia institucional discute maneiras sofisticadas de atravessar o teto constitucional sem tocá-lo. É quase uma aula avançada de engenharia financeira estatal.

A ironia suprema é que tudo isso acontece em nome da moralidade administrativa.

A Constituição fala em teto salarial. Eles respondem com puxadinhos remuneratórios.

A sociedade fala em igualdade. Eles respondem com auxílios.

O povo pede justiça. O sistema entrega holerites ornamentados.

E depois ainda perguntam por que cresce a descrença nas instituições.

Duas Leis Invisíveis

A verdade inconveniente é que parte do Judiciário brasileiro passou a viver numa realidade paralela. Um universo onde salários de dezenas de milhares de reais parecem insuficientes. Onde penduricalhos são tratados como direitos sagrados. Onde o sofrimento do povo é estatística e o próprio conforto é cláusula pétrea.

Enquanto isso, o trabalhador comum aprende diariamente que, no Brasil, existem duas leis invisíveis:

Uma lei para quem pega fila.
Outra lei para quem assina resoluções.

— A mensagem que o sistema envia silenciosamente todos os dias

O mais trágico não é apenas o dinheiro. É o símbolo. Porque toda vez que uma decisão dessas é aprovada, o cidadão entende a mensagem: “Sacrifícios são para vocês. Privilégios são para nós.”

E assim vai se corroendo a confiança pública. Não por ataques externos. Não por fake news. Não por discursos radicais. Mas pela lenta e contínua fabricação de castas dentro da República.

Teto? Não. Cobertura Duplex com Varanda Gourmet

A população não se revolta porque juízes e promotores ganham bem. Funções importantes devem ser valorizadas. O problema é transformar o serviço público em um condomínio de benefícios blindados, onde até a ausência pode virar fonte de renda adicional.

Num país sério, teto salarial é teto. No Brasil, teto é decoração. O contribuinte olha para cima e vê um limite. A burocracia olha para o mesmo teto e instala uma cobertura duplex com varanda gourmet remuneratória.

E depois ainda se espantam quando o povo perde a fé nas instituições.

Talvez porque a Justiça brasileira esteja se tornando uma entidade curiosa:
cada vez mais cara,
cada vez mais distante,
e cada vez mais parecida com aquilo que deveria combater.

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Padre Carlos

Teólogo, sacerdote e colunista de opinião

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