Padre Carlos
É preciso escrever este texto com honestidade intelectual, serenidade e responsabilidade política. Não se trata aqui de produzir munição para adversários ideológicos nem de alimentar narrativas oportunistas da oposição. O objetivo é outro: provocar reflexão dentro do próprio campo progressista baiano. Porque os erros de um projeto político também precisam ser debatidos por aqueles que acreditaram nele.
E talvez uma das maiores tragédias políticas da esquerda baiana tenha sido exatamente essa: possuir quase duas décadas de poder, legitimidade popular, estabilidade institucional e capacidade administrativa… e ainda assim não realizar reformas estruturais profundamente identificadas com um projeto histórico de esquerda democrática.
A Bahia viveu uma oportunidade rara.
Governos progressistas, quando chegam ao poder através do voto, normalmente carregam consigo a promessa de ampliar direitos, reduzir desigualdades, fortalecer serviços públicos e democratizar oportunidades. Foi isso que muitos militantes, professores, trabalhadores da saúde, sindicalistas e intelectuais imaginaram quando o ciclo petista começou no estado.
Mas o tempo passou.
E a sensação que hoje paira em muitos setores é a de uma oportunidade desperdiçada.
Antes de prosseguir, é necessário fazer uma distinção importante — especialmente sobre os contratos de trabalho no serviço público. O antigo modelo REDA, criado ainda no período do Carlismo, possuía características que, paradoxalmente, ofereciam garantias muito mais próximas do funcionalismo público tradicional. Os trabalhadores contratados tinham salários compatíveis, folha salarial relativamente organizada, pagamentos sem atrasos sistemáticos e um conjunto de direitos que assegurava certa estabilidade prática e dignidade profissional.
Era um modelo criado dentro de uma lógica conservadora de administração pública, é verdade. Mas havia previsibilidade.
O que causa estranhamento em muitos setores progressistas é perceber que, posteriormente, sob governos que se apresentavam como representantes históricos dos trabalhadores, consolidou-se uma lógica diferente através das fundações estatais de saúde e dos processos de terceirização.
E aqui nasce uma contradição profundamente desconfortável para a esquerda.
As fundações surgiram envoltas em um discurso moderno de eficiência administrativa, flexibilidade e gestão técnica. Porém, na prática, muitos profissionais passaram a experimentar vínculos mais frágeis, insegurança trabalhista, instabilidade funcional e perda gradual da identidade clássica do servidor público.
A ironia política é brutal.
Um partido oriundo das lutas sindicais, das greves operárias e da defesa histórica dos direitos trabalhistas terminou criando mecanismos administrativos que muitos trabalhadores enxergam como formas sofisticadas de precarização institucional.
E talvez o maior drama seja exatamente este: a esquerda chegou ao poder, mas em vários momentos administrou o Estado com ferramentas semelhantes às que criticava.
Ao invés de construir um grande modelo baiano de fortalecimento do serviço público, preferiu muitas vezes caminhos administrativos híbridos, tecnocráticos e pragmáticos.
A crítica, porém, não é apenas sobre contratos ou modelos de gestão.
Ela é mais profunda.
Porque o grande sonho progressista sempre foi usar o Estado como instrumento de transformação social.
E nesse aspecto, a Bahia poderia ter ido muito além.
Na educação, por exemplo, um governo de esquerda poderia ter liderado uma revolução educacional histórica no Nordeste brasileiro. Poderia ter universalizado creches públicas, ampliado escolas integrais, fortalecido massivamente o ensino técnico gratuito, interiorizado universidades, investido pesadamente em ciência, tecnologia, inteligência artificial e inclusão digital.
Poderia ter transformado a valorização dos professores numa verdadeira política de Estado — com salários mais competitivos, planos de carreira sólidos, formação continuada e melhores condições de trabalho.
Poderia ter feito da escola pública baiana uma referência nacional.
Também poderia ter aprofundado políticas de inclusão social através da ampliação do acesso à internet, transporte estudantil, alimentação escolar de qualidade, reforço escolar permanente e programas robustos de alfabetização nas regiões mais pobres do estado.
Na saúde, o potencial transformador também era gigantesco.
Um projeto genuinamente progressista poderia ter fortalecido ainda mais o SUS, ampliando hospitais públicos, postos de saúde, medicina preventiva, atenção básica e programas comunitários.
Poderia ter investido fortemente em saúde mental, CAPS, combate à dependência química e atendimento psicológico público — algo absolutamente urgente diante da crise emocional que atinge milhões de brasileiros.
Poderia ter expandido programas de atendimento em áreas rurais e periferias, criado redes modernas de telemedicina pública e fortalecido laboratórios estatais para produção de medicamentos.
Nada disso seria revolucionário no sentido autoritário da palavra.
Seria apenas a aplicação democrática de políticas sociais historicamente associadas à social-democracia e à esquerda democrática moderna — modelos que existem em países como Suécia, Noruega, Dinamarca, Portugal e Uruguai.
Países que conseguiram combinar democracia representativa, economia de mercado e forte proteção social.
É importante dizer também o que este artigo não pretende fazer.
Não desejo entrar aqui no debate sobre segurança pública. Não porque o tema não seja importante — ele é gravíssimo — mas porque o foco deste texto é outro. A intenção não é produzir um panfleto oposicionista nem oferecer manchetes fáceis para adversários políticos. O objetivo é refletir sobre as escolhas históricas feitas pela própria esquerda baiana e sobre aquilo que ela poderia ter construído enquanto possuía força política quase absoluta.
Porque o poder passa.
E quando passar definitivamente, ficará uma pergunta dolorosa ecoando dentro da memória política da Bahia:
Como um grupo que permaneceu tanto tempo governando não realizou reformas sociais mais profundas justamente nas áreas que sempre foram bandeiras históricas da esquerda?
Talvez as futuras gerações da própria militância progressista sejam as mais severas ao responder essa pergunta.
Porque a história costuma ser impiedosa com oportunidades desperdiçadas.





