Política e Resenha

Quando o Escândalo Não Basta: O Fim das Velhas Regras do Marketing Político

 

 

Padre Carlos

 

A política brasileira atravessa uma fase em que antigas certezas do marketing eleitoral parecem perder eficácia diante de um eleitorado cada vez mais polarizado, emocionalmente mobilizado e desconfiado das fórmulas tradicionais de persuasão. O velho manual do marqueteiro — construído sobre a lógica de que escândalos destroem candidaturas e benefícios econômicos garantem votos — encontra hoje um terreno mais instável, fragmentado e ideologicamente endurecido.

É justamente nesse cenário que emergem duas teses em disputa. De um lado, a chamada “calcificação política”, conceito desenvolvido por Thomas Traumann e Felipe Nunes, segundo o qual a polarização consolidou identidades políticas tão rígidas que escândalos éticos já não produzem o mesmo efeito devastador de outrora. De outro, a velha pragmática do voto, agora remodelada em embalagens modernas de comunicação digital, sustentando que o eleitor continua respondendo prioritariamente ao bolso, ao consumo e à sensação imediata de bem-estar material.

Os casos de Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva transformaram-se, assim, em laboratórios vivos dessa disputa conceitual.

No caso de Flávio Bolsonaro, o episódio envolvendo o banqueiro André Esteves Vorcaro reacendeu um debate clássico da política brasileira: escândalos ainda possuem capacidade de produzir erosão de capital político? Em décadas anteriores, a resposta parecia evidente. O episódio envolvendo Roseana Sarney, em 2002, permanece como símbolo máximo de uma candidatura presidencial desintegrada pela força destrutiva de um escândalo. O dinheiro encontrado no escritório ligado ao grupo Sarney foi suficiente para implodir uma trajetória eleitoral considerada competitiva.

Hoje, porém, o ambiente político parece obedecer a outra lógica.

A polarização ideológica criou um fenômeno peculiar: a substituição da avaliação moral pela fidelidade identitária. O eleitor não observa mais apenas o fato em si, mas sobretudo quem denuncia, quem é denunciado e qual narrativa ideológica está em disputa. A ética pública, antes elemento central do julgamento político, passou a competir com um sentimento tribal de pertencimento.

É aí que a tese da calcificação ganha força. A identidade política transforma-se em escudo emocional contra fatos potencialmente destrutivos. O eleitor já não abandona facilmente o líder com quem se identifica culturalmente, religiosamente ou ideologicamente. O cálculo racional cede espaço à defesa simbólica do grupo.

Mas há um detalhe importante: nenhuma calcificação é absoluta.

A dinâmica eleitoral brasileira continua marcada por forte volatilidade emocional. A sociedade digital amplifica crises em velocidade inédita, produzindo ondas simultâneas de indignação, relativização e esquecimento. O que parece sólido numa semana pode se desfazer rapidamente na outra. Talvez seja justamente essa a principal limitação de muitos esquemas acadêmicos: tentar aprisionar a política dentro de fórmulas rígidas, quando ela permanece essencialmente movida por emoções imprevisíveis.

Enquanto isso, no campo governista, Lula parece apostar numa estratégia quase oposta: a reedição contemporânea do clientelismo econômico, agora sofisticado pela comunicação digital e pela hipersegmentação eleitoral.

Programas como Desenrola, subsídios setoriais, crédito facilitado e incentivos econômicos compõem uma tentativa clara de reconstruir vínculos concretos entre governo e eleitorado popular. Trata-se de um estratagema eleitoral clássico: reduzir tensões sociais por meio do consumo e da sensação de alívio imediato.

Historicamente, a fórmula possui eficácia comprovada. Em países de desigualdade estrutural como o Brasil, o bolso sempre ocupou posição central na decisão eleitoral. O eleitor frequentemente vota não na abstração ideológica, mas na percepção concreta de melhora — ou piora — das condições de vida.

Contudo, o Brasil contemporâneo introduziu novos elementos nessa equação.

O eleitor atual não busca apenas benefícios materiais. Ele também deseja pertencimento simbólico, reconhecimento cultural e representação emocional. A política deixou de ser exclusivamente distributiva para tornar-se também identitária.

Essa talvez tenha sido uma das principais lições da eleição de 2022. Jair Bolsonaro, mesmo enfrentando dificuldades econômicas evidentes durante parte de seu governo, conseguiu manter uma base eleitoral extremamente resiliente porque oferecia algo além da economia: uma guerra cultural permanente, uma narrativa moral e um senso de pertencimento político.

A pergunta central, portanto, é se Lula corre o risco de repetir um movimento inverso: apostar excessivamente na engenharia econômica enquanto subestima a importância das chamadas “armas simbólicas”.

O eleitor contemporâneo quer combustível barato, crédito facilitado e renda. Mas quer também sentir que sua visão de mundo está sendo representada. Quer símbolos, narrativas e identidade. A produção simbólica tornou-se parte inseparável da disputa política moderna.

Nesse aspecto, a política brasileira parece viver uma transição histórica curiosa: o velho clientelismo econômico já não opera sozinho, mas a polarização ideológica também não elimina completamente a influência das condições materiais. O voto tornou-se híbrido — simultaneamente emocional, econômico e cultural.

É justamente por isso que a frase sobre a “dinâmica vertiginosa” da política merece atenção especial. Existe hoje uma crise silenciosa das antigas metodologias de persuasão eleitoral. O eleitor foi exposto, durante anos, a campanhas extremamente sofisticadas, manipulações narrativas e estratégias emocionais repetitivas. O excesso de estímulos produziu um fenômeno de imunização parcial.

O cidadão comum aprendeu a desconfiar.

A estética do marketing político continua poderosa, mas já não possui a mesma capacidade hipnótica das décadas anteriores. O eleitor desenvolveu suas próprias “vacinas cognitivas”, ainda que imperfeitas. Isso não significa o fim da manipulação simbólica, mas sua transformação.

O marqueteiro moderno já não atua apenas como vendedor de candidatos. Atua como engenheiro de emoções coletivas, gestor de identidades e produtor de pertencimento simbólico.

E talvez seja exatamente aí que reside o grande dilema democrático brasileiro.

Se a calcificação política triunfar completamente, escândalos perderão relevância e a responsabilização ética ficará enfraquecida. Se o clientelismo econômico continuar dominante, governos poderão transformar políticas públicas em simples instrumentos de fidelização eleitoral.

Nos dois cenários, há riscos institucionais relevantes.

O futuro da democracia brasileira dependerá justamente da capacidade do eleitor de equilibrar emoção, identidade e racionalidade crítica. Nem totalmente “enfeitiçado” pelos estrategistas da comunicação, nem completamente blindado pela polarização.

No fim das contas, o Brasil assiste a um embate fascinante entre os antigos feiticeiros do marketing político e um eleitorado que começa, lentamente, a compreender os truques do palco.

As próximas eleições talvez revelem algo maior do que a vitória de uma candidatura específica. Revelarão se a democracia brasileira continuará refém das velhas engrenagens emocionais ou se está entrando numa nova fase, em que o eleitor finalmente deixa de ser apenas alvo da propaganda para tornar-se protagonista consciente da própria escolha política.