
A nova pesquisa do instituto Paraná Pesquisas, repercutida nacionalmente pela CartaCapital, confirma um cenário que o Política e Resenha vem apontando há meses: a eleição baiana de 2026 não será uma disputa simples entre esquerda e direita. Será algo muito mais complexo, sofisticado e politicamente revelador.
Os números divulgados agora mostram ACM Neto liderando a corrida pelo Governo da Bahia, enquanto nomes ligados ao campo petista aparecem extremamente competitivos para o Senado. A fotografia eleitoral desenha uma Bahia dividida — mas não rompida. Polarizada — mas não radicalizada. E isso diz muito sobre a maturidade do eleitorado baiano.
O que está acontecendo na Bahia talvez seja uma das manifestações políticas mais interessantes do Brasil contemporâneo: o eleitor começa a separar governos de projetos ideológicos permanentes.
O eleitor baiano parece dizer algo muito claro:
“Posso querer alternância no Palácio de Ondina sem abandonar minha identidade política nacional.”
Isso desmonta aquela velha leitura preguiçosa que reduz o eleitor a um rótulo automático. O cidadão pode votar em ACM Neto para governador e, ao mesmo tempo, votar em candidatos ligados ao lulismo para o Senado. E isso não é contradição. É racionalidade política.
Durante muito tempo, parte da elite política brasileira acreditou que o eleitor votava “fechado”, como torcida organizada. A Bahia mostra que não. O eleitor está mais pragmático, mais fragmentado e mais independente do que muitos analistas imaginam.
O levantamento mostra ACM Neto consolidado como principal nome da oposição baiana. Seu capital político permanece forte, especialmente em Salvador, na Região Metropolitana e em setores do interior onde o desgaste administrativo do governo estadual começa a produzir efeitos eleitorais.
Mas há um detalhe decisivo que muitos ignoram:
o lulismo continua profundamente enraizado na Bahia.
E isso explica por que, mesmo diante da vantagem de ACM Neto para o governo, o campo petista mantém enorme força nas disputas senatoriais. Luiz Inácio Lula da Silva ainda possui densidade popular impressionante no estado, sobretudo entre os mais pobres, no interior e nas periferias urbanas.
A Bahia talvez esteja vivendo uma transição silenciosa:
o enfraquecimento do “voto automático”, mas não o colapso das identidades políticas históricas.
E aqui o Política e Resenha precisa registrar algo importante:
nós alertamos para esse cenário antes da confirmação dos institutos.
Enquanto parte da imprensa tratava a Bahia como território consolidado de um único grupo político, mostramos que existia um movimento subterrâneo em curso:
o crescimento da ideia de alternância administrativa sem ruptura ideológica completa.
A pesquisa Paraná apenas transformou em números aquilo que já era perceptível nas ruas, nas conversas populares, nos bastidores políticos e no humor social do estado.
Existe também um fenômeno delicado ocorrendo dentro da direita baiana.
ACM Neto tenta ocupar o espaço do centro moderado, evitando associação direta com o bolsonarismo mais radical. Mas a direita hoje já não é um bloco único. Há setores bolsonaristas tentando construir identidade própria, pressionando alianças e criando tensões futuras para 2026.
Isso pode ajudar ou atrapalhar ACM Neto.
Pode ajudar porque amplia seu espaço ao centro.
Mas pode atrapalhar se houver fragmentação excessiva do eleitorado conservador.
Do lado petista, o desafio também não é pequeno.
O governo Jerônimo enfrenta desgaste natural de gestão, críticas na segurança pública e sinais de fadiga após décadas de hegemonia do grupo político no estado. Ao mesmo tempo, a força de Lula ainda funciona como um poderoso amortecedor eleitoral.
A eleição de 2026 na Bahia poderá produzir uma combinação rara:
um governador oposicionista convivendo com uma bancada senatorial fortemente alinhada ao lulismo.
E isso seria um retrato perfeito do Brasil atual:
fragmentado, híbrido, contraditório — e democraticamente complexo.
Talvez seja justamente isso que incomode tanto os extremistas:
o eleitor brasileiro começa a escapar das caixinhas ideológicas prontas.
A Bahia, mais uma vez, pode estar antecipando o futuro político do país.




