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O Beijo de Judas no Ceará: Ciro Gomes e a Traição de Si Mesmo

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Política Nacional  ·  Eleições 2026

O Beijo de Judas no Ceará: Ciro Gomes e a Traição de Si Mesmo

Quando um homem vende sua história por um palanque, não é apenas a coerência que morre — é a dignidade de uma geração inteira que ele carregou em seu nome.

Padre Carlos

Vitória da Conquista, Bahia  ·  17 de maio de 2025

Há momentos na história em que um homem, de tanto perseguir o poder, perde o rosto. Não de forma gradual — não como quem envelhece imperceptivelmente ao espelho —, mas de uma vez, como quem arranca uma máscara e descobre que, por baixo dela, não havia mais nenhum rosto. É o que estamos assistindo com Ciro Gomes, o tribuno do Ceará, o intelectual da centro-esquerda brasileira, o candidato que por três eleições presidenciais prometeu ser a terceira via da política nacional. No último sábado, dia 16 de maio, em um evento no Theatro José de Alencar, em Fortaleza, Ciro anunciou sua pré-candidatura ao governo do Ceará — de mãos dadas com o bolsonarismo.

Não é pouca coisa. É o homem que chamou Bolsonaro de fascista, de genocida, de ameaça à democracia — o mesmo homem que agora compõe chapa com o pastor Alcides, pai de André Fernandes, deputado federal do PL, o partido do ex-capitão. É o candidato que, para selar essa aliança de conveniência, passou a atacar o Supremo Tribunal Federal com o mesmo vocabulário raivoso que outrora identificava como patrimônio exclusivo da extrema direita. O que aconteceu com Ciro Gomes não é apenas uma capitulação política. É uma tragédia moral.

O Rancor Como Bússola Política

Para compreender a lógica de Ciro, é preciso descer até o fundo do poço do seu ressentimento. O rompimento com o PT não foi apenas político — foi visceral, familiar, pessoal. O racha com seu irmão Cid Gomes, que optou por permanecer no campo petista, transformou a disputa ideológica em ferida de sangue. E quando o rancor ocupa o trono da razão, um homem capaz de tanto — de gestos eloquentes, de análises brilhantes, de discursos que já inflamaram multidões progressistas — torna-se capaz de qualquer coisa.

Ciro transformou o antipetismo em sua única bússola. E quando o ódio ao adversário passa a ser maior do que o amor às próprias convicções, qualquer aliança se torna possível. Qualquer cama se torna aceitável. Qualquer discurso se torna pronunciável. Os bolsonaristas do Ceará — André Fernandes, Capitão Wagner — enxergaram nessa ferida aberta a oportunidade perfeita: ganhar peso intelectual, furar a bolha do eleitorado conservador, ter um nome com currículo e vocabulário para enfrentar a máquina do PT cearense. E Ciro, seduzido pela promessa de palanque, de tempo de TV, de estrutura partidária, aceitou o convite.

“O que Ciro esquece é que o teatro da traição tem memória longa. O eleitor que hoje o aplaude junto com os bolsonaristas é o mesmo que amanhã lhe cobrará o preço da coerência que ele mesmo enterrou.”

O PT Como Grande Protagonista — e o Papel de Ciro no Roteiro da Direita

É preciso compreender o papel estrutural que o PT ocupa nessa narrativa. O Partido dos Trabalhadores, apesar de todos os seus desgastes, de todas as contradições acumuladas em décadas de exercício do poder, continua sendo o grande protagonista da esquerda brasileira. É a força hegemônica que organiza o campo progressista, que dá identidade ao movimento popular, que conecta sindicatos, movimentos sociais, teologia da libertação e cultura popular num projeto — imperfeito, humano, sujeito a erros —, mas projeto. E é exatamente por isso que a direita o tem como alvo preferencial.

Nesse enredo, o objetivo declarado de Ciro é claro: isolar o PT, transformá-lo em coadjuvante, esvaziar sua hegemonia e, com isso, abrir espaço para que ele mesmo ocupe o centro do palco. Mas há um detalhe que a vaidade de Ciro não lhe permite enxergar: ao atacar o PT com o mesmo arsenal discursivo da família Bolsonaro, ele não cria um novo protagonismo — ele se torna um ator alugado no roteiro da direita. Um instrumento. Um Joaquim Silvério dos Reis moderno, que acredita estar escrevendo a própria história enquanto, na verdade, está apenas assinando a capitulação dela.

Paralelo Histórico

A Social-Democracia alemã fechou os olhos quando Hitler perseguia e exterminava os comunistas. Calculava que, com “os vermelhos” fora de cena, o nazismo se tornaria mais fácil de debelar e o caminho ao poder mais livre. Sabemos como essa história terminou. O silêncio conivente não herda o futuro — ele apenas pavimenta a estrada para o abismo. Ciro Gomes, ao se aliar aos que ontem chamou de ameaça à democracia, comete o mesmo equívoco histórico: acredita que pode usar o fogo da direita para aquecer apenas suas ambições, sem que as chamas o consumam.

O Canto da Sereia e a Esquerda que Escuta

O que mais inquieta nessa equação não é apenas Ciro — é a existência de setores da esquerda que ainda alimentam os desejos de poder deste homem. Por oportunismo, por ingenuidade, por incapacidade de perceber o fio que separa a crítica legítima ao PT da capitulação aos projetos da direita, há vozes progressistas que continuam a emprestar crédito ao discurso de Ciro como se ele ainda fosse uma alternativa dentro do campo popular. Não é. Nunca mais será.

Ciro Gomes cruzou uma linha que não tem retorno. Pode ganhar a eleição no Ceará — a política tem suas ironias e suas crueldades. Mas terá ganho com os votos daqueles que, há pouco tempo, ele mesmo qualificava como representantes do autoritarismo e do obscurantismo. E não há vitória eleitoral capaz de lavar essa mancha. Porque há derrotas que ocorrem antes das urnas: são as derrotas da alma, do caráter, da história pessoal que um homem público constrói ao longo de décadas e destrói em uma única noite de palanque.

A Lógica da Traição e o Tribunal da História

Existe uma lógica cruel e inevitável nas traições políticas: elas cobram juros. Aqueles que mentem, que enganam, que praticam a falsidade e a volte-face como método de ascensão, um dia se encontram diante do tribunal do eleitor — e esse tribunal não tem misericórdia para com os que abandonaram suas convicções por conveniência. A Família Bolsonaro sabe que seu grande adversário é Lula e o PT. Por isso, aplaude qualquer força que os ataque, venha ela de onde vier. Ciro foi seduzido por esse aplauso. Achou que podia sentar à mesa dos que ontem eram seus inimigos sem perder a própria identidade. Enganou-se.

A história política brasileira guarda exemplos de figuras que, consumidas pela ambição e pelo rancor, cruzaram linhas que nunca deveriam ter cruzado. Algumas venceram eleições. Nenhuma venceu a história. Porque a história — essa narradora implacável e imparcial — registra não apenas o que um homem fez, mas o que ele traiu para fazê-lo. E no registro dessa história, Ciro Gomes acaba de escrever um capítulo que nenhuma vitória eleitoral poderá apagar.

Que o povo cearense saiba discernir. Que a esquerda brasileira saiba distinguir a crítica construtiva da traição disfarçada de alternativa. E que os que ainda acreditam que a política pode ser exercida com honestidade e coerência não se deixem seduzir pelo canto da sereia de um homem que vendeu sua história por um palanque. O Ceará merece mais. O Brasil merece mais. E a dignidade da política — essa velha e maltratada dignidade — merece ser defendida, mesmo quando custa caro.

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Padre Carlos

Teólogo, padre e articulista. Editor do blog Política e Resenha. Escreve de Vitória da Conquista, Bahia, a partir da tradição da Teologia da Libertação e da crítica profética à história do Brasil.