Política e Resenha

A Contradição Baiana: Líder Econômica do Nordeste e Sexto Pior Índice Social do Brasil

 

Padre Carlos

É difícil acreditar no que estou vendo.

A Bahia, estado que ostenta o maior Produto Interno Bruto do Nordeste, com impressionantes R$ 430,9 bilhões, a sétima maior economia do Brasil, aparece agora como o sexto pior estado em desenvolvimento social do país. Não estamos falando de um estado falido, periférico ou sem arrecadação. Estamos falando da Bahia. Terra de riqueas naturais, potência turística, polo petroquímico, força agrícola, porto estratégico, indústria, energia e consumo.

E mesmo assim, segundo o Índice de Progresso Social Brasil (IPS), a Bahia amarga a 22ª colocação nacional, com nota 58,72. À frente apenas de Rondônia, Amapá, Acre, Maranhão e Pará.

A pergunta que ecoa é inevitável: como um estado tão rico consegue produzir indicadores sociais tão pobres?

Não existe mais espaço para desculpas.

Depois de quase vinte anos de hegemonia política, não é mais possível repetir o velho mantra da “herança do Carlismo”. O argumento já venceu o prazo de validade faz tempo. Governos passam. Ciclos políticos se encerram. E quem está há duas décadas comandando a máquina pública precisa assumir não apenas os méritos, mas também os fracassos.

A verdade é dura: a Bahia virou um paradoxo social.

Tem o maior PIB do Nordeste, mas não consegue entregar qualidade de vida proporcional ao seu tamanho econômico. Lidera em volume de riqueza regional, mas continua convivendo com índices vergonhosos de saneamento, segurança, moradia precária, baixa inclusão social e oportunidades limitadas.

Mais chocante ainda é observar outro dado simbólico: a Bahia também lidera o número de famílias dependentes do Bolsa Família, com cerca de 2,47 milhões de famílias atendidas.

Isso não deveria ser tratado como motivo de celebração política. Deveria provocar constrangimento moral e administrativo.

Porque quando um estado se torna campeão simultaneamente em arrecadação econômica e dependência social, algo está profundamente errado no modelo de desenvolvimento adotado.

O problema não é o programa social. Programas de transferência de renda são essenciais para combater a fome e proteger os mais vulneráveis. O verdadeiro drama é um estado rico não conseguir transformar crescimento econômico em emancipação social.

E aí mora a tragédia baiana.

A riqueza cresce. Os números macroeconômicos aparecem bonitos nos relatórios. Os discursos oficiais falam em avanços históricos. Mas a vida concreta de milhões de pessoas continua presa numa rotina de precariedade.

O IPS não mede apenas dinheiro. Mede dignidade.

Ele analisa 57 indicadores ligados à vida real das pessoas: saneamento, segurança, moradia, acesso à informação, meio ambiente, inclusão social, oportunidades e liberdade individual.

Ou seja: mede se a população consegue prosperar.

E o resultado da Bahia é devastador.

Enquanto Santa Catarina, São Paulo e Distrito Federal aparecem liderando o país, a Bahia continua atolada num modelo onde crescimento econômico não alcança a maioria da população.

É como se existissem duas Bahias.

Uma Bahia dos grandes números, dos bilhões, das propagandas institucionais e dos anúncios triunfalistas.

E outra Bahia invisível, onde o cidadão enfrenta escolas deficientes, hospitais sobrecarregados, violência crescente, falta de saneamento e ausência de perspectivas.

O mais constrangedor é perceber que cidades pequenas como Abaíra conseguem apresentar desempenho social melhor que Salvador, a capital mais famosa do Nordeste e centro econômico do estado.

Isso desmonta a narrativa de que o problema é apenas falta de recursos.

Não é.

O problema é prioridade. É gestão. É eficiência. É modelo administrativo. É incapacidade de converter riqueza em bem-estar coletivo.

A Bahia parece viver uma espécie de “economia ornamental”: os números brilham nos relatórios, mas não mudam estruturalmente a vida do povo.

E há ainda um elemento político incômodo: criou-se na Bahia uma cultura de conformismo estatístico. Sempre que os indicadores negativos aparecem, a culpa é empurrada para o passado. Para governos anteriores. Para heranças históricas. Para desigualdades seculares.

Mas vinte anos depois, essa narrativa começa a soar quase ofensiva à inteligência da população.

Nenhum projeto político pode permanecer duas décadas no poder sem ser responsabilizado pelos próprios resultados.

A democracia exige isso.

Governar não é apenas vencer eleições. É produzir transformação concreta.

E quando os números sociais permanecem tão ruins apesar de tanto tempo de poder, o problema deixa de ser herança. Passa a ser autoria.

A Bahia merece mais.

Muito mais.

Um estado com esse potencial econômico não pode naturalizar índices africanos de saneamento, violência e exclusão social enquanto celebra recordes de PIB.

O povo baiano não pode continuar recebendo apenas discursos emocionados enquanto os indicadores revelam uma realidade brutal.

Porque no fim das contas, desenvolvimento não é o tamanho da economia.

Desenvolvimento é a qualidade da vida humana.

E nisso, infelizmente, a Bahia continua ficando para trás.