Política e Resenha


Memória Sindical & História Política do Brasil

Dossiê Histórico

Zé Novais:
O Camponês que Sacudiu
a Esquerda Brasileira

Da greve dos sapateiros em São Paulo à fundação da CUT e do PT na Bahia — a trajetória singular de José Gomes Novaes (1928–1992), uma das figuras mais importantes e menos lembradas da luta camponesa no Brasil.

Por Padre Carlos  |  Junho de 2026  |  34 anos de seu falecimento

Há vidas que deveriam ocupar capítulos inteiros nos livros de história do Brasil e que, no entanto, mal encontram uma linha nos registros acadêmicos. A trajetória de José Gomes Novaes, o Zé Novais — nascido em 29 de outubro de 1928 em Pariconha, no sertão alagoano, e falecido em 22 de junho de 1992, vítima de parada cardíaca —, é um desses casos que interpelam a consciência historiográfica da esquerda brasileira. Sindicalista rural, fundador da CUT e do PT na Bahia, sobrevivente de golpes e massacres, ele atravessou como protagonista alguns dos momentos mais decisivos da história política do país no século XX.

Que um personagem de tal envergadura não tenha ainda recebido uma biografia política aprofundada é, nas palavras de quem pesquisa o tema, “inadmissível”. Este artigo é, ao mesmo tempo, um resgate e um chamado: resgate da memória de um homem que ajudou a construir o sindicalismo moderno no Brasil; chamado para que jovens historiadores se debrucem sobre sua vida e sua obra.

I. As Raízes no Sertão e o Despertar em São Paulo

Filho do sertão de Alagoas, Zé Novais viveu a pobreza estrutural do Nordeste brasileiro antes de migrar, nos anos 1950, para São Paulo — o mesmo caminho percorrido por milhões de nordestinos em busca de trabalho. Na capital paulista, exerceu o ofício de sapateiro e foi nesse ambiente urbano-industrial que a consciência política começou a se forjar. O momento decisivo veio em 1960, quando participou da greve dos sapateiros, episódio que ele próprio identificaria, décadas depois em entrevista ao LABOR/UESB, como o despertar de sua consciência de classe.

Essa experiência urbana seria decisiva para sua atuação posterior. Quando retornou ao sertão alagoano, Novaes não voltou apenas como trabalhador: voltou como organizador. Trazia na bagagem não apenas a vivência da greve, mas a compreensão de que a organização coletiva era a única ferramenta capaz de enfrentar as estruturas de poder que aprisionavam os trabalhadores rurais.

“O resgate histórico da memória de trabalhadores rurais e pequenos proprietários como sujeitos políticos não tem tido a devida atenção por parte da esquerda brasileira, no que se refere à militância sindical e política da busca pela conquista dos direitos trabalhistas e sociais.”
— Fernando Sá, pesquisador e militante

II. A Organização Camponesa e as Reformas de Base

De volta ao Nordeste, Zé Novais mergulhou na efervescência política dos primeiros anos da década de 1960. O Brasil do início do governo João Goulart era um país em ebulição: as Ligas Camponesas de Francisco Julião mobilizavam o campo; a Igreja Católica progressista experimentava novas formas de organização popular; e o Estado tentava regulamentar o sindicalismo rural, o que aconteceu formalmente em 1962, no contexto das chamadas reformas de base.

Novaes vinculou-se ao Movimento de Educação de Base (MEB), fundado em 1961, que em Alagoas funcionou como “o maior instrumento de articulação da esquerda católica”, combinando alfabetização, cultura popular e sindicalização num projeto de conscientização política. Nesse ambiente, a militância na Ação Popular (AP) — criada em 1963 a partir da Juventude Universitária Católica — completava o quadro ideológico de uma esquerda que enxergava na “revolução” a antítese do “capitalismo” e apostava numa perspectiva comunitarista de transformação social.

Em 1963, Novaes ajudou a fundar o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Água Branca (AL), sob influência da Igreja Católica local, e assumiu a direção da Federação de Trabalhadores na Agricultura (FETRAL). O auge desse momento chegou em agosto do mesmo ano, quando foi eleito terceiro vice-presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG), numa composição política que reuniu militâncias católica e comunista com o objetivo estratégico de manter as Ligas Camponesas fora da direção da luta política no campo.

III. O Golpe de 1964 e a Radicalização Ideológica

O golpe civil-militar de abril de 1964 destruiu a institucionalidade democrática e desmantelou as organizações de trabalhadores que vinham sendo construídas com tanto esforço. Para Novaes, como para muitos militantes de sua geração, a brutalidade da repressão e o fechamento de todos os canais legais de transformação social produziram uma virada ideológica profunda: a adesão ao marxismo-leninismo e, posteriormente, ao maoísmo.

Ao longo dos anos 1960 e 1970, militou na Ação Popular Marxista-Leninista (AP-ML) e depois ingressou no Partido Comunista do Brasil (PC do B). Em 1966, ainda elegeu-se vereador em Água Branca (AL) pelo MDB, mas não concluiu o mandato — as divergências com os latifundiários da cidade tornaram a continuidade impossível. Era o sinal de que a via eleitoral, naquelas condições, tinha limites estreitos.

Episódio — Dezembro de 1976

O Dia em que a Morte Passou Perto: O Massacre da Lapa

Em dezembro de 1976, agentes do aparato repressivo da ditadura invadiram uma casa no bairro da Lapa, em São Paulo, onde se realizava uma reunião do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil (PC do B). O que ficou conhecido como o “Massacre da Lapa” resultou na morte de dirigentes históricos do partido, num dos episódios mais sangrentos da repressão política no Brasil.

Zé Novais estava naquela casa. Participava da reunião do Comitê Central. Mas havia saído mais cedo — tinha outro compromisso e não ficou até o final. A saída antecipada salvou sua vida. Enquanto os agentes militares invadiam o imóvel e executavam seus companheiros, Novaes já estava em outro lugar.

Esse episódio ilustra, com dramaticidade perturbadora, o preço que a geração de Zé Novais pagou pela ousadia de resistir. Muitos não tiveram a mesma sorte. Novaes sobreviveu — e com essa sobrevivência continuou a lutar.

IV. A Ruptura com o PC do B e o Partido Revolucionário Comunista

Sobrevivente do massacre, Novaes continuou sua trajetória política — mas com olhos cada vez mais críticos em relação às escolhas do PC do B. A experiência da Guerrilha do Araguaia, a estratégia clandestina de luta armada que o partido havia adotado nas selvas do Pará e do Mato Grosso, gerou profundas divergências internas. Novaes foi um dos militantes que criticaram abertamente aquela linha, questionando sua viabilidade e seus custos humanos.

No final dos anos 1970, o rompimento tornou-se definitivo. Com outros dissidentes, Novaes fundou o Partido Revolucionário Comunista (PRC), organização que, longe de se isolar na radicalidade sectária, desempenhou papel surpreendentemente construtivo na transição democrática brasileira. Foi justamente o PRC que, na Bahia, contribuiu de forma decisiva para a criação do Partido dos Trabalhadores — a grande novidade política da redemocratização.

V. A Bahia, o PT, a CUT e os Anos de Ouro do Sindicalismo

Fixando-se em Vitória da Conquista (BA), Zé Novais encontrou no sudoeste baiano o terreno propício para a construção que seria o legado mais duradouro de sua vida: a organização dos trabalhadores rurais em torno das novas estruturas do sindicalismo combativo. A cidade, polo regional num dos territórios mais marcados pela concentração fundiária e pelo trabalho precário dos catadores de café, tornava-se palco de uma renovação sindical profunda.

Em 1982, candidatou-se a vice-governador da Bahia na chapa encabeçada por Edival Passos, pelo PT — um gesto que era tanto político quanto simbólico: afirmar que os trabalhadores rurais tinham um projeto para o estado, não apenas reivindicações. A candidatura não triunfou nas urnas, mas plantou raízes.

No plano sindical, a contribuição foi ainda mais substantiva. Eleito para a primeira Executiva Nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT), exerceu a função de secretário nacional rural — quando o Departamento Nacional dos Trabalhadores Rurais ainda operava como secretaria — entre 1983 e 1986, e depois como vice-presidente da CUT para a região Nordeste. Foram anos em que o “novo sindicalismo” brasileiro se consolidava como força hegemônica no movimento operário, e Novaes estava no coração dessa construção.

“Sua presença marcante na organização de sindicato no campo alagoano, com a regulamentação do sindicalismo rural em 1962, estava vinculada à militância no Movimento de Educação de Base (MEB) e, depois, na Ação Popular (AP).”
— Fernando Sá, pesquisador

VI. Lavradores, Catadores de Café e a Reforma Agrária

O eixo central de toda a militância de Zé Novais — desde o sertão alagoano até as serras do sudoeste baiano — foi sempre a defesa dos trabalhadores mais vulneráveis do campo: os lavradores sem terra, os meeiros, os arrendatários, e especialmente os catadores de café da região de Vitória da Conquista. Para esses homens e mulheres que colhiam o grão que enriquecia outros, Novaes construiu sindicatos, negociou acordos, denunciou abusos e defendeu direitos que o Estado brasileiro custava a reconhecer.

A reforma agrária era, para ele, não uma bandeira abstrata de panfleto, mas uma necessidade concreta e urgente que ele via estampada nas faces dos trabalhadores que organizava. Décadas antes que o debate sobre concentração fundiária voltasse com força ao centro da agenda pública — como acontece hoje, diante dos ataques ao MST —, Novaes já apontava para a íntima relação entre a distribuição da terra e qualquer projeto de desenvolvimento que não fosse meramente reproduzir o subdesenvolvimento das oligarquias rurais.

VII. Falecimento e Legado

No Informativo da CUT datado de 25 de junho a 2 de julho de 1992, foi registrado o falecimento de José Gomes Novaes, aos 63 anos, vítima de parada cardíaca. Morreu como viveu: no movimento, na luta, entre companheiros. Não deixou fortuna, não deixou cargo. Deixou sindicatos organizados, militantes formados e uma região transformada pela consciência política que ajudou a despertar.

Seu legado institucional mais visível é o reconhecimento do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), que batizou uma de suas regionais territoriais com o nome de Zé Novais — um gesto que a historiografia acadêmica ainda não teve a grandeza de replicar com o peso que merece.

Considerações Finais

Um Chamado aos Jovens Historiadores

Este artigo faz um chamado para que os jovens historiadores aprofundem seus estudos sobre esse personagem central da emergência da luta camponesa como sujeito político no Brasil. Somente tratado por artigos, verbetes e alusões memorialísticas, Zé Novais permanece à espera de uma biografia política à altura de sua trajetória.

Em um momento de ataque orquestrado por forças reacionárias contra o MST no Congresso Nacional, lembrar sua trajetória sindical e partidária talvez seja uma forma de compreendermos a atualidade da luta pela democratização da terra no Brasil — efetuando uma releitura do passado histórico para avançarmos no bom combate contra as oligarquias que teimam em manter o subdesenvolvimento.

Cronologia Política

1928 Nascimento em Pariconha (Água Branca, AL)
Anos 1950 Migração para São Paulo como sapateiro
1960 Participação na greve dos sapateiros em SP — despertar da consciência de classe
1961–63 Militância no MEB e na Ação Popular (AP). Fundação do sindicato de Água Branca
1963 Eleito 3º vice-presidente da CONTAG
Pós-1964 Adesão ao marxismo-leninismo e maoísmo. Militância na AP-ML e no PC do B
1966 Eleito vereador em Água Branca (AL) pelo MDB; não conclui o mandato
Dez. 1976 Sobrevive ao Massacre da Lapa — saiu antes do fim da reunião do Comitê Central do PC do B
Fim 1970s Ruptura com o PC do B. Fundação do Partido Revolucionário Comunista (PRC)
1982 Candidato a vice-governador da Bahia pelo PT, na chapa de Edival Passos
1983–86 Secretário Nacional Rural da CUT. Membro da 1ª Executiva Nacional da CUT
Anos 1980–92 Vice-presidente da CUT para o Nordeste. Organização dos trabalhadores rurais em Vitória da Conquista
22/06/1992 Falecimento aos 63 anos, vítima de parada cardíaca, em Vitória da Conquista (BA)

Fontes e Referências

SOUZA, Adilson Amorim de; AGUIAR, Edinalva Padre. Entrevista com José Gomes Novaes. Revista CEAS, 2003.

SILVA, 2007. Organização sindical e campesinato em Alagoas. Referência sobre MEB e Ação Popular.

MARTINS, 1984, p. 87-88. Sobre a CONTAG e a exclusão das Ligas Camponesas da direção política.

Dicionário Biográfico do Movimento Sindical. Centro de Documentação e Memória Sindical da CUT (CEDOC). Disponível em: http://cedoc.cut.org.br/cedoc/dicionario-biografico/963

Informativo CUT, 25 de junho a 2 de julho de 1992. Nota de falecimento de José Gomes Novaes.

História
Sindicalismo Rural
PT
CUT
Reforma Agrária
Memória Política

Autor

Padre Carlos

Militante, pesquisador e testemunha da trajetória de Zé Novais. Publicado em junho de 2026, em memória dos 34 anos do falecimento do companheiro.