Enquanto houver palavras, ela permanece

Uma homenagem a Heleusa Figueira Câmara — professora, escritora, guardiã da memória de Vitória da Conquista
Por Padre Carlos
Há
pessoas que atravessam a vida como rios — ruidosos, urgentes, cheios de força — e há aquelas que se assemelham mais às raízes: invisíveis aos olhos desatentos, mas sustentando, em silêncio, tudo que cresce acima do chão. Heleusa Figueira Câmara era dessas últimas. Uma mulher que escolheu as palavras como casa, a educação como missão e Vitória da Conquista como razão de ser. E quando partiu, em 2019, deixou atrás de si não apenas livros e dissertações, mas uma cidade mais sábia, mais lida, mais consciente de si mesma.
Nascida em 14 de maio de 1944, Heleusa cresceu num lar conservador onde os livros, paradoxalmente, eram a única janela sem grades. Ali, entre os clássicos que seu pai deixava sobre a mesa, uma menina aprendeu que as palavras não descrevem apenas o mundo — elas o constroem, o contestam, o redimem. Essa descoberta precoce moldaria cada escolha que ela faria nos setenta e cinco anos que se seguiriam.
A mulher que voltou para aprender — e para ensinar

Existe um tipo raro de coragem que não se faz na guerra nem nos palanques. Faz-se na decisão de uma mãe de quatro filhos que, aos trinta anos, decide retornar à sala de aula — desta vez como aluna. Em 1974, Heleusa ingressou no curso de Letras. Não para provar algo ao mundo, mas porque sentia, com a certeza que só os vocacionados conhecem, que havia muito mais a aprender antes de ter o direito de ensinar.
O que veio depois foi uma trajetória de rara completude: licenciatura, especialização pela PUC/MG, mestrado em Ciências Sociais e doutorado em Ciências Políticas — ambos pela PUC/SP. Cada título, uma nova camada de compreensão sobre a linguagem como fenômeno humano e político. Cada tese, um gesto de amor disfarçado de rigor acadêmico.
Sua dissertação de mestrado, “Além dos Muros e das Grades: Discursos Prisionais”, nasceu do encontro entre uma professora universitária e homens e mulheres encarcerados que descobriam, pela primeira vez, que tinham algo a dizer — e que havia alguém disposto a ler.
Premiada pela PUC/SP e publicada em livro, a pesquisa revelou o que Heleusa sempre soube: a palavra escrita não é privilégio dos letrados. É oxigênio. É o grito que se transforma em frase, a dor que encontra forma, a humanidade que insiste em existir mesmo entre grades.
O Proler e a democracia da leitura

Se existe um capítulo da vida de Heleusa Câmara que concentra, como lente, toda a sua visão de mundo, esse capítulo chama-se PROLER. Coordenadora do Comitê Proler/UESB de Vitória da Conquista desde 1992, ela transformou um programa nacional em algo visceralmente local — uma política de amor às letras que chegava às periferias, às prisões, às roças, aos cantos da cidade onde os livros nunca tinham entrado antes.
“O PROLER é minha vida.”
— Heleusa Figueira Câmara
Quatro palavras. Uma declaração que resume décadas de atuação. Quando alguém diz que um programa é a sua vida, não está descrevendo uma carreira — está confessando uma fé. Heleusa acreditava, com a convicção dos que viram o milagre de perto, que a leitura transforma destinos. Não como metáfora: ela viu isso acontecer. Nas rodas de leitura em presídios, no brilho nos olhos de trabalhadores rurais que publicaram seus primeiros textos, nos jovens da periferia conquistense que descobriram que também podiam escrever histórias.
A escritora e o sertão como matéria-prima

Não seria justo falar de Heleusa sem falar da escritora. Em 1982, lançou “Mulheres Acorrentadas” — contos que antecipavam, com a sensibilidade de quem vive o que escreve, os debates que só décadas depois ganhariam centralidade pública. Em 1991, o romance “Quarenta Graus de Outono” lhe rendeu o Prêmio Djalma Gomes. O título é uma imagem perfeita: o calor do sertão encontrando a melancolia do declínio, o sol nordestino entrando pela janela enquanto a vida se complica, se aprofunda, se recusa a ser simples.
Para além da prosa, Heleusa também escreveu para o teatro. Suas peças — entre elas a infantil “Fantasia Serrana” — levaram ao palco as vozes e paisagens do sudoeste baiano, afirmando que a cultura do interior não precisa imitar nenhum centro para ter grandeza. Ela sabia disso no corpo, porque era do interior que vinha sua grandeza.
O Núcleo Letras de Vida, que Heleusa coordenou com paixão intacta, foi talvez o gesto mais radical de sua carreira: levar a escrita criativa para dentro de presídios e para as mãos de trabalhadores rurais e autodidatas. Ali, a literatura deixava de ser ornamento e se tornava ferramenta de dignidade. Cada texto produzido por um interno ou por um agricultor era, para ela, uma pequena revolução.
A exposição: quando a memória vira morada
Em março de 2026, o Museu Regional de Vitória da Conquista — a Casa Henriqueta Prates, casarão do século XIX que guarda em suas paredes o cheiro do tempo — abriu as portas para “Heleusa Câmara: Enquanto houver palavras”. Uma exposição que não é apenas homenagem: é conversa. É o convite para que as novas gerações olhem nos olhos de uma mulher que nunca parou de acreditar que educar é o ato político mais corajoso que existe.
Fotografias, documentos, objetos pessoais, livros com marcas de leitura — cada peça é um fragmento de uma vida vivida com propósito. O fato de a mostra acontecer justamente no museu que Heleusa ajudou a coordenar não é coincidência: é poesia. O lugar que ela ajudou a construir agora a acolhe, como um abraço que o tempo faz questão de dar.
Há pessoas que morrem e deixam um silêncio. Heleusa Câmara morreu e deixou uma biblioteca. Deixou alunos que ensinam. Deixou leitores que antes não eram. Deixou uma cidade que, por causa dela, lê um pouco mais — e se entende um pouco melhor.
Celebrar seus 82 anos — que seriam em 14 de maio de 2026 — não é um exercício de nostalgia. É um ato de resistência. Num tempo em que livros assustam e pensamentos incômodos são silenciados, lembrar de Heleusa é lembrar que as palavras têm peso, que a educação tem poder e que nenhuma conquista — nem mesmo a de uma cidade que leva esse nome — se faz sem cultura.
Vá à exposição. Toque, com os olhos, os objetos que ela tocou com as mãos. Leia o que ela escreveu. Ouça, no silêncio das vitrines, o eco do que ela disse durante décadas: que toda pessoa merece ter acesso à palavra. Que ler é um direito. Que escrever é uma forma de existir. E que, enquanto houver palavras, ela permanece.
Artigo de Opinião Editorial
Publicado em homenagem aos 82 anos de Heleusa Figueira Câmara (1944–2019)
Educação
Vitória da Conquista
Heleusa Câmara
Literatura Baiana
UESB
PROLER




