
Padre Carlos
Houve um tempo em que a Pituba não era apenas um bairro.
Era quase uma família espalhada entre ruas de barro, quintais largos, árvores generosas e almas desarmadas diante da vida. Quem nasceu ali nas décadas de 1950 e 1960 carrega dentro do peito uma Salvador que o progresso não conseguiu compreender — e talvez por isso tenha destruído sem perceber.
Não a Salvador dos cartões-postais turísticos.
Não a cidade das avenidas congestionadas e dos edifícios sem rosto.
Mas a outra.
A Salvador que sabia o nome dos seus filhos.
A velha Pituba tinha cheiro.
Cheiro de terra molhada depois das chuvas repentinas de verão.
Cheiro de manga madura caindo no pomar da fazenda de Juventino.
Cheiro do café coado lentamente no pano, saindo das cozinhas acolhedoras como na casa de dona Esther, onde parecia existir sempre uma cadeira vazia esperando alguém chegar.
E as pessoas chegavam.
Naquele tempo ninguém precisava telefonar antes de visitar alguém. A amizade não dependia de aplicativos, senhas ou agendas lotadas. Bastava parar no portão, bater palmas e ouvir aquela voz que hoje parece pertencer a outro mundo:
— “Entre, meu filho…”
E se entrava.
Entrava-se na casa.
Entrava-se na conversa.
Entrava-se na vida das pessoas.
Talvez tenha sido essa a maior riqueza daquela geração: viver sem blindagens emocionais.
Hoje, quando atravesso a Pituba moderna, coberta de concreto, grades e pressa, às vezes tenho a sensação de caminhar sobre um bairro fantasma. Como se debaixo dos prédios altos ainda respirassem as vozes antigas das famílias que construíram ali uma humanidade simples e verdadeira.
Ali, entre a Rua São Paulo e a Rua Rio de Janeiro, o mundo parecia menor — e justamente por isso mais humano.
As tardes quentes pertenciam aos meninos correndo atrás de bola no campo do Barreiro. O suor, a poeira e os joelhos ralados eram medalhas da infância. As meninas brincavam nas calçadas enquanto as mães conversavam demoradamente nos portões, compartilhando receitas, preocupações e esperanças.
Havia vida nas calçadas.
Hoje existem carros.
Naquele tempo existiam pessoas.
À noite, os rádios ligados nas casas de dona Tudinha e Zizi derramavam boleros e samba-canção pelas ruas silenciosas. E aquelas músicas não eram simples canções. Eram confissões da alma. Entravam pelas janelas abertas e pareciam conversar com a solidão secreta de cada morador.
Na casa de dona Núbia e seu Espinheira havia sempre movimento. Na casa de seu Filinho e dona Maris existia aquele calor humano que fazia qualquer visitante sentir-se pertencente. E como esquecer a casa de seu Jalpery e dona Jandira?
A família dos “J”.
Uma verdadeira pequena constelação doméstica onde os filhos pareciam carregar no nome o orgulho silencioso daquela união rara. Eram muitos. Mas cada um parecia uma joia lapidada pela simplicidade e pelo respeito.
E havia também o velho Armazém Popular.
O armazém de seu Milton.
A boate de Aurino, A Cabana de Petro. Sim seu Tinha duas filhas lindas as morenas que não eram do Rio Vermelho, mas eram da Pituba.
O Clube português, com seus carnavais o Baile de Iemanjá e a decoradora que morava no bairro. Dona Maria Clara, esposa de Dr. João u Engenheiro Elétrico.
Lugares que vendiam muito mais do que mercadorias.
Vendiam convivência.
Hoje os supermercados têm corredores imensos, luzes frias e caixas eletrônicos.
Mas ninguém pergunta como vai sua mãe.
Ninguém conhece a história da sua família.
Ninguém lhe chama pelo apelido da infância.
A modernidade facilitou a vida.
Mas empobreceu os encontros.
Na Igreja Nossa Senhora da Luz, as missas dos jovens eram mais do que celebrações religiosas. Eram espaços de descoberta da vida. Ali nasciam amizades, sonhos, vocações e os primeiros amores inocentes.
E como eram belos aqueles amores.
Os rapazes penteavam cuidadosamente o cabelo antes de encontrar a moça na esquina. As meninas escondiam cartas perfumadas dentro dos cadernos. Bastava um olhar durante a procissão ou uma conversa rápida depois da bênção do padre para que o coração passasse a bater diferente durante semanas.
Naquele tempo, amar ainda era uma forma de delicadeza.
Talvez por isso doesse menos existir.
Hoje, vivemos conectados ao mundo inteiro — e profundamente afastados uns dos outros. Antigamente, a vida acontecia nas calçadas. Hoje acontece atrás de telas iluminadas onde ninguém se toca verdadeiramente.
Antes, conhecíamos o sofrimento do vizinho pelo silêncio da janela fechada.
Agora, às vezes, nem sabemos o nome de quem mora ao lado.
E que tragédia silenciosa é essa:
viver cercado de gente e ainda assim morrer de solidão.
A geração da velha Pituba talvez tenha sido a última a experimentar uma humanidade menos acelerada, menos artificial e mais sensível. Não porque a vida fosse fácil — ela nunca foi — mas porque havia comunidade.
Havia tempo.
Tempo para ouvir.
Tempo para sofrer junto.
Tempo para rir sem motivo.
Tempo para simplesmente existir.
As mães conversavam enquanto o café passava no pano. Os pais chegavam do trabalho trazendo o cansaço honrado dos homens simples. Os avós contavam histórias como quem entrega heranças invisíveis aos netos.
E sem perceber, aquela gente construía uma riqueza que nenhum progresso conseguiria reproduzir.
Porque existem coisas que não sobrevivem ao cimento.
A antiga Pituba desapareceu devagar.
Primeiro vieram os muros altos.
Depois os portões eletrônicos.
Depois os edifícios.
Depois a correria.
Depois o medo.
E então, quase sem percebermos, desapareceram as cadeiras nas calçadas.
E quando as cadeiras desaparecem das calçadas, desaparece também uma parte da alma de uma cidade.
Hoje muitos daqueles meninos do campo do Barreiro já caminham lentamente com os cabelos brancos e os olhos cheios de lembranças. Muitos amigos partiram. Muitas casas já não existem. Muitas esquinas vivem apenas dentro da memória.
Mas há algo que o tempo não conseguiu demolir.
A saudade.
Essa arquitetura invisível que continua sustentando por dentro aqueles que viveram a Pituba quando ela ainda era feita mais de gente do que de concreto.
Talvez seja isso que chamamos de pertencimento:
carregar um lugar dentro de si mesmo mesmo depois que ele deixa de existir.
E às vezes penso que Deus, na sua infinita misericórdia, permite que certas lembranças nunca morram porque sabe que alguns seres humanos sobrevivem delas.
A velha Pituba vive assim.
No cheiro imaginário do café de dona Ester.
Na voz distante dos boleros na casa de dona Tudinha e Zizi.
Nas missas dos jovens em Nossa Senhora da Luz.
Nos risos espalhados entre a Rua São Paulo e a Rua Rio de Janeiro.
Nas festas de Largo.
Nos quintais.
Nos abraços.
Nos silêncios cheios de afeto.
Tudo passou.
Mas não foi embora.
Porque existem lugares que deixam de existir no mapa apenas para continuarem vivendo, para sempre, dentro do coração de quem os amou.




