História & Memória — Vitória da Conquista, BA
Vitória da Conquista Não Nasceu Pronta: Uma Cidade Construída por Muitas Mãos

Por Padre Carlos | Colaboração: Prof. Durval Lemos de Menezes
Algumas cidades parecem surgir da noite para o dia. Crescem, expandem-se e ganham importância econômica sem que as novas gerações conheçam os caminhos percorridos para que chegassem onde estão. Vitória da Conquista não é uma dessas cidades.
As reflexões que compartilho neste artigo são resultado de longas e enriquecedoras conversas com o professor Durval Lemos de Menezes, um dos grandes conhecedores da história conquistense. Ao ouvi-lo, compreendi ainda mais que a história de Conquista não pode ser reduzida a simplificações ideológicas, paixões políticas ou interpretações superficiais. Ela exige estudo, contexto e, acima de tudo, respeito pela verdade histórica.
“Vitória da Conquista não foi construída por um homem apenas, por uma família apenas ou por um grupo isolado. Ela é fruto de uma obra coletiva.”
— Padre Carlos
Cada migrante que aqui chegou, cada trabalhador anônimo, cada comerciante, cada professor, cada religioso, cada agricultor e cada líder comunitário colocou um tijolo na construção desta cidade que hoje se tornou uma das mais importantes do interior do Nordeste brasileiro.
Quem percorre as avenidas modernas, os campi universitários, os centros comerciais e os bairros que se multiplicam talvez não imagine que tudo isso nasceu de um pequeno núcleo urbano perdido nos sertões da antiga Região da Ressaca. A grandeza atual de Conquista é resultado de gerações inteiras que sonharam e trabalharam.
Nesse contexto, é impossível ignorar o papel exercido pelas antigas lideranças conhecidas como coronéis. Aqui é preciso fazer um exercício de honestidade intelectual: separar o joio do trigo.
A palavra “coronel” costuma despertar imediatamente imagens de violência, autoritarismo, perseguições e injustiças. E não sem razão. O Brasil conheceu figuras que transformaram o poder local em instrumento de opressão. Contudo, a história não pode ser escrita com generalizações.
Os chamados coronéis de Vitória da Conquista possuíam características próprias e atuaram dentro de uma realidade histórica muito diferente daquela retratada em romances, filmes e narrativas sobre outras regiões do país. Em uma época em que o Estado era praticamente ausente, cabia a essas lideranças exercer funções administrativas, promover a organização social, incentivar a economia e, muitas vezes, garantir a estabilidade local.
Não eram figuras perfeitas. Nenhum personagem histórico o é. Mas reduzir sua participação apenas aos estereótipos do coronelismo nacional seria cometer uma injustiça com a memória conquistense.
O Coronelismo “Diferenciado” em Vitória da Conquista: Uma Análise Histórica
Introdução
A história do Brasil, especialmente durante a Primeira República (1889–1930), é intrinsecamente ligada ao fenômeno do coronelismo. Este sistema de poder, caracterizado pela influência de grandes proprietários rurais — os “coronéis” — sobre a vida política e social local, é frequentemente associado a práticas de mandonismo, voto de cabresto e violência. No entanto, a narrativa histórica nem sempre é homogênea, e algumas regiões apresentam nuances que desafiam a generalização. É o caso de Vitória da Conquista, no sudoeste da Bahia, onde o coronelismo assumiu uma forma “diferenciada”, marcada por um caráter progressista e pacificador.
Este artigo busca aprofundar a compreensão sobre o coronelismo em Vitória da Conquista, contrastando a percepção local com a visão historiográfica mais ampla do fenômeno. Analisaremos as figuras proeminentes — Joaquim Corrêa de Mello, Diogo Sá Barretto, Ernesto Dantas e Enriqueta Pratas — e examinaremos como suas ações e legados contribuíram para moldar uma identidade coronelista peculiar na região.
O Coronelismo no Brasil: Uma Visão Geral
O coronelismo, em sua essência, é uma manifestação do poder privado que se adaptou a um regime político representativo. Vítor Nunes Leal, em sua obra clássica Coronelismo, Enxada e Voto, define-o como um compromisso entre o poder público e a influência social dos chefes locais, notadamente os senhores de terras. A origem do termo remonta à Guarda Nacional, criada em 1831, onde a patente de coronel correspondia a um comando municipal ou regional, dependente do prestígio econômico e social do titular.
Eul-Soo Pang complementa que o coronelismo atingiu seu auge entre 1850 e 1950, sendo um exercício de poder monopolizante por um coronel cuja legitimidade se baseava em seu status de senhor absoluto, fortalecendo-se como elemento dominante nas instituições sociais, econômicas e políticas durante a transição de uma nação rural para uma industrial.
| Característica | Descrição |
|---|---|
| Mandonismo | Exercício autoritário do poder por chefes locais. |
| Voto de Cabresto | Coerção de eleitores para votar em candidatos indicados pelos coronéis. |
| Clientelismo | Troca de favores e benefícios por apoio político. |
| Violência | Uso da força para manter a ordem e eliminar opositores. |
| Controle da Terra | Domínio sobre vastas extensões de terra e, consequentemente, sobre a população rural. |
O Coronelismo “Diferenciado” em Vitória da Conquista
A narrativa local de Vitória da Conquista apresenta um coronelismo com características distintas daquele estereótipo nacional. Os coronéis conquistenses são descritos como “homens de bem e do bem”, pacificadores, cultos e preocupados com o desenvolvimento da cidade. Eles teriam contribuído significativamente para a transformação de uma “simples cidade tabaroa” em um polo universitário e econômico no sudoeste da Bahia.
Essa diferenciação é atribuída a diversos fatores, incluindo a preocupação com a educação, a promoção da paz e a capacidade de convivência com a diversidade. Ao contrário dos coronéis “brigões, valentes, sanguinários, saqueadores e bandidos” de outras regiões, os de Conquista foram progressistas e tementes a Deus, construindo capelas e igrejas em suas fazendas e vilas.
Figuras Emblemáticas do Coronelismo Conquistense
Perfil Histórico
Joaquim Corrêa de Mello
Descrito como um homem de cultura e pacificador, de tradicional família conquistense, buscou o estudo em Mucugê, um centro de educação de qualidade na época. Autodidata, tornou-se advogado e adjunto promotor em Vitória da Conquista. A praça ao lado da Matriz, próxima ao Correio e à Prefeitura, leva seu nome em homenagem. Sua trajetória ilustra a valorização do conhecimento e a dedicação ao serviço público, características que o distinguem do coronelismo tradicional.
Perfil Histórico
Diogo Sá Barretto
Negro, advogado e promotor público, veio para Conquista e foi recebido de braços abertos. Sua inteligência e carisma o levaram a conviver com a sociedade conquistense, atuando como professor, promotor e advogado. Casou-se com a filha do coronel Gugé e tornou-se intendente (prefeito) de Vitória da Conquista. Posteriormente, elegeu-se deputado estadual, prestando grandes serviços à Bahia. Sua história desafia a ideia de um coronelismo exclusivamente branco e elitista. A Praça Sabarretto, onde se encontra o Tiro de Guerra, é uma homenagem ao seu legado.
Perfil Histórico
Ernesto Dantas
Professor vindo de Caetité, foi contratado pelos coronéis de Conquista para educar seus filhos. Sua vasta cultura — que incluía o domínio de português, espanhol, inglês e latim — e sua correspondência com intelectuais europeus o tornam um exemplo de erudição. Ernesto Dantas foi o fundador do movimento espírita em Vitória da Conquista, contribuindo para que a cidade se tornasse um importante centro do espiritismo no Brasil.
Perfil Histórico
Enriqueta Pratas
Filha e casada em família coronelista, é apresentada como a matriarca da política coronelista em Vitória da Conquista. Respeitada por toda a comunidade por suas qualidades e virtudes, era uma mulher de profundo conhecimento, respeito e influência. Políticos de Salvador a procuravam para aconselhamento, e muitos de seus descendentes se tornaram prefeitos e políticos na região. Sua influência demonstra o papel significativo das mulheres na manutenção e articulação do poder local.
Perfil Histórico
José Pedral Sampaio
Neto do coronel Gugé, é considerado a maior liderança política de Vitória da Conquista e da região. Foi creditado por ter dado “régua e compasso” para que Conquista se tornasse a segunda cidade do interior da Bahia e uma das melhores em qualidade de vida. Sua atuação como engenheiro e sua visão de progresso para a cidade mostram a evolução do poder local para além das patentes militares.
Conclusão
“É fundamental, portanto, separar o joio do trigo ao analisar o coronelismo, reconhecendo que suas manifestações foram diversas e que, em alguns contextos, como o de Vitória da Conquista, ele pode ter desempenhado um papel progressista.”
Com José Pedral Sampaio encerra-se simbolicamente a longa saga das grandes lideranças oriundas do ciclo coronelista que marcou os séculos XIX e XX em Vitória da Conquista. Pedral representou uma espécie de ponte entre dois mundos: de um lado, a herança política, econômica e social construída pelas antigas famílias que ajudaram a estruturar a cidade; de outro, a modernização administrativa e o surgimento de uma nova dinâmica democrática. Sua liderança ultrapassou fronteiras partidárias e consolidou uma visão de desenvolvimento que projetou Vitória da Conquista como referência regional. Com ele, fecha-se um importante capítulo da história política conquistense, iniciado ainda nos tempos da antiga Região da Ressaca.
No século XXI, entretanto, novas lideranças assumiram papel preponderante na condução dos destinos da cidade. Entre elas, destaca-se Guilherme Menezes, que governou Vitória da Conquista por diversos mandatos e deixou sua marca na expansão das políticas públicas e na consolidação do município como polo regional. Mais recentemente, a história registrou outro marco significativo com a ascensão de Sheila Lemos, a primeira mulher eleita prefeita de Vitória da Conquista. Sua chegada ao comando do Executivo municipal representa não apenas uma mudança administrativa, mas também um importante símbolo da ampliação da participação feminina nos espaços de poder, inaugurando uma nova etapa na trajetória política da terceira maior cidade da Bahia.
A análise do coronelismo em Vitória da Conquista revela uma complexidade que transcende a visão simplista do fenômeno. As figuras de Joaquim Corrêa de Mello, Diogo Sá Barretto, Ernesto Dantas e Enriqueta Pratas pintam um quadro de lideranças que, embora inseridas em um sistema coronelista, atuaram de forma a promover o desenvolvimento, a educação, a paz e a inclusão social na região. A cidade, que hoje se orgulha de ser um polo universitário e uma “cidade aberta” que acolhe a todos, deve parte de sua identidade e progresso a essas figuras históricas.
Referências
- LEAL, V. N. Coronelismo, Enxada e Voto: O Município e o Regime Representativo no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
- PANG, E.-S. Coronelismo in Northeast Brazil: The Fall of the Old Republic. Seattle: University of Washington Press, 1979.
- SOUZA, B. J. Mandonismo e poder local no Sertão da Ressaca. Pol. Hist. Soc., Vitória da Conquista, v. 20, n. 2, p. 74–94, 2021.
- Câmara lamenta morte do ex-prefeito José Pedral Sampaio. Disponível em: https://www.camaravc.ba.gov.br/home/noticia/22698/camara-lamenta-morte-do-exprefeito-jose-pedral-sampaio. Acesso em: 17 jun. 2026.
Coronelismo
Vitória da Conquista
Bahia
Primeira República
Memória Coletiva
Artigo elaborado por Padre Carlos, com base em conversas e estudos orientados pelo Prof. Durval Lemos de Menezes, historiador e estudioso da memória conquistense.




