Artigo de Opinião · Padre Carlos · Política e Resenha
Há datas que pertencem ao calendário. Outras pertencem à memória coletiva. O dia 3 de outubro de 1996 é uma delas.
Naquela noite, Vitória da Conquista não assistiu apenas à divulgação de um resultado eleitoral. Assistiu ao encerramento de um ciclo político e ao nascimento de outro. Os 52.928 votos obtidos por Guilherme Menezes — equivalentes a 59,75% dos votos válidos — representaram muito mais do que uma vitória nas urnas. Foram a materialização de uma esperança construída ao longo de anos de trabalho silencioso, organização popular e persistência política.
Trinta anos depois, vale a pena recordar aquele momento não apenas como um fato histórico, mas como uma das mais importantes transformações políticas da história conquistense.
Guilherme Menezes
“Os 52.928 votos de Guilherme Menezes em 1996 não foram apenas uma vitória eleitoral — foram a consumação de um projeto coletivo que sobreviveu à dor, à derrota e ao luto.”
Uma cidade que pedia mudança
Para compreender a dimensão daquela eleição, é necessário voltar no tempo.
Vitória da Conquista crescia rapidamente, consolidando-se como polo regional do sudoeste baiano. Mas o crescimento urbano contrastava com problemas estruturais que afetavam a vida cotidiana da população. Havia carências em áreas essenciais, como saneamento, educação e saúde pública. O Bairro Brasil, um dos mais populosos da cidade, ainda não possuía rede de esgotamento sanitário. Os serviços públicos enfrentavam dificuldades, e grande parte da população sentia que suas demandas permaneciam distantes dos centros de decisão.
Era uma cidade cheia de potencial, mas que carregava também o peso de décadas de um mesmo modelo político.
Mudar essa realidade exigia mais do que uma candidatura. Exigia a construção de um projeto coletivo.
O vazio deixado por José Novais
A história dessa transformação não começa em 1996. Ela começa em 1992.
Naquele ano, o Partido dos Trabalhadores havia escolhido José Novais como candidato à prefeitura. Novais era uma liderança respeitada, profundamente ligada às bases partidárias e aos movimentos populares. Sua candidatura simbolizava o amadurecimento de um projeto político que vinha sendo construído desde a redemocratização.
Mas a morte repentina de José Novais alterou completamente o cenário. A perda produziu dor, incerteza e um enorme desafio organizativo. O partido precisava preservar o sonho coletivo que havia sido construído em torno daquela candidatura.
Foi nesse contexto que surgiu a figura de Guilherme Menezes. Médico formado pela Escola Baiana de Medicina e Saúde Pública, nascido em Iguaí, Guilherme era filiado ao Partido Verde. Contudo, suas convicções e sua visão de sociedade dialogavam profundamente com o projeto defendido pelo PT em Vitória da Conquista.
A candidatura de 1992 não venceu. Mas revelou algo decisivo: a cidade havia encontrado uma liderança capaz de dialogar com diferentes setores sociais, unir forças distintas e transformar esperança em mobilização.
A derrota eleitoral acabou se tornando o primeiro capítulo de uma vitória histórica.
Memorial Histórico · 1992–1996
A travessia para o PT
Entre 1992 e 1994, o Brasil vivia um momento de intensa participação política. O impeachment de Fernando Collor havia demonstrado a força da mobilização popular. Ao mesmo tempo, Luiz Inácio Lula da Silva percorria o país com a Caravana da Cidadania, aproximando-se das realidades locais e fortalecendo um projeto nacional de transformação social.
Quando a caravana passou por Vitória da Conquista, Guilherme Menezes encontrou a confirmação de algo que já amadurecia dentro dele. Seu lugar era no PT.
A filiação representou mais do que uma mudança partidária. Foi a convergência definitiva entre uma liderança emergente e um projeto político que crescia na cidade.
Na eleição de 1994, Guilherme foi eleito deputado estadual. O resultado ampliou sua projeção política e consolidou seu nome como principal referência da oposição conquistense.
O líder que unificou a esperança
Há candidatos que disputam eleições. Há líderes que representam mudanças. Guilherme Menezes tornou-se essa segunda figura.
Seu principal diferencial não estava apenas em seu currículo ou em sua trajetória política. Estava na capacidade de dialogar com diferentes segmentos da sociedade. Falava com trabalhadores, empresários, estudantes, professores, lideranças religiosas e moradores da zona rural com a mesma serenidade e respeito.
“Transmitia confiança. E confiança é um ativo raro em tempos de descrença política.”
A composição da chapa com Clóvis Raimundo Gomes de Assis ampliou ainda mais essa capacidade de diálogo. Médico, ex-deputado federal e homem de reconhecida trajetória pública, Clóvis agregava experiência e credibilidade ao projeto da Frente Conquista Popular.
A campanha ganhou corpo. E ganhou alma.
A força invisível da vitória
Nenhuma grande transformação é obra de uma única pessoa.
Por trás da liderança de Guilherme havia uma ampla rede de militantes, dirigentes e apoiadores. Wilton Cunha e inúmeros companheiros desempenharam papel fundamental na construção da estrutura partidária que sustentou o projeto ao longo dos anos. Foram eles que mantiveram viva a organização após a morte de José Novais. Foram eles que fortaleceram as bases, mobilizaram comunidades e transformaram esperança em capacidade eleitoral.
A zona rural também teve protagonismo decisivo. Padres ligados à Teologia da Libertação e às Comunidades Eclesiais de Base contribuíram para ampliar o debate político em localidades historicamente esquecidas pelo poder público. Não se tratava de orientação eleitoral, mas de um trabalho permanente de conscientização, participação comunitária e cidadania.
Nas áreas urbanas, o movimento sindical cumpriu papel semelhante. Sindicatos organizados mobilizaram trabalhadores, estimularam debates e ajudaram a construir uma campanha profundamente conectada com as demandas populares.
A vitória foi de Guilherme. Mas também foi de milhares de mãos anônimas.
O dia em que a cidade mudou de rumo
Quando as urnas foram abertas, a resposta veio de forma inequívoca. Guilherme Menezes foi eleito prefeito com ampla vantagem. A cidade havia escolhido mudar. E escolheu fazê-lo de forma clara.
A vitória não significava apenas a derrota de um grupo político tradicional. Significava a aprovação de um novo modelo de gestão baseado na participação popular e na ampliação do diálogo entre governo e sociedade. Era o início de uma experiência administrativa que deixaria marcas profundas na história local.
O legado de um projeto
Os anos seguintes consolidaram aquilo que a campanha havia prometido. O Orçamento Participativo passou a permitir que comunidades urbanas e rurais influenciassem diretamente a definição de prioridades do governo municipal. Houve avanços importantes em áreas como saúde, saneamento e habitação popular. O conceito de Governo Participativo deixou de ser apenas uma bandeira eleitoral para se transformar em método administrativo.
Ao lado de Guilherme, Clóvis Assis contribuiu decisivamente para a construção dessa experiência. Sua atuação firme e discreta ajudou a dar estabilidade e credibilidade ao governo.
Décadas depois, muitos dos debates sobre participação cidadã, planejamento urbano e inclusão social em Vitória da Conquista ainda remetem àquele período. Esse talvez seja o maior sinal de um legado duradouro.
Trinta anos depois
O tempo costuma apagar detalhes. Mas também ilumina significados.
Trinta anos depois, a eleição de 1996 continua sendo lembrada porque representou algo maior do que uma simples alternância de poder. Representou a demonstração de que projetos coletivos podem sobreviver às perdas, às derrotas e às adversidades.
José Novais não viu a vitória acontecer. Mas parte dela nasceu de sua trajetória. Wilton Cunha e tantos outros militantes talvez nunca tenham ocupado as manchetes. Mas ajudaram a escrever a história. Clóvis Assis já não está entre nós. Mas permanece na memória de uma geração que acompanhou sua dedicação à vida pública.
E Guilherme Menezes tornou-se símbolo de um ciclo político que ultrapassou fronteiras municipais e alcançou projeção estadual e nacional.
Ao final, o verdadeiro autor daquele feito histórico não foi apenas um líder, um partido ou uma coligação. Foram os milhares de conquistenses que decidiram acreditar que a cidade poderia ser diferente.
Porque as grandes transformações da política começam exatamente assim: quando uma população deixa de aceitar o mundo como ele é e passa a votar no mundo que deseja construir.
Trinta anos não apagam certos acontecimentos. Às vezes, apenas os tornam mais luminosos.
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Padre Carlos
Teólogo, sacerdote e colunista político — Política e Resenha



