
Por Padre Carlos
A notícia de que o senador Jaques Wagner, líder do governo no Senado Federal, foi alvo de mandado de busca e apreensão cumprido pela Polícia Federal, durante mais uma fase da Operação Compliance Zero, movimentou o cenário político nacional e, especialmente, o debate público na Bahia.
Diante de fatos dessa natureza, considero importante reafirmar uma posição que sempre procurei defender, independentemente de preferências ideológicas, partidárias ou eleitorais: investigações devem acontecer quando houver indícios que justifiquem a atuação dos órgãos competentes, mas a condenação de qualquer cidadão somente pode ocorrer após a apresentação das provas e a garantia do amplo direito de defesa.
Nos últimos anos, o Brasil viveu um ambiente de intensa polarização política. Muitas vezes, vimos setores da esquerda comemorarem investigações contra lideranças da direita antes mesmo da conclusão dos processos. Da mesma forma, também observamos setores da direita fazerem o mesmo quando os investigados pertenciam ao campo adversário. Essa lógica da torcida organizada não fortalece a democracia; ao contrário, enfraquece as instituições e transforma a Justiça em instrumento de disputa política.
Por isso, mantenho a mesma coerência que sempre adotei. Quando investigações alcançam figuras ligadas à direita, defendo que sejam apurados os fatos sem perseguição e sem condenações antecipadas. Agora, diante das investigações que atingem um dos principais líderes do Partido dos Trabalhadores na Bahia, a postura deve ser exatamente a mesma.
A busca e apreensão autorizada pelo Supremo Tribunal Federal não representa uma condenação. Trata-se de uma medida investigativa destinada à coleta de elementos que possam confirmar ou afastar suspeitas. Em um Estado Democrático de Direito, ninguém pode ser considerado culpado antes da conclusão do devido processo legal.
A presunção de inocência não é um privilégio de políticos influentes. Ela é uma garantia constitucional que protege todos os brasileiros. Vale para o filho de Bolsonaro, vale para um senador do PT, vale para um prefeito, um vereador ou um cidadão comum. Não existe democracia sem respeito a esse princípio.
Ao mesmo tempo, seria um erro utilizar a presunção de inocência como escudo permanente contra qualquer apuração. Se ao final das investigações forem encontradas provas robustas que demonstrem a prática de corrupção, lavagem de dinheiro ou qualquer outro crime, o responsável deverá responder perante a Justiça, independentemente do cargo que ocupa ou da influência política que possua.
O combate à corrupção perde credibilidade quando se torna seletivo. Não podemos exigir rigor quando o investigado é nosso adversário e complacência quando pertence ao nosso grupo político. A verdadeira defesa da ética pública exige coerência. A lei não pode ter partido, não pode ter ideologia e não pode escolher seus alvos de acordo com conveniências eleitorais.
Caso Jaques Wagner seja inocentado, será necessário reconhecer sua inocência com a mesma firmeza com que hoje se noticia a investigação. Se as acusações não forem comprovadas, caberá aos seus críticos admitir o erro e respeitar a decisão da Justiça. Por outro lado, se as provas confirmarem as suspeitas, a responsabilização deverá ocorrer com todo o rigor previsto pela legislação.
O Brasil precisa superar a cultura do julgamento antecipado e da condenação por manchetes. A Justiça deve ser guiada por provas, não por paixões políticas. A democracia amadurece quando aprendemos a defender princípios e não apenas pessoas.
No final das contas, a questão é simples: seja filho de Bolsonaro, seja senador da esquerda, quem for inocente merece respeito; quem for culpado deve responder pelos seus atos. É assim que funciona uma República séria. É assim que deve funcionar o Estado de Direito.




