
Padre Carlos
A saída do senador Jaques Wagner da liderança do governo no Senado, em meio ao desgaste provocado pelas revelações envolvendo o Banco Master, transcende a figura do parlamentar e lança luz sobre uma questão muito mais profunda: a longa e silenciosa crise de identidade que corrói o projeto político que um dia mobilizou milhões de brasileiros em torno de ideais de transformação social.
O episódio não deve ser analisado apenas sob a ótica jurídica. A legalidade, por si só, não esgota a discussão política. Há condutas que podem estar perfeitamente amparadas pela legislação e, ainda assim, serem incompatíveis com a ética, com a coerência ideológica e com os valores que historicamente deram origem a determinados movimentos políticos.
O que está em jogo não é apenas um senador ou um banco. O que está em debate é a transformação de um partido que nasceu nos sindicatos, nas comunidades eclesiais de base, nos movimentos populares e nas lutas sociais, mas que, ao longo das décadas, passou a conviver de forma cada vez mais natural com setores do grande capital, operadores financeiros e grupos empresariais que outrora representavam exatamente aquilo que combatia.
Sou de uma época em que o candidato a vice-governador da Bahia era sapateiro, andava de bicicleta, e o candidato a governador era funcionário público. Havia uma identificação quase orgânica entre os dirigentes e a base social que os sustentava. Não era apenas uma questão de origem humilde; era uma questão de visão de mundo.
Os vinte anos de governo transformaram o partido não em uma social-democracia moderna, como muitos imaginavam, mas em um conglomerado de alianças que perdeu sua alma.
A lógica do poder substituiu gradualmente a lógica da transformação.
A necessidade de vencer eleições passou a justificar acordos antes impensáveis. A governabilidade converteu-se em argumento permanente para flexibilizar princípios. O pragmatismo, inicialmente apresentado como ferramenta de sobrevivência política, tornou-se método. Depois virou cultura. E, por fim, transformou-se em identidade.
Nesse processo, a fronteira entre adaptação e descaracterização foi sendo apagada.
A aproximação com empresários, banqueiros e grandes grupos econômicos deixou de ser uma estratégia circunstancial para tornar-se parte estrutural do modelo político. Não se trata de demonizar o setor privado ou defender uma visão romântica da política. Governar exige diálogo amplo. O problema surge quando o diálogo se converte em dependência e quando os interesses econômicos passam a influenciar a agenda política mais do que os compromissos assumidos com a população.
O caso Banco Master aparece justamente nesse contexto.
Independentemente das conclusões jurídicas que ainda possam surgir, a simples associação de lideranças históricas de um partido de esquerda a operações e relações que evocam o universo da especulação financeira produz um efeito devastador sobre sua credibilidade.
A pergunta que emerge não é se houve crime.
A pergunta é: como chegamos até aqui?
Como um partido que nasceu denunciando privilégios tornou-se tão confortável frequentando os salões do poder econômico?
Como uma organização que fazia da ética uma bandeira transformou o pragmatismo em valor supremo?
Como dirigentes que um dia criticavam as velhas oligarquias passaram a reproduzir muitos de seus métodos?
Talvez a resposta esteja justamente na longa permanência no poder.
Governos prolongados tendem a criar uma burocracia política preocupada não apenas em governar, mas em preservar a própria sobrevivência. Com o tempo, o projeto deixa de existir para transformar a sociedade e passa a existir para manter-se no comando dela.
O resultado é um fenômeno conhecido na história política mundial: partidos criados para desafiar o sistema acabam sendo absorvidos por ele.
A rebeldia transforma-se em gestão.
A militância transforma-se em estrutura.
O sonho transforma-se em máquina.
E a máquina, quase sempre, exige concessões.
O problema é que existe um limite para as concessões.
Existe um ponto em que o abandono gradual dos princípios deixa de ser uma adaptação estratégica e passa a representar uma renúncia à própria identidade.
É justamente nesse ponto que muitos militantes históricos parecem acreditar que o partido chegou.
Não por causa de um único escândalo.
Não por causa de um único dirigente.
Mas pelo acúmulo de sinais.
Pelas sucessivas alianças contraditórias.
Pela convivência cada vez mais íntima com setores que antes eram alvo de críticas.
Pela substituição do idealismo por um pragmatismo que, não raras vezes, beira a corrupção de princípios.
A questão fundamental permanece aberta e talvez seja a mais importante de todas:
Até que ponto um partido pode se distanciar de suas raízes sem perder sua razão de existir?
Quando a busca pelo poder se torna mais importante do que os valores que justificavam essa busca, resta apenas uma legenda eleitoral.
E partidos podem sobreviver como legendas por muito tempo.
Mas sem alma, sem identidade e sem propósito, tornam-se apenas estruturas administrativas ocupando espaços institucionais.
A história mostra que nenhuma organização política morre quando perde eleições.
Ela começa a morrer quando deixa de reconhecer a si mesma diante do espelho.




