Quando um hospital fecha as portas para um sacerdote, fecha também uma porta para a esperança
Padre Carlos
Hoje escrevo não apenas como cidadão, nem apenas como cristão, mas como alguém profundamente ferido por um acontecimento que jamais deveria ocorrer em uma cidade que se orgulha de sua tradição de fé, de solidariedade e de respeito à dignidade humana.
Fui tomado por uma indignação que não consigo calar.
Soube que o padre Alessandro, da Paróquia Nossa Senhora Aparecida, após dedicar todo o seu sábado ao povo de Deus, ouvindo confissões, orientando espiritualmente dezenas de pessoas e celebrando a Santa Missa na Capela de Adoração Perpétua, recebeu a notícia de que uma paroquiana de 90 anos encontrava-se internada em estado grave na UTI do Hospital HCC, aguardando a Unção dos Enfermos.
Não hesitou um segundo.
Ao término da Missa, dirigiu-se imediatamente ao hospital para cumprir aquilo que não é apenas um dever sacerdotal, mas uma missão recebida do próprio Cristo: levar Deus ao encontro daquele que sofre.
Mas encontrou uma porta fechada.
Foi impedido de entrar.
Um sacerdote impedido de levar os sacramentos a uma mulher que talvez estivesse vivendo seus últimos momentos.
Que tipo de sociedade estamos construindo quando burocratas se julgam acima da consciência humana? Que modelo de assistência é esse que cuida do corpo, mas ignora a alma? Que racionalidade é essa que permite aparelhos modernos, medicamentos sofisticados e equipes altamente capacitadas, mas impede a entrada daquele que leva paz, esperança e conforto espiritual?
Não estamos falando de um privilégio concedido à Igreja Católica.
Estamos falando de um direito fundamental garantido pela Constituição Federal, que assegura a assistência religiosa às pessoas internadas em hospitais, especialmente àquelas que se encontram em situação de enfermidade.
Negar esse direito não é apenas um erro administrativo.
É uma violência moral.
É uma agressão à dignidade humana.
É um desrespeito à liberdade religiosa.
É retirar do enfermo exatamente aquilo que, muitas vezes, lhe resta quando a medicina já fez tudo o que podia fazer: a esperança em Deus.
Há momentos em que um medicamento já não consegue aliviar a dor da alma.
Há instantes em que uma palavra de absolvição vale mais do que qualquer remédio.
Há despedidas que precisam ser feitas diante de Deus.
Há consciências que desejam reconciliar-se.
Há famílias que encontram força apenas porque um sacerdote segurou a mão de quem estava partindo e pronunciou palavras de eternidade.
Quem tem autoridade para impedir isso?
Quem poderá assumir diante da própria consciência a responsabilidade de negar a um enfermo o último consolo espiritual?
Este episódio ultrapassa os muros de um hospital.
Ele revela algo muito maior.
Vivemos uma época em que a técnica cresce enquanto a sensibilidade diminui; em que protocolos, muitas vezes necessários, transformam-se em muralhas que impedem o exercício da humanidade.
E aqui faço um alerta.
Os sinais proféticos da história nem sempre aparecem em grandes catástrofes.
Às vezes surgem em pequenos gestos que revelam a perda do sentido do sagrado.
Quando uma sociedade começa a tratar a fé como um inconveniente, quando considera a presença de um sacerdote um problema administrativo e não um auxílio ao enfermo, ela começa a perder algo muito mais precioso do que imagina: perde sua própria alma.
Hoje impediram um padre.
Amanhã poderão impedir um pastor.
Depois um líder espírita.
Depois um representante de qualquer tradição religiosa.
Quando um direito fundamental deixa de ser respeitado, ninguém permanece verdadeiramente seguro.
Faço, portanto, um apelo às autoridades municipais, ao Ministério Público, aos gestores hospitalares, aos conselhos de saúde e à sociedade conquistense.
Que este episódio seja rigorosamente apurado.
Que protocolos sejam revistos.
Que nenhum sacerdote, pastor, ministro religioso ou líder espiritual volte a encontrar portas fechadas quando um enfermo clamar pelo consolo da fé.
Nenhum profissional da saúde deve ver a assistência religiosa como obstáculo.
Ela é parte da assistência integral ao ser humano.
O corpo precisa da medicina.
Mas a alma também precisa de Deus.
Que Vitória da Conquista não seja conhecida como a cidade onde um sacerdote foi impedido de levar Cristo a uma mulher agonizante.
Que este triste episódio sirva de advertência e de mudança.
Porque uma sociedade que impede a oração junto ao leito de um enfermo corre o risco de adoecer espiritualmente.
E quando uma cidade perde a capacidade de acolher Deus na dor dos seus filhos, ela começa silenciosamente a perder também sua humanidade.
Que nunca mais uma porta se feche para aquele que leva esperança.
Que nunca mais um enfermo seja privado do conforto dos sacramentos.
Que nunca mais a burocracia fale mais alto que a misericórdia.
Porque onde falta misericórdia, sobra apenas o frio das paredes.
E nenhum hospital foi criado para isso.





