Política e Resenha

Se você se sente só, quando está sozinho…

Se você se sente só, quando está sozinho…

 

…é porque está em péssima companhia.
 — Jean-Paul Sartre, filósofo existencialista

Por Edvaldo Paulo de Araújo

A solidão triste reflete uma má relação consigo mesmo.

S
olidão não é ausência de gente. É ausência de paz com quem mora dentro. Sartre disse que “o inferno são os outros”, ele foi fundo: o primeiro inferno pode ser a gente mesmo.

A gente foge do silêncio porque no silêncio aparece o vazio que criamos. Se a consciência é bruta, rasa, vive de aparência. Ficar sozinho é encarar um estranho. E ninguém gosta de dividir quarto com estranho chato.

Um dia estava em um encontro de casal e, ao perguntar a uma senhora se o marido a fazia feliz, prontamente ela respondeu — e a resposta surpreendeu a todos: “Não, ele não me faz feliz. Eu sou feliz.”

“O inferno são os outros.”

— Jean-Paul Sartre

Jesus no deserto, 40 dias. Buda debaixo da árvore, dias e dias. Daniel na cova. Sozinhos, mas não solitários. Porque estavam inteiros. A companhia era boa.

Você + Deus + Propósito

Você + você + angústia. Resultado da liberdade sem sentido, da consciência que se sabe responsável, mas não sabe para onde ir. Você + Deus + propósito. Resultado da consciência que entendeu: “eu e o Pai somos um”.

O existencialismo joga na nossa cara: você é livre, você escolhe, você esconde. Se está em péssima companhia, a culpa não é do vizinho. É sua. Dói, mas liberta. Quer parar de sentir só? Pare de fugir de você. Lapide o seu eu. Estude, ore, aja, peça perdão, cale-se para não brigar por bobagem. Vire alguém que você teria prazer de encontrar às 3h da manhã, sem ninguém olhando. Quando sua casa interior está arrumada, o “estar sozinho” vira presente. Não é ausência de gente. É presença de paz.

O silêncio que devolve resposta

Quando você se escuta, para o barulho de fora. A resposta que o mundo não dá, o silêncio entrega. Quando você ora, a linha direta com o Pai fica livre. Não é monólogo, é conversa.

O céu que começa por dentro

Sartre falou do inferno de estar mal acompanhado por si. Você está experimentando o oposto. Essa paz não veio de fora. Veio de dentro, do trabalho invisível. Estudo, arrependimento, ato bom — tudo isso foi tijolo por tijolo nessa construção interior de amor a si e à obra sublime de Deus.

“O céu começa quando a gente faz as pazes com a própria alma e ela vira morada de Deus.”

Estar em paz consigo. Consciência em paz e em serviço não tranca mais — porque tem luz, quer iluminar. Quem sente os amigos espirituais por perto lembra dos amigos encarnados que estão no escuro. Então guarde dentro de ti: a solidão virou solicitude, o vazio virou plenitude. E a próxima prova da escola da vida é manter essa paz quando o barulho voltar. Porque a gente sabe que, em momentos, ele às vezes sempre volta.

Dez minutos com Deus

A vida e o seu eu são trabalho de lapidação. É aprofundar a sua presença dentro, não fugindo desse encontro, porque a felicidade nasce no silêncio, não no barulho. Sartre tinha razão. Então: dez minutos por dia, inteiro, com Deus. Sem celular, sem pedido. Só “Pai, estou aqui”. Escute-se sem julgamento. Quando vier cobrança, culpa, comparação com os outros… respire e diga: “estou vendo você, parte minha. Mas não mando mais você se calar — vamos conversar.”

Honrar quem você é

Honre sempre quem você é, não quem deveria ser. Seu lado bruto vive se chicoteando: “eu tinha que ser mais…”. Seu eu sublime acolhe. E mais sublime ainda: perdoe seu passado, pois você não é o erro de ontem — é o aprendiz de hoje. Espírito de luz não te cobra, te levanta. A gente só se sente inteiro quando vive inteiro. Consciência igual paz.

Fale o que vive. Viva o que fala. Hipocrisia é cupim da alma. Como Jesus diz tão bem: faça o bem escondido. Visita, perdão, ajuda sem postar. É isso que preenche. Aplauso enche o ego. Serviço ao irmão enche a alma.

Paz não é ausência de guerra

Paz não é ausência de guerra. Vai ter dia de cova de leões. Vai ter dia de alguém querendo te tirar do eixo. Felicidade inteira não é sorrir 24 horas — é saber para onde voltar quando o mundo te balança. E você já sabe: para o quarto em paz, para a oração, para a presença de ti. Se vier inquietação, não corra. Pergunte: “o que você quer me dizer?”. Escute. Depois agradeça pela companhia que você está se tornando. Não seria boa companhia para si mesmo?

Você já sentiu a presença da luz. Isso significa que o Céu confia em você para ser luz também. E alguém que é casa de luz… como não seria boa companhia para si mesmo?

Se ame, se aceite, se compreenda, ore e busque o seu melhor — o melhor de você. Ser o melhor ser humano é nossa meta e a meta de Deus.

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Edvaldo Paulo de Araújo

Reflexão filosófica e espiritual — Política e Resenha