Crônica · Espiritualidade · Poesia em Prosa
O Pobrezinho e o Vento
Uma meditação sobre Francisco de Assis — o santo que abraçou o nada e recebeu tudo
Por Padre Carlos Josaphat · Vitória da Conquista, Bahia · Junho de 2026
Prólogo: O Ano Jubilar e a Pergunta de Bernizzeth para o Padre Alcimar
Bernizzeth Zorthea fez uma pergunta para o Padre Alcimar que eu gostaria de responder, esta pergunta que ela fez foi direta, daquelas que parecem simples e escondem um abismo: “Estamos no Ano Jubilar Franciscano — o que significa realmente esse evento, e serve pra quê?” Fiquei um momento em silêncio. Não por não saber responder, mas porque percebi que a pergunta merecia mais do que uma resposta de catecismo. Merecia uma meditação. Merecia, quem sabe, um poema. E foi o que tentei escrever.
O Ano Jubilar Franciscano de 2026 marca os oitocentos anos da aprovação da Regra Bulada — a Regra definitiva que o Papa Honório III selou com bula papal em 29 de novembro de 1223, dando à Ordem dos Frades Menores sua forma canônica. É o documento no qual Francisco, depois de anos de negociações e resistências internas, entregou ao papel aquilo que já havia gravado na carne: a escolha absoluta pela pobreza, pela fraternidade itinerante, pelo Evangelho vivido sem glosas e sem concessões. Oitocentos anos são uma distância suficiente para que possamos olhar para aquela Regra com olhos livres — e perguntar, como faz Bernizzeth, se ela ainda serve para alguma coisa.
Um Jubileu não é uma festa de aniversário. É um chamado ao retorno. Na tradição bíblica, o Jubileu era o ano em que as dívidas eram perdoadas, os escravos libertados, as terras devolvidas. É o ano em que a história para, respira fundo, e pergunta a si mesma: onde nos perdemos?
— Padre Carlos Josaphat
A palavra jubileu vem do hebraico yôbel — o chifre de carneiro que soava para anunciar o ano cinquentenário no Levítico: o ano da libertação, da remissão, do recomeço. A Igreja herdou esse conceito e a família franciscana o releu com sua própria voz: um Jubileu não é uma celebração de glórias passadas. É uma convocação ao essencial. É o momento em que a Ordem para, coloca os pés na poeira original do caminho de Assis, e se pergunta com honestidade: ainda somos isso? Ainda somos os frades menores, os irmãos do último banco, os companheiros dos leprosos?
Serve pra quê, pergunta Bernizzeth. Serve, antes de tudo, para que não nos contentemos com o museu. Há uma tentação permanente na vida religiosa — e na vida cristã em geral — de transformar os fundadores em estátuas e as carismas em patrimônio histórico imóvel. O Jubileu Franciscano de 2026 é o contravento a essa tentação: é a convocação de toda a família franciscana — frades, freiras, leigos da Ordem Terceira, os milhões de devotos espalhados pelos sertões do Brasil e pelas favelas do mundo — a reler a Regra não como arqueologia, mas como espelho. A perguntar: o que Francisco faria hoje?
“O Jubileu Franciscano serve para isso: para que paremos de celebrar Francisco como monumento e voltemos a segui-lo como caminho. A diferença não é pequena — é a diferença entre a religião como memória e a fé como movimento.”
Padre Carlos Josaphat
Francisco faria — tenho quase certeza — o que sempre fez: buscaria os descartados do sistema. Em 1209, eram os leprosos excluídos dos muros de Assis. Em 2026, são os refugiados climáticos do semiárido nordestino, são as crianças das margens do Jequiezinho, são os sem-teto que dormem na Praça Tacredo Neves em frente da Catedral de Vitória da Conquista, são os catadores de lixo que sustentam uma economia que os ignora. O Jubileu só terá sentido real se a família franciscana — toda ela, do mosteiro enclaustrado à fraternidade leiga da periferia — sair às ruas com o mesmo gesto que Francisco fez diante do leproso: parar, olhar nos olhos, tocar.
É com esse espírito — jubileu como convocação, não como celebração; como retorno ao essencial, não como saudosismo medieval — que ofereço as páginas que se seguem. Não como um estudo acadêmico sobre Francisco. Mas como uma tentativa de deixá-lo falar, oitocentos anos depois, com aquela voz que ainda desconcerta, ainda incomoda, ainda liberta.
Era o ano de 1209, e um jovem de vinte e sete anos caminhava descalço pelas pedras de Assis. Havia jogado fora o manto de seda do pai, devolvera as moedas de ouro, despira o próprio nome de família como quem tira uma armadura pesada demais para um coração que quer dançar. Os moradores da cidade o chamavam de louco. E ele era. Era louco como são loucos os pássaros ao amanhecer — louco de alegria gratuita, louco de espanto diante do mundo, louco de um amor que não pede recibo nem endereço.
Francisco Bernardone havia descoberto o segredo que os ricos nunca compram e os pobres raramente percebem que já possuem: a leveza. Não a leveza dos indiferentes, não o vazio dos que não amam nada — mas a leveza dos que amam tudo sem prender nada, dos que passam pela beleza como o vento passa pela roseira: tocando cada pétala, sem arrancar nenhuma.
“Laudato si’, mi’ Signore, cum tucte le Tue creature —
Louvado sejas, meu Senhor, por todas as tuas criaturas.”Francisco de Assis — Cântico das Criaturas, c. 1224
I. O Homem que Pediu Licença ao Verme
Há uma cena que os biógrafos registram com reverência e que eu não consigo ler sem que os olhos me umedeçam: Francisco caminhando pela estrada, vendo uma minhoca exposta no meio do caminho, abaixando-se, pegando-a com delicadeza entre os dedos e depositando-a na terra. Não era performance de santidade. Era simplesmente o gesto de um homem que havia aprendido — com uma radicalidade que desconcerta — que toda criatura é uma palavra de Deus pronunciada no tempo.
Quantas vezes passamos pelas criaturas pequenas como quem passa por palavras que não entende em um texto sagrado? A modernidade nos ensinou a ver o mundo como recurso, como matéria-prima, como fundo de cenário para a grande ópera do ego humano. Francisco propôs — e isso é revolucionário, subversivo, perigosamente belo — que nós somos parte do canto, não os maestros. Que irmã Lua não nos pertence. Que irmão Vento não trabalha para nós. Que o fogo, a água, a terra são nossa família — e família não se escraviza, família se reverencia.
“Ser pobre não é carecer de coisas. É ser livre das coisas. É poder olhar para o horizonte sem que nenhum bem terreno nos tape a vista de Deus.”
— Padre Carlos Josaphat
II. A Ferida que Ilumina
Dois anos antes de morrer, Francisco subiu ao monte Alverne. Tinha os pés destruídos pelas estradas, os olhos quase cegos, o corpo que já era uma ruína habitada por uma alma incandescente. E ali, naquele outono de 1224, aconteceu o que a teologia chama de estigmatização — os sinais da Paixão impressos em sua carne. Mãos, pés, lado: as feridas do Cristo tornadas feridas de Francisco.
Eu não me interessa aqui o debate teológico sobre o fenômeno. O que me interessa é o que aquelas feridas significam como símbolo de uma vida inteira. Francisco havia amado tanto, havia se identificado tanto com o sofrimento dos últimos — os leprosos, os descartados, os invisíveis de Assis —, havia carregado tanto o peso do mundo no peito, que o próprio corpo cedeu ao excesso de amor e disse: aqui estamos, as marcas do que você escolheu ser.
Somos uma civilização que teme as feridas. Escondemos os velhos, maquiamos os mortos, filtramos as fotografias, operamos as rugas. Francisco, pelo contrário, exibiu suas feridas como quem exibe medalhas — não de glória guerreira, mas de ternura combatente. As feridas dele eram a prova de que havia estado, de verdade, do lado de quem sangra.
· Interlúdio Poético ·
Francisco,
você que chamou o sol de irmão
e a morte de irmã —
ensina-me
a não ter medo
nem de um
nem da outra.
Ensina-me a cantar
com os pulmões cheios de vento
e o coração cheio de nada —
esse nada luminoso
que é o nome secreto de Deus.
III. O Franciscano do Sertão — Uma Aproximação
Nós, do sertão baiano, conhecemos Francisco de um jeito diferente. Ele chegou até nós nas sandálias dos frades que percorreram estas caatingas nos séculos XVI e XVII, levando o Evangelho misturado com a poeira do caminho e o cheiro de suor honesto. Mas Francisco chegou também pela via da cultura popular: está no cancioneiro dos repentistas que louvam a criação com a mesma espantada gratuidade do Cântico das Criaturas. Está nos rezadores que pedem proteção ao Irmão Sol antes de plantar. Está nas benzedeiras que falam com as plantas como se elas ouvissem — porque, na cosmovisão franciscana, elas ouvem sim.
Elomar Figueira Mello — nosso trovador maior, filho legítimo desta terra de Vitória da Conquista e do sertão profundo — tem em sua obra algo de inegavelmente franciscano: o espanto diante do cosmos, a linguagem arcaica como forma de reverência, a voz que sobe do chão ressecado e encontra o Absoluto não apesar da pobreza, mas através dela. Elomar canta Francisco sem saber que o canta. Ou talvez saiba, e é por isso que a sua voz dói tão bem.
“A espiritualidade franciscana não é um museu medieval visitado aos domingos. É um modo de estar no mundo que exige coragem diária: a coragem de ser menor, de ser último, de ser grato.”
Padre Carlos
IV. Francisco Hoje — O Santo Incômodo
Há uma ironia cruel na história: Francisco escolheu ser pobre, e a Igreja construiu em sua homenagem uma das basílicas mais ricas da Itália. Escolheu a simplicidade, e seu nome foi dado a mosteiros de pedra suntuosa. Escolheu os leprosos, e sua espiritualidade foi sequestrada pelas classes médias que querem um Deus bonito para os fins de semana. Ele, que rasgou o contrato com o pai diante do bispo de Assis e ficou nu como veio ao mundo, tornou-se ícone de ímãs de geladeira e enfeites de jardim.
Mas o verdadeiro Francisco resiste. Ressurge sempre que alguém escolhe a margem em vez do centro. Ressurge no Papa que tomou seu nome e foi morar na Casa Santa Marta em vez do Palácio Apostólico. Ressurge nos frades da periferia de São Paulo que comem com os catadores. Ressurge nos jovens que leram a Laudato Si’ e deixaram o emprego em empresa destruidora do meio ambiente porque não conseguiram mais conciliar o Cântico das Criaturas com a planilha de extração mineral.
Francisco é um incômodo. Sempre foi. A Igreja de seu tempo tentou domesticá-lo transformando sua fraternidade de vadios alegres em ordem religiosa com regras e hierarquias. Ele cedeu — era obediente demais para resistir institucionalmente —, mas nunca cedeu no essencial: morreu na poeira, pedindo que o colocassem no chão nu, porque queria que a irmã Terra fosse a última coisa que seu corpo tocasse neste mundo.
“No século das guerras climáticas e do deserto avançando sobre a terra dos nossos filhos, Francisco não é um santo do passado. É um profeta do futuro que ainda não chegamos a merecer.”
— Padre Carlos
V. A Última Lição — Morrer Cantando
Francisco morreu em 3 de outubro de 1226, quarenta e quatro anos. O corpo destroçado pela doença, os olhos cegos, as feridas abertas. E pediu aos irmãos que cantassem. Não rezassem. Não lamentassem. Que cantassem o Cântico das Criaturas, aquele hino delirante de gratidão que ele havia ditado dois anos antes, depois das noites de agonia no Alverne.
Irmão Elias — o administrador prático da Ordem, o homem dos números e das construções — ficou escandalizado. Como cantar quando um santo está morrendo? Não seria mais apropriado o silêncio, as lágrimas, as orações solenes? Francisco olhou para ele com aquela paciência luminosa de quem já está mais do outro lado e respondeu, em substância: a vida toda foi um cântico; por que a morte seria diferente?
E cantaram. Os frades sentados em torno de um homem em agonia, cantando louvores ao sol, à lua, ao vento, à água, ao fogo — e à morte, que Francisco chamava de irmã com uma familiaridade que só quem não a teme consegue. Morreu com a terra nua na mão e o canto na sala ao lado. Morreu como havia vivido: levemente, escandalosamente, gloriosamente pobre.
Oito séculos depois, na caatinga baiana, no cerrado mineiro, nas periferias cariocas, nos campos devastados pelo agronegócio, nos rios que secaram antes do tempo — há uma voz que ressoa, fina como vento de sertão entre pedras: Laudato si’. Louvado sejas. Não como ingenuidade. Não como fuga. Mas como o ato mais radical de resistência que um ser humano pode praticar diante da destruição: parar, olhar, e dizer — com o peito cheio, com a voz tremida, com os olhos molhados — que o mundo é belo, que a vida é graça, e que vale a pena ser grato mesmo quando tudo arde.
Francisco de Assis não nos pede que sejamos santos. Pede apenas que sejamos espantados. Que paremos diante de um pôr do sol sobre o sertão e tenhamos a coragem de não abrir o celular. Que chamemos o cachorro de rua pelo nome. Que plantemos algo sem saber se vamos colher. Que digamos — em voz alta, sem vergonha — que a Terra não é nossa. Que somos dela.
Padre Carlos
Teólogo, sacerdote e colunista político
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