
Padre Carlos
Recuso-me a reduzir a partida de Enid Sales a poucas linhas apressadas, perdidas entre tantas outras informações que amanhã já terão sido esquecidas. Há pessoas cuja existência não cabe em uma nota de falecimento. Há vidas que exigem reverência, memória e gratidão. Enid Sales pertence a essa categoria rara de seres humanos.
Aos cem anos de idade, ela encerra uma caminhada que atravessou praticamente todo o século XX e chegou ao século XXI levando consigo uma história inseparável da própria construção de Vitória da Conquista.
Enid Sales não foi apenas a viúva do ex-prefeito Gerson Gusmão Sales. Ela foi protagonista silenciosa de um tempo em que servir ao povo era compreendido como missão, em que a palavra empenhada possuía valor de contrato e em que a honra de uma família representava um patrimônio moral inegociável.
Durante dois períodos, entre 1951 e 1955 e novamente entre 1959 e 1963, exerceu a função de primeira-dama do município. Mas limitar sua biografia ao protocolo oficial seria cometer uma injustiça. Atrás de cada homem público existia uma mulher que acolhia, aconselhava, organizava, recebia visitantes, compartilhava as dificuldades da administração e sustentava a família enquanto a política consumia dias e noites.
Enid representou uma geração de mulheres que nunca buscaram os holofotes, mas sem as quais muitos governos jamais teriam conseguido cumprir sua missão.
Ela acompanhou Gerson Sales numa das fases mais importantes da história conquistense. A cidade crescia, modernizava-se, ampliava sua estrutura administrativa e consolidava sua importância econômica e política no sudoeste baiano.
Foi durante a administração de Gerson Sales que a Prefeitura passou a ocupar definitivamente o prédio histórico da Praça Joaquim Correia, símbolo até hoje do poder público municipal. Também foi um período marcado pelo crescimento urbano e por uma política de diálogo que, mesmo em tempos de fortes disputas, ainda encontrava espaço para a conciliação.
A política daquela época possuía defeitos, evidentemente. Mas carregava virtudes que hoje parecem quase desaparecidas.
Era o tempo do aperto de mão.
Era o tempo do compromisso firmado no fio do bigode.
Era o tempo em que adversários podiam sentar à mesma mesa sem transformar divergências em ódio permanente.
Enid Sales foi testemunha viva dessa cultura política.
Ao longo de um século, viu presidentes da República passarem, regimes nascerem e desaparecerem, Constituições serem escritas, golpes acontecerem, a televisão chegar, a internet transformar o mundo e a inteligência artificial modificar nossa maneira de viver.
Enquanto tudo mudava, ela permanecia como uma referência de serenidade, elegância e discrição.
Poucas pessoas tiveram o privilégio de assistir a tantas transformações sem perder a simplicidade.
Sua família tornou-se parte da história de Vitória da Conquista.
O nome Gerson Sales permanece vivo na praça que homenageia o ex-prefeito, no tradicional Colégio Gerson Sales e, sobretudo, na memória daqueles que conheceram um período em que a administração pública ainda era profundamente marcada pelo contato humano e pela proximidade entre governantes e governados.
Mas hoje não é apenas o sobrenome Sales que merece homenagem.
É Enid.
A mulher.
A esposa.
A mãe.
A avó.
A bisavó.
A primeira-dama.
A centenária.
A testemunha de um século inteiro.
Sua maior obra talvez não tenha sido registrada em decretos ou fotografias oficiais. Foi construída dentro de casa, na educação dos filhos, no apoio incondicional ao marido, na preservação dos valores familiares e na maneira respeitosa com que atravessou cem anos de existência.
Vivemos numa sociedade que valoriza o instante e esquece rapidamente aqueles que ajudaram a construir os alicerces sobre os quais hoje caminhamos.
Por isso escrevo este texto.
Não para anunciar uma morte.
Mas para celebrar uma vida.
Não para lamentar uma despedida.
Mas para agradecer um século de testemunho.
Que Vitória da Conquista não permita que a memória de Enid Sales desapareça com o passar dos dias.
Os povos verdadeiramente grandes são aqueles que preservam a lembrança de seus homens e mulheres ilustres.
As cidades não são feitas apenas de ruas, avenidas e edifícios.
São feitas, sobretudo, das pessoas que lhes deram alma.
Hoje Vitória da Conquista perde uma de suas guardiãs da memória.
Parte uma senhora centenária.
Permanece um legado.
E, enquanto houver quem conte sua história, Enid Sales continuará vivendo na memória desta cidade que ela ajudou a construir ao longo de cem anos de dedicação à família, ao serviço público e ao povo conquistense.
Descanse em paz, Dona Enid.
Seu nome já pertence definitivamente à história de Vitória da Conquista.




