
Padre Carlos
“Quem come do fruto do conhecimento é sempre expulso de algum paraíso.” A frase atribuída à psicanalista Melanie Klein parece atravessar o tempo para descrever não apenas dramas individuais, mas também os movimentos da política contemporânea. Pensar por conta própria, questionar certezas absolutas ou reconhecer virtudes no adversário quase sempre cobra um preço. O conhecimento liberta, mas também rompe pertencimentos. E toda ruptura produz desconforto.
Na política, esse fenômeno é ainda mais evidente. Grupos ideológicos costumam construir identidades baseadas na lealdade, e qualquer desvio da narrativa dominante pode ser interpretado como traição. O resultado é um processo de isolamento que transforma antigos aliados em adversários, muitas vezes da noite para o dia.
O bolsonarismo oferece diversos exemplos desse processo. João Doria, Joice Hasselmann, Alexandre Frota, Gustavo Bebianno, Luiz Henrique Mandetta, Janaina Paschoal e Major Olimpio, cada um por razões distintas, deixaram de ocupar o espaço de aliados para se tornarem críticos ou dissidentes do movimento, passando a enfrentar duras reações políticas e nas redes sociais. Independentemente do juízo que se faça sobre suas posições, suas trajetórias ilustram como a polarização pode estreitar o espaço para divergências internas.
Agora, um episódio envolvendo Michelle Bolsonaro volta a lançar luz sobre essa dinâmica. Ao elogiar um programa voltado para a comunidade surda lançado pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva — ressaltando posteriormente que a iniciativa havia sido concebida durante a gestão de Jair Bolsonaro e afirmando que a causa das pessoas surdas está acima das disputas ideológicas — a ex-primeira-dama tornou-se alvo de críticas em setores da própria direita.
Talvez a maior lição desse episódio seja justamente a contida na frase de Melanie Klein. O conhecimento obriga a abandonar antigas ilusões. E reconhecer que um adversário pode acertar em determinada política pública não significa abandonar convicções; significa apenas admitir que o interesse da sociedade deve estar acima das paixões partidárias. Afinal, os paraísos ideológicos costumam ser confortáveis apenas enquanto ninguém ousa provar o fruto da reflexão crítica.




