Política e Resenha

ARTIGO – Vinte Anos Depois, Descobriram o Que o Povo Nunca Parou de Dizer

 

Padre Carlos

Há uma cena que se repete com tanta frequência na política que já deveria fazer parte do patrimônio cultural brasileiro.

O governador Jerônimo Rodrigues afirmou, durante a plenária do Programa de Governo Participativo (PGP), em Vitória da Conquista: “Nós viemos perguntar para a população o que está faltando.”

A frase é bonita. Soa democrática. Parece até emocionante.

O problema é que ela chega… com uns vinte anos de atraso.

Perguntar o que está faltando?

Sério?

Será que ainda existe alguém em Vitória da Conquista que não saiba?

O povo sabe.

Os comerciantes sabem.

Os agricultores sabem.

Os empresários sabem.

Os profissionais da saúde sabem.

Os professores sabem.

Os vereadores sabem.

Os prefeitos sabem.

Os deputados sabem.

E, convenhamos, o próprio governo também sabe.

Aliás, há mais de duas décadas a população responde exatamente às mesmas perguntas.

A cada eleição aparece um novo questionário.

“O que falta na sua cidade?”

A resposta nunca muda.

Mais saúde.

Mais segurança.

Mais infraestrutura.

Mais estradas.

Mais geração de empregos.

Mais abastecimento de água.

Mais investimentos.

Mais desenvolvimento regional.

Não é falta de diagnóstico.

É falta de atitude.

Durante vinte anos, ouvimos audiências públicas, conferências, seminários, consultas populares, caravanas, encontros regionais e agora o PGP.

O nome muda.

A embalagem muda.

O slogan muda.

Mas o roteiro permanece exatamente o mesmo.

Pergunta-se ao povo aquilo que já foi respondido centenas de vezes.

Enquanto isso, o cidadão continua esperando que alguém troque o bloco de anotações pela execução das obras.

O mais curioso é que, na mesma visita, foram destacados investimentos em infraestrutura, abastecimento de água, saúde e mobilidade.

Excelente.

Toda obra merece reconhecimento.

Mas isso não elimina uma pergunta inevitável:

Se esses gargalos são conhecidos há tantos anos, por que continuam sendo apresentados como se fossem uma grande descoberta?

Não estamos diante de um mistério arqueológico.

Não é necessário convocar especialistas internacionais para descobrir o que falta em Vitória da Conquista.

Basta conversar com qualquer morador em uma fila de posto de saúde.

Ou com quem enfrenta diariamente rodovias precárias.

Ou com quem espera por abastecimento regular de água.

Ou com quem procura emprego.

Eles responderão em poucos minutos aquilo que governos escutam há décadas.

O problema nunca foi ouvir.

Foi agir.

É evidente que governar exige planejamento, diálogo e participação popular.

Isso é saudável para qualquer democracia.

Mas participação popular não pode servir como substituto da responsabilidade administrativa.

Porque chega um momento em que o cidadão deixa de querer responder pesquisas.

Ele quer respostas.

A população não deseja apenas ser consultada.

Deseja ser atendida.

Depois de vinte anos ouvindo as mesmas reivindicações, talvez o governo já tenha informações suficientes para elaborar uma lista bastante completa do que falta.

Não é necessário perguntar novamente.

Basta abrir os arquivos das eleições passadas.

Ou reler as promessas de campanha.

Ou simplesmente ouvir a memória da população, que continua repetindo, de quatro em quatro anos, exatamente as mesmas necessidades.

O povo já fez sua parte.

Respondeu.

Reclamou.

Sugeriu.

Participou.

Agora, talvez esteja na hora de inverter a lógica.

Em vez de perguntar mais uma vez “o que está faltando?”, seria muito mais interessante responder à pergunta que a população faz há vinte anos:

“Quando aquilo que vocês já sabem será finalmente resolvido?”