Cultura & Literatura
Recôncavo: Carta de Amor ao Mundo Inteiro

Sobre vozes que nascem já multidão, já mapa, já mar aberto
Há vozes que não cabem num só corpo. Há vozes que nascem já multidão, já mapa, já mar aberto — e a de Caetano é uma dessas vozes que, ao se abrirem, abrem também o mundo para quem escuta. Ouvi-lo é perder as fronteiras do próprio corpo: de repente somos vento no deserto, sal em Roma, escama de peixe dançando à beira de um rio que não sabemos mais se é o Amazonas ou o nosso próprio sangue. Ele nos empresta os pés para que caminhemos onde nunca estivemos, e o fato extraordinário é que, mesmo longe, continuamos em casa.
Porque a casa, para esse tipo de poeta, não é o lugar onde os pés se plantam — é o lugar de onde os pés partem. E os dele partem de uma terra de ladeiras e sinos, de igrejas barrocas suando incenso e candomblé, de mães-de-santo que são também mães de nação. Partem do colo de uma matriarca cuja sombra é maior que qualquer fronteira, cuja voz ainda ecoa nas pedras de uma cidade que os portugueses chamaram de Roma Negra sem saber que estavam apenas confirmando o óbvio: que ali, entre ladeiras e tambores, já pulsava um império.
A Terra de Origem
Há quem confunda largueza com desenraizamento. Há quem pense que beber de todas as fontes é esquecer a nascente. Engano de careta, engano de quem nunca sentiu o chão do Recôncavo sob a sola dos pés — Santo Amaro da Purificação, onde o rio e o mar se abraçam antes de virar mundo. Porque só se pode viajar por todas as línguas quando se tem uma língua-mãe para onde voltar; só se pode ser sereia, ser Iara, ser água de todos os rios, quando se carrega dentro do peito o rio primeiro, aquele que ensinou a nadar.
Esse é o gesto: um menino de olhos abertos como um álbum de figurinhas do planeta inteiro, colecionando Roma, colecionando Guiana, colecionando Índia, colecionando cada suingue e cada dissonância que o mundo tem a oferecer — e colando tudo isso, com a cola mais forte que existe, na página que tem o nome da Bahia escrito por baixo. Um amor tão grande que precisa do mundo inteiro para caber, mas que nunca deixa de assinar embaixo: filho do Recôncavo.
O Careta e a Surdez
E há o outro, o careta, que também existe, sombra necessária de toda luz. Ele ouve o mesmo som e não o sente — porque para sentir é preciso primeiro amar a própria terra, e ele não ama, não conhece, despreza sem saber o que despreza. Vive de empréstimo, com a alma hipotecada a outra bandeira, surdo ao tambor do Olodum, cego às imagens que encantam, incapaz de rir da risada que o mundo lhe oferece de graça. O careta não é o estrangeiro — o estrangeiro pode amar o que descobre. O careta é aquele que, tendo tudo ao alcance da mão, escolhe não estender a mão.
Contra essa surdez, o poeta ergue não uma resposta, mas uma bandeira: façamos da diferença uma canção — do sagrado hindu e do sagrado do caruru a mesma reverência, da fruta e da escritura o mesmo alimento.
Que se possa ser, ao mesmo tempo, o texto milenar e a novena de dona Canô, o luxo humilde do mendigo elegante e a taça erguida por um time campeão, o afoxé que nasce hoje e o samba que já é clássico. Tudo isso é uma só devoção: amar o Brasil com todos os sentidos, sem pedir desculpas por também amar o mundo.
No fim, talvez seja esta a definição mais justa de recôncavo: não a baía fechada, mas o coração que se abre para tudo sem nunca se perder de si. Só os amantes sabem esse segredo — que se pode ser tudo, absolutamente tudo, e ainda assim não ser nada além daquilo que se ama.
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Padre Carlos — Teólogo, Filósofo e colunista político




