Política e Resenha

ARTIGO – Quincas Berro D’Água: O Homem que Ainda Caminha pelas Ladeiras de Salvador

 

 

Padre Carlos

 

Há personagens que permanecem presos às páginas de um livro. Outros escapam da literatura e passam a morar nas cidades que lhes deram vida. Sempre que volto a Salvador e caminho lentamente pelas ladeiras do Pelourinho, tenho a estranha sensação de que Quincas Berro D’Água continua por ali. Não como um fantasma. Muito menos como uma lembrança distante. Ele parece viver na respiração da cidade, escondido entre os becos estreitos, nas janelas antigas, nas pedras gastas pelo tempo e nas conversas que atravessam os bares onde o riso ainda desafia as dificuldades da vida.

Talvez seja apenas imaginação. Ou talvez seja a força da literatura quando consegue transformar um personagem em parte da alma de um povo.

Confesso que nunca consigo atravessar aquelas ruas olhando apenas para os casarões coloridos ou para a beleza da arquitetura colonial. Meus olhos acabam procurando outro Salvador. O Salvador dos homens simples. Dos estivadores, dos pescadores, das quituteiras, dos boêmios, dos músicos de esquina, das mulheres que vendem acarajé e dos velhos que parecem conhecer histórias que jamais foram escritas.

É nesse cenário que sempre reencontro Quincas.

Antes de ser Quincas Berro D’Água, ele foi Joaquim Soares da Cunha. Funcionário público respeitado, marido, pai de família, homem correto aos olhos da sociedade. Vestia-se como se esperava de um cidadão exemplar e carregava nos ombros o peso da respeitabilidade. Sua vida parecia organizada, previsível, quase perfeita.

Mas as aparências, aprendi ao longo da vida, raramente contam toda a verdade.

Enquanto caminho pelas ladeiras de Salvador, fico imaginando quantas vezes Joaquim desceu aquelas mesmas ruas ainda vestido de funcionário público, levando consigo uma inquietação que ninguém conseguia enxergar. Talvez passasse diante dos bares sem coragem de entrar. Talvez observasse de longe aquela gente que ria alto, cantava sem cerimônia e parecia viver com uma liberdade que ele desconhecia.

Até que um dia resolveu atravessar uma fronteira invisível.

Foi então que Joaquim morreu muito antes da morte física.

E nasceu Quincas Berro D’Água.

Sua transformação não foi apenas uma mudança de roupas. Foi uma rebelião silenciosa contra uma existência que já não lhe cabia. Deixou para trás o conforto, rompeu com a família e escolheu viver entre aqueles que a sociedade insistia em chamar de marginais. Preferiu os becos às salas elegantes. As rodas de conversa às formalidades sociais. O cheiro da maresia ao perfume da respeitabilidade.

Sempre que caminho pelo Pelourinho, penso que aqueles becos não foram apenas cenário para Jorge Amado. Foram escola. Foram casa. Foram palco de homens e mulheres que aprenderam a sobreviver sem perder o riso. Quincas viveu aquelas ruas como poucos personagens conseguiram viver uma cidade. Conhecia suas ladeiras, seus saveiros, suas madrugadas e seus silêncios. Conhecia o povo pelo nome e era conhecido por ele.

Talvez por isso Jorge Amado nunca tenha escrito apenas sobre um homem. Escreveu sobre uma forma de existir.

Foi chamado de bêbado.

Foi chamado de vagabundo.

Foi chamado de irresponsável.

Mas talvez toda sociedade tenha necessidade de ridicularizar aqueles que abandonam o roteiro previamente escrito para suas vidas.

Enquanto sua família enxergava decadência, seus companheiros viam autenticidade. Curió, Cabo Martim, Negro Pastinha, Pé-de-Vento e tantos outros não admiravam Quincas porque fosse perfeito. Admiravam-no porque era verdadeiro. Porque entre eles não precisava representar nenhum personagem.

Essa talvez seja a maior beleza da obra de Jorge Amado.

Quincas não é santo.

Também não é herói.

É apenas um homem tentando ser ele mesmo.

E isso, convenhamos, talvez seja uma das tarefas mais difíceis da existência.

“Há cidades que guardam monumentos. Salvador guarda personagens. E alguns deles continuam caminhando entre nós sempre que alguém decide viver sem medo de ser quem realmente é.”

Quando leio novamente A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água, percebo que sua verdadeira luta nunca foi contra a família, contra a pobreza ou contra os preconceitos. Sua maior batalha foi contra uma identidade que os outros insistiam em lhe impor.

Depois de sua morte, a família tenta recuperar Joaquim Soares da Cunha. Veste-o novamente como funcionário exemplar. Organiza um velório digno. Procura apagar Quincas da memória coletiva.

Mas a literatura possui uma força extraordinária.

Os amigos chegam.

Retiram-lhe as roupas da respeitabilidade.

Devolvem-lhe as velhas vestes.

Levam-no outra vez para as ruas de Salvador.

E ali, entre gargalhadas, copos de cachaça, músicas e lembranças, Quincas renasce.

Sempre achei essa cena uma das mais belas da literatura brasileira.

Não porque desafie a lógica.

Mas porque desafia o esquecimento.

Enquanto caminho pelas ruas antigas da minha Salvador, penso que talvez todos nós sejamos um pouco Joaquim e um pouco Quincas. Há dias em que vestimos o terno das obrigações. Em outros, desejamos apenas sentar numa esquina qualquer e conversar sem pressa sobre a vida. Carregamos papéis, responsabilidades, títulos e expectativas. Mas, no fundo, continuamos procurando um lugar onde possamos simplesmente existir.

Essa é a grande herança deixada por Jorge Amado.

Ele nos ensina que a identidade não cabe num documento nem numa fotografia. Ela nasce das escolhas, dos afetos, das amizades, das dores e dos caminhos que decidimos percorrer.

Ao deixar o Pelourinho, olho uma última vez para aquelas ladeiras. As pedras continuam as mesmas. As casas continuam de pé. Os becos ainda guardam sombras e risos. E tenho a impressão de que Quincas Berro D’Água permanece ali, encostado numa porta antiga, sorrindo daquele jeito irônico que só os homens verdadeiramente livres conseguem sorrir.

Talvez seja apenas literatura.

Mas algumas literaturas são tão profundamente humanas que acabam se confundindo com a própria vida.

E Quincas, definitivamente, já pertence à vida muito mais do que aos livros.