Política e Resenha

Sempre Falta um Pedaço

Ensaio & Memória

Sempre Falta um Pedaço

Edvaldo Paulo de Araújo

Dediquei minha vida, quando podia, a estar em lugares maravilhosos, momentos lindos, mas sempre a mesma sensação, vontade de que os que amo, estivessem ali comigo, compartilhando, curtindo, abraçando, cantando e vivendo plenamente aquele momento.

Também porque essa sensação não deixa curtir plenamente aquele lugar, aquele momento, pois a vontade se mistura com saudades sublimes. Lugar lindo, mas incompleto — sei que é uma das sensações mais humanas que existe. Porque é assim: beleza sem partilha dói.

Um arquivo corrompido

Me pergunto sempre: por que nunca está completo? Nós somos feitos de memórias compartilhadas. O cérebro não registra só a paisagem. Ele registra quem estava do lado, o que a pessoa falou, a risada espontânea. Sem a pessoa, o HD fica com o arquivo corrompido. O pôr do sol é lindo, mas falta o comentário de alguém amado que não está ali.

O amor muda a lente que a gente usa para ver o mundo. Quando ama alguém, o olho aprende a ver bonito através do olhar dela. Você chega num lugar lindo e automaticamente pensa: “Nossa, meu irmão, meu filho, minha amada ia amar estar aqui!” A beleza bate. Mas bate vazia e solitária.

Sempre, sempre, sempre… porque o amor aos seus não tem “off”. E não tira folga quando você viaja. Ele te acompanha. Aí você está no lugar mais paradisíaco, histórico, encantado pelos teus sonhos, mas o coração escanceia a paisagem e as pessoas amadas não encontradas ali.

“Momentos só ficam completos quando tem três coisas: lugar, tempo e a gente certa. Mas, mesmo assim, sempre faltará alguém que a gente ama… falta sim, um pedaço.”

Cartão-postal, não alma

Tira a “gente certa” e sobra um cartão-postal. Lindo para a foto, mas não para a alma. É por isso que a gente volta da viagem com dezenas de fotos e fala “precisava ter trazido fulano”. Porque foto guarda imagem, mas não guarda a presença, a luz, a energia da pessoa querida.

O lado bom que vejo nisso: se dói sentir falta, é porque você amou e ama de verdade. Gente que passa pela vida e não deixa falta, não deixou marca. A dor prova que foi amor e afeto de verdade.

A cadeira vazia na sala cheia

Ontem estava reunido em minha casa na praia, com todos os colaboradores da empresa, pessoas queridas, maravilhosas, mas o pensamento viajava sempre para quem não estava, quem não pôde vir — por isso deixamos de sentir sua presença, sua energia, sua alma leve naquele momento.

Entendo que reunir essa turma é uma festa, é brincadeira, risada, comemoração, é gargalhada espontânea. Mas o coração sempre faz a chamada. Quando falta alguém que tem alma no lugar, a cadeira fica vazia mesmo com a sala cheia.

Entendo que é isso que marca a equipe de verdade: quem não estava fisicamente, mas estava ali no jeito de vocês trabalharem, nas piadas internas, na forma de atender. Pessoa que deixa energia mesmo à distância.

Dói porque vocês são um time. E time sente falta um do outro. Mas também é bonito, sabe? Prova que a presença dela não era só corpo. Era alma mesmo. E alma não falta em uma reunião dessa.

Sei que quem não veio sentiu falta dos outros, tenham certeza. Energia boa chama energia boa. Carregamos elas ali no espírito do evento, fizemos a festa valer por todos.

A foto colada na alma

Saiba que, no futuro, quando lembrarmos dos momentos vividos, as colocaremos dentro deles para nos sentirmos completos… para sentirmos a alegria absolutamente plena. Sei que a memória é mágica assim. A gente pega a foto do evento e cola na alma de quem faltou nela.

Fica completa porque o amor não obedece à distância. Se a pessoa mora no seu coração, ela está em todo lugar que você for. A alegria plena precisa de todos.

Vamos narrar para os que não vieram — enquanto narramos, a gente recria. “Gente, lembra quando Luiz contou aquela piada?” E pronto. Os que não estavam, agora estarão. Talvez até rindo junto…

Daqui a alguns anos, alguém novo vai ouvir: “Nancy estava naquele dia” — e vai entender que realmente estava, sem dúvida. Mas a falta do pedaço se apagará com o tempo e nas lembranças vividas. Pois o amor é pleno e completo por aquilo que se faz com alegria.

Hoje, depois da partida de vocês, caminhei pelo jardim e na praia. O silêncio deixa a alma falar mais alto. E aí eles aparecem, pois o jardim traz o cheiro, a praia traz o vento. E, de repente, você sente a presença de cada um como se estivessem caminhando junto. A risada de um, o conselho de outro, o abraço que ficou faltando. E…

Memória
Afeto
Ensaio
Literatura

Edvaldo Paulo de Araújo

Publicado em Política e Resenha