Política e Resenha

ARTIGO – Mário Lago e a Coragem de Sorrir Quando a Vida Não Cumpre Suas Promessas

Padre Carlos

 

Há poemas que são escritos com palavras. Outros parecem escritos com cicatrizes.

Quando li, mais uma vez, os versos de Mário Lago — “Não é o mundo que eu queria. Nem a vida que sonhei…” — tive a impressão de não estar diante de um poema, mas de uma conversa íntima de um homem que fez as pazes com a existência. Não ouvi apenas um poeta. Ouvi um sobrevivente.

É curioso como alguns textos envelhecem e outros amadurecem. Os versos de Mário Lago pertencem à segunda categoria. Quanto mais o tempo passa, mais eles parecem compreender a nossa própria vida.

Talvez isso aconteça porque Mário Lago nunca escreveu do alto de uma torre de marfim. Escreveu da rua. Dos cafés. Dos teatros. Dos estúdios de rádio. Das mesas boêmias onde intelectuais, músicos, jornalistas e sonhadores discutiam política, literatura, amor e revoluções até que a madrugada se confundisse com o nascer do sol.

Mário Lago pertenceu a uma geração extraordinária.

Foi poeta, compositor, ator, escritor, radialista, militante político e um observador apaixonado da condição humana. Viveu um Brasil que respirava samba, seresta, serenatas e esperança, mas que também conheceu prisões, perseguições políticas, censura e profundas desigualdades sociais.

Sua vida atravessou quase todo o século XX.

Assistiu a governos caírem, ditaduras nascerem, democracias renascerem, artistas serem calados e ideias serem perseguidas. Conheceu de perto as grandezas e as misérias do ser humano. Talvez por isso seus versos nunca tenham sido ingênuos.

Há uma enorme diferença entre o otimista e o esperançoso.

O otimista acredita que tudo dará certo.

O homem esperançoso sabe que muita coisa dará errado, mas decide continuar vivendo mesmo assim.

É exatamente isso que encontro nesse pequeno poema.

Não há revolta.

Não há vitimismo.

Não há ressentimento.

Há lucidez.

A primeira frase é quase um retrato da humanidade inteira.

“Não é o mundo que eu queria.”

Quem de nós nunca pensou isso?

Quem nunca imaginou uma vida diferente?

Quem nunca fez planos que o destino rasgou sem pedir licença?

Todos nós carregamos um álbum invisível das vidas que não vivemos.

Existe o casamento que não aconteceu.

O emprego que nunca veio.

O filho que partiu cedo demais.

O amor que ficou pelo caminho.

Os sonhos adiados.

As oportunidades perdidas.

As palavras que nunca tivemos coragem de dizer.

A juventude acredita que viver é realizar sonhos.

A maturidade ensina que viver também é aprender a sepultar alguns deles.

E foi justamente essa maturidade que Mário Lago transformou em poesia.

Quando escreve:

“Vida de paz e alegria. Num mundo que era só luz…”

não está reclamando da realidade.

Está apenas confessando aquilo que todos escondemos.

A saudade daquilo que nunca existiu.

Há uma nostalgia curiosa em cada ser humano.

Sentimos falta até da felicidade que imaginávamos viver.

Mas é justamente quando o poema parece caminhar para a tristeza que acontece sua grande reviravolta.

“Mas me ensinaram e guardei que, após um dia, há outro dia.”

Que extraordinária simplicidade.

Não é uma frase construída para impressionar professores de literatura.

É uma frase construída para salvar pessoas.

Ela nos lembra que nenhuma dor possui vocação para a eternidade.

Vivemos uma época em que tudo parece definitivo.

Uma crise parece eterna.

Uma derrota parece irreversível.

Uma perda parece impossível de superar.

As redes sociais amplificam o desespero porque transformam cada tragédia em espetáculo permanente.

Mário Lago pertenceu a um tempo em que a conversa ainda acontecia olho no olho, em que o silêncio fazia parte da inteligência e em que a esperança não precisava ser anunciada; bastava ser vivida.

Talvez por isso seus versos tenham tanta delicadeza.

Eles não gritam.

Sussurram.

E justamente por sussurrarem conseguem entrar onde discursos inflamados jamais conseguem chegar: na consciência.

Penso, às vezes, que somente um homem que conheceu a dor poderia escrever o verso mais bonito do poema.

“Que o riso é minha saúde. Fiz da alegria, meta. Fiz da esperança, Virtude.”

Não é o riso de quem nunca sofreu.

É o sorriso de quem decidiu não permitir que o sofrimento governasse sua existência.

Há uma grandeza silenciosa nessa escolha.

Vivemos procurando fórmulas para alcançar a felicidade, quando talvez devêssemos aprender com homens como Mário Lago que felicidade não é um lugar onde se chega.

É uma maneira de caminhar.

Ele compreendeu algo que a psicologia moderna apenas confirmou décadas depois: não controlamos tudo o que nos acontece, mas ainda somos livres para escolher a resposta que damos ao que nos acontece.

Essa talvez seja a maior liberdade humana.

Não impedir as tempestades.

Mas decidir como atravessá-las.

Quando termino de ler esse poema, não sinto que conversei com um escritor famoso.

Sinto que caminhei ao lado de um velho amigo que conhece as durezas da estrada e, mesmo assim, aponta para o horizonte dizendo com serenidade:

— Continue. Amanhã haverá outro dia.

Num tempo em que a desesperança parece querer ocupar todos os espaços, talvez precisemos ouvir mais os poetas.

Eles não resolvem as crises econômicas.

Não acabam com as guerras.

Não mudam governos.

Mas conseguem realizar um milagre raro: impedir que percamos a humanidade.

E talvez seja exatamente isso que Mário Lago nos deixou como herança.

Não um poema.

Uma maneira de viver.

A coragem de reconhecer que o mundo nunca será exatamente aquele que sonhamos, sem jamais permitir que essa constatação nos roube a alegria de continuar sonhando.

Porque a verdadeira esperança não nasce quando tudo está bem.

Ela nasce justamente no instante em que, olhando para uma realidade imperfeita, encontramos forças para repetir, com a serenidade dos grandes homens, que depois de um dia… sempre haverá outro dia.