Opinião
A revitalização do centro de Vitória da Conquista não é um sonho distante nem uma utopia inalcançável

Durval Lemos Menezes
Não foi a internet que matou o coração da nossa cidade. Fomos nós, com decisões de urbanismo tomadas décadas atrás, que empurramos a vida para as bordas — e agora colhemos um centro fantasma que ainda pode, se houver vontade política, voltar a pulsar.
É
um fato incômodo, mas inegável: o centro de Vitória da Conquista está se transformando, dia após dia, em uma cidade fantasma. As vitrines fecham, as calçadas esvaziam, e quem cresceu vendo aquela região pulsar de gente e de comércio hoje mal reconhece o lugar. É fácil, cômodo até, jogar a culpa na internet — no comércio eletrônico, nas compras por aplicativo, no hábito contemporâneo de resolver tudo sem sair de casa. Mas essa é apenas a explicação mais superficial, a mais confortável. A internet é, na verdade, o fator que menos pesa nesse fenômeno que se repete, com nuances, em centros históricos de cidades por todo o Brasil.
Uma cidade com espaço para dez cidades
Para entender o esvaziamento do centro, é preciso primeiro entender a geografia de Conquista. Sua área urbana é tão vasta que comportaria, sem exagero, dez cidades do tamanho dela mesma. Enquanto outros municípios baianos — Juazeiro, a própria Feira de Santana, Ilhéus — esbarram em limites naturais ou fundiários para crescer, Conquista faz o caminho inverso: expande-se livremente para todos os lados, norte, sul, leste e oeste. Essa abundância de terra, que poderia ter sido uma vantagem, tornou-se também uma armadilha.
Foi cometido, há décadas, um erro de planejamento urbano. Basta um sobrevoo de drone, ou mesmo um voo comercial baixo sobre a cidade, para enxergar os vazios que se abrem no meio do centro — bolsões onde deixou-se de construir, de investir, de ocupar. Enquanto isso, a periferia foi tomada por um crescimento vertiginoso. Hoje, vários bairros afastados do centro de Conquista são, na prática, cidades autossuficientes dentro da própria cidade.
“Existem bairros de Conquista, como a Patagônia e outros do lado oeste, com famílias que há mais de vinte anos não vêm ao centro da cidade — porque lá, onde vivem, já encontram tudo o que precisam.”
É nesses bairros periféricos que hoje encontramos os melhores restaurantes, as padarias mais concorridas, o comércio mais diversificado. Praticamente todo bairro de Conquista já tem seu próprio centro comercial. O resultado é uma cidade que se multiplicou em vários pequenos centros — e que, ao fazer isso, esvaziou o único que, historicamente, pertencia a todos.
O que Salvador, Rio e São Paulo já provaram
Mas há uma notícia boa em meio a esse diagnóstico difícil: tudo isso tem solução. Não é a primeira vez que uma cidade brasileira vê seu centro esvaziar — e não é a primeira vez que um centro esvaziado renasce.
Salvador viveu isso. A Rua Chile, a Praça da Sé, todo aquele entorno histórico chegou a um estado de abandono quase total. Hoje, depois de um processo de revitalização, ali estão hotéis, centros culturais, teatros e restaurantes, e a vida voltou a circular por aquelas pedras seculares. No Rio de Janeiro, a região portuária — onde ficava a antiga rodoviária, onde está a Praça Mauá, que já foi o verdadeiro coração da cidade — esteve igualmente esquecida. A reforma daquele trecho, com a construção de um museu à beira-mar assinado por um arquiteto francês, transformou a área num polo turístico pulsante. Em São Paulo, o centro que virou sinônimo de Cracolândia hoje é, em boa parte, outra cidade.
São exemplos concretos, replicáveis, de que a decadência de um centro urbano não é sentença definitiva. É sintoma de abandono — e abandono se reverte com vontade política, planejamento e investimento.
O que Conquista já tem a favor de si
O centro de Vitória da Conquista não parte do zero. Tem um jardim central que ainda chama atenção de quem passa. Tem a Matriz, a Catedral, a primeira grande igreja da cidade, a primeira igreja batista. Tem a Praça Nove de Novembro e suas transversais, com potencial de se tornar, como já se cogitou, um verdadeiro “shopping a céu aberto”. Falta, sobretudo, decisão de transformar patrimônio em vitalidade.
O papel da Câmara — e o erro de olhar para o lado errado
É exatamente aqui que a Câmara de Vereadores de Conquista precisa abraçar essa causa: fazer o centro voltar a ser pulsante. E o primeiro passo, paradoxalmente, é abandonar uma ideia que caminha na direção contrária — a de transferir a própria Câmara para uma região mais afastada, sob o argumento de oferecer mais conforto de estacionamento aos vereadores. Tirar mais um símbolo institucional do centro é reforçar, com gesto público, o mesmo processo de esvaziamento que se diz querer combater.
O caminho certo é o oposto: sentar-se com autoridades, empresários, clubes de serviço e associações comerciais para desenhar, juntos, a solução para o centro da cidade.
Recuar um passo para avançar três
A solução é simples de enunciar, ainda que exija coragem política para executar: recuar um passo para depois avançar dois ou três. Na prática, isso significa aliviar impostos e criar condições reais para que o empresário volte a investir no centro — em restaurantes, hotéis, novas atrações. Foi exatamente esse tipo de pensamento grande, de visão de longo prazo, que fez Salvador crescer quando Antônio Carlos Magalhães ofereceu isenção fiscal a empresas do sul do país para que se instalassem na capital baiana. O resultado histórico é conhecido: Salvador se transformou em polo industrial.
Não é diferente o que Conquista precisa fazer em escala local: propostas positivas, isenção temporária de IPTU e outros tributos, e o empresário se encarrega do resto — porque onde há condição, o comércio floresce.
Falta vontade, não falta caminho
A própria prefeita Sheila Lemos, quando ainda estava à frente da Associação Comercial, já havia esboçado um projeto futurista para o centro da cidade: transformar a região em um “Shopping a Céu Aberto”, capaz de devolver vida às imediações da Praça Nove de Novembro e suas transversais. É uma pergunta legítima — e incômoda — perguntar por que essa ideia, nascida dentro da própria equipe que hoje governa a cidade, ainda não saiu do papel.
A revitalização do centro de Vitória da Conquista não é um sonho distante nem uma utopia inalcançável. Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo já mostraram, cada um a seu modo, que é possível. O que falta não é caminho. É vontade. É querer. É, sobretudo, fazer o que precisa ser feito.
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Vitória da Conquista
Artigo de opinião — publicado em respeito ao debate público sobre o futuro do centro da cidade.




