Política e Resenha

O centrão ainda não escolheu: e a pesquisa mostra o preço do isolamento de Flávio Bolsonaro

Análise Política

O centrão ainda não escolheu: e a pesquisa mostra o preço do isolamento de Flávio Bolsonaro

Por Padre Carlos   |  16 de julho de 2026

A
nova pesquisa Genial/Quaest, divulgada nesta quarta-feira, 15 de julho, não deve ser lida apenas como mais uma fotografia da corrida presidencial de 2026. Toda pesquisa eleitoral registra um momento, é verdade. Mas algumas pesquisas revelam movimentos mais profundos da política. E os números divulgados agora parecem mostrar algo que vai muito além da diferença entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro.

Lula aparece com 40% das intenções de voto no primeiro turno, contra 28% de Flávio Bolsonaro. Uma diferença de 12 pontos percentuais. No segundo turno, o presidente registra 45%, enquanto o senador chega a 37%. A vantagem, portanto, é de oito pontos. O levantamento foi realizado pela Quaest, contratado pela Genial Investimentos, com 2.004 entrevistados, entre os dias 10 e 13 de julho, margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%. A pesquisa foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-07181/2026.

Primeiro turno: a distância que preocupa o bolsonarismo

Lula (PT)
40%
Flávio Bolsonaro
28%

Genial/Quaest · 10 a 13/07/2026 · 2.004 entrevistados · margem de erro: 2 p.p.

Mas, para mim, o dado mais importante não está apenas nos 40% de Lula nem nos 28% de Flávio Bolsonaro. A informação politicamente mais relevante está naquilo que ainda não aconteceu: o centrão não escolheu definitivamente o seu lado.

E, numa eleição presidencial, isso pode ser decisivo.

A política brasileira é frequentemente interpretada a partir dos discursos ideológicos. A esquerda fala em projeto social. A direita fala em liberdade econômica, segurança pública e combate ao petismo. O bolsonarismo fala em resistência. O lulismo fala em reconstrução. Mas, por trás dos discursos, existe uma realidade concreta: partidos, prefeitos, governadores, deputados, senadores, tempo de televisão, estrutura regional e máquinas eleitorais.

É aí que entra o chamado centrão.

“O centro político brasileiro raramente se move apenas por paixão ideológica. Ele observa as pesquisas, mede forças, calcula riscos e procura estar próximo daquele que tem maior capacidade de vencer.”

Não é necessariamente bonito. Não é necessariamente feio. É a lógica histórica de uma política pragmática, que muitas vezes troca convicções por sobrevivência. E o que a pesquisa Quaest parece revelar é que esse centro ainda está em movimento.

O União Brasil, o Progressistas e o Republicanos já não estão alinhados automaticamente com o bolsonarismo como se estivessem diante de uma obrigação histórica. O antigo campo político que poderia funcionar como uma grande ponte entre o eleitorado de direita e uma candidatura bolsonarista tornou-se mais fragmentado. E quando a estrutura partidária se fragmenta, a candidatura sente.

Flávio não é Jair: a herança que ainda precisa ser provada

É preciso compreender que Flávio Bolsonaro não é Jair Bolsonaro. Essa diferença é fundamental. Jair Bolsonaro construiu uma identidade política própria. Durante anos, consolidou uma relação direta com uma parcela expressiva do eleitorado. Sua comunicação era marcada pelo confronto, pela linguagem direta e pela capacidade de mobilizar paixões. Flávio Bolsonaro, por sua vez, precisa construir uma candidatura que não pode simplesmente depender da herança do sobrenome.

O ponto central

O sobrenome pode abrir portas. Mas não garante, sozinho, a transferência integral de votos.

É justamente aí que o afastamento ou a falta de adesão plena dos grandes partidos de centro-direita se torna um problema. O bolsonarismo pode continuar tendo uma base forte, militante e fiel. Mas uma eleição presidencial não se vence apenas com uma base fiel. É preciso ampliar.

E, para ampliar, é preciso conquistar aqueles que não são bolsonaristas de carteirinha. O eleitor que vota em Bolsonaro por rejeição ao PT pode não votar automaticamente em Flávio. O eleitor de centro-direita que deseja uma agenda econômica liberal pode não aceitar a radicalização permanente. O prefeito que precisa eleger deputados pode preferir apoiar quem possui maior possibilidade de vitória. O deputado que disputa a reeleição pode não querer carregar uma candidatura presidencial que esteja perdendo força.

É nesse espaço que o centro político começa a fazer seus cálculos. A pesquisa, portanto, pode ser interpretada como uma demonstração de neutralidade do centrão. Não uma neutralidade eterna. Não uma neutralidade ideológica. Mas uma neutralidade estratégica.

Segundo turno: a vantagem que se mantém

Lula (PT)
45%
Flávio Bolsonaro
37%

Cenário de segundo turno · Genial/Quaest · TSE nº BR-07181/2026

O centrão está dizendo, por meio de suas movimentações, que ainda não está disposto a colocar todas as suas fichas em Flávio Bolsonaro. E isso é importante porque o Brasil já viveu várias eleições em que o resultado foi decidido não apenas pela força dos candidatos, mas pela capacidade de construir alianças.

A eleição de 2026 não será simplesmente uma disputa entre Lula e Bolsonaro. Jair Bolsonaro, por razões jurídicas e eleitorais, não é o candidato da disputa. O que existe agora é a tentativa de transformar o bolsonarismo em uma herança eleitoral capaz de sobreviver ao seu principal líder. Essa transição nunca é simples.

O eleitor não é uma propriedade. Voto não se transfere como se transfere uma empresa, uma conta bancária ou uma herança familiar. O eleitor pode admirar Jair Bolsonaro e, ao mesmo tempo, não considerar Flávio Bolsonaro o melhor candidato para governar o país.

A ideologia da sobrevivência

É por isso que a queda de Flávio merece atenção. Não porque uma pesquisa defina o resultado de uma eleição. Não define. A campanha ainda nem começou em sua fase decisiva. Muitos acontecimentos ainda podem mudar completamente o cenário. Pesquisas medem o momento, não escrevem o futuro. Mas os números mostram uma tendência.

E a tendência é que Lula, neste momento, possui uma capacidade maior de consolidar sua candidatura nacional, enquanto Flávio Bolsonaro ainda precisa provar que pode transformar o capital político do pai em uma candidatura própria.

A questão central é que o bolsonarismo parece ter chegado a uma encruzilhada. Se o campo da direita se fragmenta, Lula cresce. Se o centro não se decide, Lula cresce. Se os partidos que possuem estruturas políticas nacionais preferem manter distância de uma candidatura bolsonarista, Lula cresce. Se Flávio Bolsonaro não conseguir construir uma imagem que ultrapasse a identidade de “filho de Bolsonaro”, Lula cresce.

Mas existe também um outro lado da história. O centro político não está necessariamente apaixonado por Lula. A neutralidade do centrão não significa uma conversão ideológica ao petismo. O que a pesquisa revela, neste momento, é que muitos atores políticos ainda não enxergam em Flávio Bolsonaro uma candidatura suficientemente forte para entregar a vitória.

E política é, muitas vezes, a arte de perceber para onde está indo o vento. O centrão brasileiro costuma ser acusado de não ter ideologia. Talvez seja mais correto dizer que ele possui uma ideologia própria: a ideologia da sobrevivência política. Por isso, o centro não costuma abandonar um candidato simplesmente porque deixou de gostar dele. Abandona quando percebe que ele pode perder.

E, quando os grandes partidos começam a se afastar, o candidato perde não apenas tempo de televisão. Perde prefeitos, palanques, alianças, recursos, capilaridade e a sensação de inevitabilidade. É isso que torna a pesquisa Quaest tão significativa.

“Na política, às vezes, a neutralidade de quem ainda não escolheu já representa uma escolha silenciosa.”

A vantagem de Lula não significa que a eleição esteja decidida. Mas a queda de Flávio Bolsonaro revela que a direita ainda não resolveu o problema fundamental da sucessão de Jair Bolsonaro. O bolsonarismo possui força. Possui identidade. Possui uma militância poderosa. Possui um eleitorado fiel. Mas uma eleição presidencial exige mais do que fidelidade. Exige capacidade de ampliar.

E, neste momento, enquanto Flávio Bolsonaro tenta demonstrar que pode ser o herdeiro eleitoral do pai, Lula aparece diante de um centro político que ainda não decidiu definitivamente contra ele. Essa pode ser a grande mensagem da pesquisa: o centrão ainda está olhando para os dois lados. E, enquanto ele olha para os dois lados, Lula permanece na frente.

E, neste momento, a escolha silenciosa do centrão parece ser não apostar todas as suas fichas em Flávio Bolsonaro. A eleição, porém, está aberta. E até outubro de 2026, muita coisa ainda poderá acontecer. Mas uma coisa já parece evidente: para vencer Lula, a direita precisará construir uma candidatura capaz de ser maior do que o sobrenome Bolsonaro. Porque, em uma eleição nacional, herdar uma história pode ser suficiente para começar a corrida. Mas, para vencer, é preciso escrever a própria história.

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Padre Carlos

Teólogo, Filósofo, sacerdote e colunista político — Política e Resenha