Padre Carlos
Houve um tempo em que os partidos políticos representavam ideias. O eleitor sabia, ainda que de maneira aproximada, quais valores defendia cada legenda. Havia diferenças ideológicas, programas de governo e identidades políticas relativamente claras. O voto era também um voto em um projeto de sociedade.
Hoje, infelizmente, essa lógica parece cada vez mais distante da realidade brasileira.
Na Bahia, esse fenômeno tornou-se quase uma regra.
Prefeitos que ontem eram do PT hoje estão no União Brasil. Lideranças que construíram suas carreiras combatendo determinado grupo político agora dividem o mesmo palanque. Políticos que passaram anos criticando um partido migram para ele na primeira oportunidade eleitoral. As siglas mudam, mas os personagens permanecem os mesmos.
O resultado é uma enorme confusão para o eleitor.
Não por acaso, ganhou repercussão o card divulgado pelo ex-prefeito de Jacobina, Tiago Dias. Eleito pelo PCdoB e atualmente filiado ao PSDB, Tiago apareceu divulgando uma peça de campanha que reúne, no mesmo material, duas das maiores lideranças adversárias da política baiana e nacional: Lula e ACM Neto.
A imagem provocou espanto.
Mas, olhando com atenção, talvez ela não seja uma exceção.
Talvez ela seja apenas o retrato mais sincero da política que estamos construindo.
Vivemos uma época em que a identidade partidária foi sendo lentamente substituída pela identidade pessoal.
O voto deixou de ser, em muitos casos, um compromisso com um partido e passou a ser uma relação direta entre eleitor e candidato.
Há pessoas que votam em Jerônimo Rodrigues, mas não votam em Rui Costa.
Outras acompanham Lula, mas rejeitam Jaques Wagner.
Há quem apoie ACM Neto, mas não aceite determinados aliados de seu grupo.
E há aqueles que escolhem apenas o prefeito, o deputado ou o vereador, independentemente da legenda que ele carregue naquele momento.
Esse fenômeno não nasceu por acaso.
O Brasil possui dezenas de partidos registrados. Muitos deles possuem pouca ou nenhuma identidade ideológica. Em vez de representarem correntes de pensamento, acabam funcionando como estruturas eleitorais destinadas a acomodar candidaturas, formar alianças e negociar espaços de poder.
Quando isso acontece, o partido perde sua função mais importante.
Deixa de ser uma comunidade de ideias para transformar-se apenas em uma sigla.
E quando a sigla deixa de representar um conjunto de princípios, a troca de partido passa a parecer algo natural.
Hoje, muda-se de legenda como quem muda de camisa.
Naturalmente, toda democracia exige diálogo, construção de alianças e capacidade de governar com diferentes forças políticas. A política não pode ser encarada como um campo de inimigos permanentes.
Mas existe uma diferença enorme entre construir alianças e eliminar completamente qualquer referência programática.
Sem identidade partidária, o eleitor perde um dos principais instrumentos para compreender a política.
A consequência é o fortalecimento do personalismo.
Os líderes passam a valer mais que os partidos.
As imagens passam a valer mais que os programas.
As fotografias de campanha passam a comunicar mais do que os próprios discursos.
É justamente por isso que casos semelhantes ao de Tiago Dias tendem a se multiplicar.
Não será surpresa encontrar, durante esta campanha, materiais em que candidatos locais associem sua imagem a lideranças nacionais ou estaduais que, entre si, são adversárias políticas.
Cada candidato tentará dialogar com diferentes segmentos do eleitorado.
Do ponto de vista eleitoral, faz sentido.
Do ponto de vista da coerência política, abre-se um enorme debate.
Talvez estejamos entrando definitivamente na era da política personalizada.
Uma política em que o partido ocupa um lugar secundário, enquanto a figura do líder se transforma no verdadeiro símbolo eleitoral.
O problema é que democracias maduras precisam de instituições fortes, partidos consistentes e programas claros.
Quando tudo depende apenas da popularidade de indivíduos, o sistema torna-se mais frágil.
Continuarei acreditando nos partidos políticos.
Acredito que uma democracia saudável precisa de legendas que representem ideias, projetos e visões de mundo.
Mas também não posso fechar os olhos para a realidade.
Na Bahia — e em boa parte do Brasil — aquilo que vemos nas ruas já não é exatamente uma disputa entre partidos.
É, cada vez mais, uma disputa entre pessoas.
E talvez o card que reuniu Lula e ACM Neto não seja apenas uma curiosidade eleitoral.
Talvez seja o símbolo mais fiel da transformação silenciosa que vem acontecendo na política brasileira há muitos anos.
Porque, quando o partido perde sua alma, sobra apenas a fotografia. E fotografias, por mais impactantes que sejam, jamais substituem convicções.





