Política e Resenha

Geraldo Simões e a EBDA: quando a política troca a memória pelo pragmatismo

 

 

Por Padre Carlos

A política tem uma característica curiosa: costuma celebrar seus vencedores enquanto eles são úteis e, depois, tenta reescrever a própria história para que pareça que tudo começou sem eles. A entrevista concedida pelo ex-deputado federal Geraldo Simões a uma rádio de Itabuna não é apenas um relato de bastidores do primeiro governo Jaques Wagner. É, sobretudo, um testemunho sobre como projetos políticos podem se afastar de suas próprias origens.

Geraldo Simões não foi um coadjuvante da construção do campo democrático-popular na Bahia. Ao lado de Jaques Wagner, Rui Costa, Walter Pinheiro, Josias Gomes, Zezéu Ribeiro e tantas outras lideranças históricas, ajudou a erguer uma alternativa política que rompeu décadas de hegemonia carlista. Foi um dos arquitetos de um projeto que transformou a Bahia e que permanece governando o Estado quase vinte anos depois.

Entretanto, como acontece com frequência na política, os construtores da casa nem sempre continuam convidados para morar nela.

Na entrevista, Geraldo relembra sua passagem pela Secretaria da Agricultura no primeiro governo Wagner e revela um episódio que ajuda a compreender parte das divergências internas daquele período. Segundo ele, existia uma forte pressão para extinguir a EBDA — Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrário. A justificativa era financeira: a empresa acumulava dívidas.

Sua resposta foi simples, mas carregada de sentido administrativo.

Se há dívidas, paga-se. Negocia-se. Parcela-se. Recupera-se.

O que não se faz é eliminar uma instituição estratégica apenas porque ela atravessa dificuldades.

Sua posição prevaleceu naquele momento.

Mas apenas naquele momento.

Alguns anos depois, a EBDA acabou sendo extinta.

Não se trata aqui de uma discussão meramente burocrática. A fala de Geraldo resgata um modelo de assistência técnica rural que marcou gerações de agricultores baianos. Antes conhecida como EMATER, a empresa mantinha escritórios em praticamente todos os municípios do Estado. O técnico agrícola vivia na própria cidade onde trabalhava. Conhecia as famílias, acompanhava as lavouras, orientava o acesso ao crédito rural e construía uma relação permanente de confiança com os pequenos produtores.

Era uma política pública baseada na presença do Estado.

Hoje, a estrutura foi pulverizada entre diferentes órgãos, como a Secretaria de Desenvolvimento Rural, a CAR e a BahiaTer. Há iniciativas importantes, sem dúvida. Mas muitos agricultores afirmam que nunca mais existiu a mesma proximidade que caracterizava o antigo sistema de extensão rural.

A fala de Geraldo também desmonta uma narrativa recorrente segundo a qual os conflitos internos daquele período teriam sido motivados apenas por disputas pessoais. O que aparece em sua versão é uma divergência de concepção administrativa: preservar uma empresa pública considerada estratégica ou substituí-la por outro modelo.

Naturalmente, toda história possui mais de um ponto de vista. Outros protagonistas daquele governo podem apresentar interpretações diferentes sobre os fatos. Mas isso não diminui a importância de ouvir quem participou diretamente das decisões.

Há ainda uma dimensão política inevitável.

Durante muitos anos, Geraldo Simões viu seu espaço diminuir dentro do grupo político que ajudou a fundar. Em nome de alianças regionais, novas lideranças ganharam protagonismo enquanto antigos quadros históricos foram sendo gradativamente deslocados. É um fenômeno comum em partidos que permanecem muito tempo no poder: a lógica eleitoral frequentemente substitui a lógica da construção coletiva.

Hoje, filiado ao PSOL e pré-candidato a deputado federal, Geraldo parece buscar não apenas um novo mandato, mas também o direito de recuperar sua própria narrativa política.

Sua entrevista tem esse valor.

Ela lembra que governos não nascem prontos.

São resultado de homens e mulheres que, muitas vezes, acabam esquecidos justamente quando o projeto que ajudaram a construir alcança o sucesso.

Independentemente das posições partidárias, a democracia amadurece quando preserva sua memória. E memória política não significa concordar com todas as decisões de um personagem público. Significa reconhecer seu papel na história.

A Bahia que conhecemos hoje também foi construída pelas mãos de Geraldo Simões.

Ignorar isso seria cometer um erro histórico.

Mais do que discutir a extinção da EBDA, a entrevista nos convida a refletir sobre algo maior: o risco de uma política que, ao privilegiar conveniências momentâneas, sacrifica sua própria identidade e esquece aqueles que lançaram os alicerces do caminho que continua percorrendo. Afinal, projetos políticos sobrevivem às pessoas, mas perdem parte de sua alma quando deixam de reconhecer quem os tornou possíveis.