Política e Resenha

Bolsonarismo, PT e a Nova Era dos Partidos de Massa

Por trás da polarização que divide o Brasil, esconde-se uma disputa mais antiga e mais funda do que qualquer eleição.

A
política brasileira entrou numa fase que os manuais antigos não explicam bem. Não se trata mais de coligações de ocasião, acordos de cúpula ou siglas que nascem e morrem conforme sopra o vento eleitoral. O país passou a ser atravessado por dois fenômenos de massa — o petismo e o bolsonarismo — que mobilizam não apenas votos, mas identidades, afetos e visões de mundo inteiras. É essa a chave que explica por que a polarização brasileira parece, a cada ciclo, mais funda, mais visceral e mais resistente a qualquer tentativa de pacificação.

O PT construiu sua base ao longo de décadas, dentro de sindicatos, movimentos sociais e comunidades populares. É um partido que aprendeu, na prática cotidiana, a transformar demanda por participação e justiça social em organização política durável. O bolsonarismo, por sua vez, é fenômeno mais recente, nascido na década de 2010, mas que surpreendeu por não repetir o destino das legendas de direita tradicionais — aquelas siglas que só existiam enquanto o grande capital as sustentava, e que desapareciam no instante em que esse apoio era retirado. O bolsonarismo criou algo diferente: raízes em setores das Forças Armadas e da polícia, nas igrejas evangélicas, em parcelas da classe média conservadora. Não é uma legenda de ocasião. É base de massa.

O que a polarização esconde

É tentador — e cômodo — reduzir tudo isso a uma disputa entre democracia e autoritarismo, entre progresso e atraso. Essa leitura tem seu fundo de verdade, mas também cumpre uma função: ela oculta uma clivagem mais antiga, a que separa capital e trabalho. A classe média conservadora que hoje se identifica com o bolsonarismo não é apenas movida por pauta moral ou desejo de ordem; é também uma classe média revoltada com um regime político que ela enxerga — com razão ou sem ela — como capturado por uma ordem que não a representa mais.

“A polarização entre bolsonarismo e PT oculta, no fundo, uma tendência de polarização entre o capital e a classe trabalhadora brasileira — só que o PT tende a encobrir essa tensão, mais do que revelá-la.”

No terceiro governo Lula, o PT viu-se empurrado ao papel de guardião do status quo institucional — o partido que representaria, ao lado de setores da própria burguesia, o campo “democrático” contra um bolsonarismo apontado, não sem razão, como ameaça às instituições. Mas esse enquadramento, por mais válido que seja no plano imediato, tem um custo: ele apaga a pergunta de classe. Pergunta que qualquer projeto de esquerda deveria fazer antes de qualquer outra.

Um bolsonarismo, muitas vozes

Seria erro grave, no entanto, tratar o bolsonarismo como bloco homogêneo. Ele abriga, lado a lado, setores nacionalistas e setores alinhados a agendas de cunho mais liberal na economia; defensores de uma pauta de soberania nacional e defensores do receituário neoliberal mais ortodoxo. A crise em torno da candidatura de Flávio Bolsonaro escancarou essa fratura interna: setores mais afinados ao ideário neoliberal atacaram abertamente sua pré-candidatura, e a resposta, de dentro do próprio movimento, foi rápida — a acusação de que esse pessoal não seria bolsonarista “legítimo”. É a prova de que dentro dessa massa convivem projetos de país incompatíveis entre si, ainda que unidos, por ora, sob a mesma bandeira.

Compreender o bolsonarismo apenas como “antidemocracia” é confortável, mas insuficiente. É preciso decompô-lo: separar o que nele é disputa de classe recalcada, o que é pauta moral genuína, o que é manipulação de cúpula e o que é, simplesmente, revolta legítima de quem não se sente representado por nenhuma das duas siglas que dominam o debate público.

A tarefa que falta

A primeira tarefa de qualquer agrupamento de esquerda que leve a sério esse novo tempo é justamente essa: compreender o fenômeno bolsonarista a partir de uma leitura de classe, entender sua gênese e traçar, com clareza, uma linha de disputa ideológica — não apenas eleitoral. É tarefa que o PT tem enorme dificuldade de cumprir, porque frequentemente se alinha, na pauta identitária e nos temas de política externa, a uma agenda que reproduz o receituário do liberalismo internacional, e não a uma crítica radical da ordem que produz, todos os anos, mais desigualdade e mais ressentimento.

Enquanto isso, sobra para o centro e para a direita tradicional uma pergunta incômoda: construir projeto próprio, com programa, quadros e identidade real — ou seguir orbitando, cada vez mais dependente, a força centrípeta do bolsonarismo. Enquanto essa resposta não vier, o Brasil seguirá refém de uma polarização que, mais do que resolver, adia o enfrentamento das perguntas que realmente importam: quem produz a riqueza deste país, e quem decide como ela é repartida.

É essa a fratura que nenhuma urna, sozinha, vai fechar.

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Artigo de opinião — análise  política sobre os novos partidos de massa no Brasil.