Política e Resenha

O Deserto das Tendências: quando um partido perde a sua causa

Opinião

 

Não há vento que faça florescer uma terra dividida em lotes de vaidade. Há apenas poeira — e a memória de um tempo em que havia raiz.

H
á um tipo de silêncio que não é paz. É o silêncio de quem entra numa sala cheia de gente e não encontra ninguém. É esse silêncio que hoje habita boa parte da esquerda organizada no Brasil — e, com um rigor que dói, o Partido dos Trabalhadores. Pergunto, sem retórica, a quem já bateu panfleto em porta de fábrica ou dormiu em barraco de acampamento: quando foi a última vez que você sentiu, de verdade, que fazia parte de uma causa — e não de uma sigla?

A pergunta incomoda porque a resposta, para muitos, é dolorosamente antiga. O PT nasceu do chão — das greves do ABC, das comunidades eclesiais de base, dos sindicatos que ainda cheiravam a suor e esperança. Nasceu, sobretudo, de um encantamento: o de que era possível pertencer a algo maior do que si mesmo. Hoje, essa origem é tratada como relíquia de museu, não como fonte viva.

A burocracia como sepultura da causa

Os partidos não morrem de um só golpe. Morrem devagar, tomados por gente competente demais em administrar reuniões e incompetente demais em sonhar. As pessoas que hoje ocupam os corredores de poder dentro do PT são, em sua maioria, burocratas — não militantes de movimento social. E o movimento social que sobrou não é livre: é capturado, tutelado, reduzido a plateia aplaudindo decisões já tomadas em outro andar.

Isso tem um preço, e o preço não é abstrato. É o preço de perder aquilo que, desde o início, foi o verdadeiro capital do partido: não os cargos, não as verbas, não os acordos de bastidor — mas o encantamento. As pessoas não se filiaram a uma causa para seguir chefes. Filiaram-se porque queriam pertencer a algo que as unisse a outras pessoas em torno de um destino comum.

“Eu não quero ser seguidor de ninguém. Eu quero ter uma causa que nos una.”

Essa frase, ouvida de um militante de base, é mais precisa do que qualquer tese de congresso partidário. Nela está o diagnóstico completo: uma causa une; um líder, quando muito, organiza. Confundir as duas coisas é o primeiro passo para o esvaziamento.

A fragmentação que promete diversidade e entrega deserto

Aqui está o ponto de virada de tudo o que discuto: a fragmentação interna — as tendências, as tendências das tendências, os sub-blocos dentro dos blocos — não é pluralidade. É atomização. E atomização não constrói maioria; disputa espólio.

Uma causa una as pessoas em torno de um horizonte. Uma tendência une pessoas contra outra tendência. A diferença parece sutil, mas é geológica: uma cria movimento; a outra cria trincheira. E quando a briga interna ocupa todo o espaço disponível — o tempo das reuniões, a energia dos quadros, a atenção da militância —, não sobra terreno para que a criatividade, a liberdade e o movimento autêntico possam florescer.

Não floresce nada onde só cabe disputa de tendência. É terra ocupada por facção, não por semente. E terra ocupada por facção, mais cedo ou mais tarde, vira deserto.

É uma imagem dura, mas honesta. Deserto não é ausência de gente — é ausência de vida em comum. Pode haver multidão de burocratas, de assessores, de operadores de tendência, e ainda assim ser deserto, porque falta a seiva que só uma causa compartilhada é capaz de fazer circular.

O que se perde quando se perde a causa

Quem já esteve numa organização atravessada por esse tipo de crise sabe do que falo. É a sensação de chegar numa reunião e perceber que ninguém mais discute o país — discute-se correlação de forças interna. É o ativista jovem que chega cheio de causa e sai, três anos depois, aprendendo a linguagem de aparelho, porque é essa a única língua que ali se fala. É a militante histórica que olha para trás e não reconhece mais o partido pelo qual apanhou da polícia.

Isso não é nostalgia barata. É diagnóstico político com consequência prática: partidos que perdem a causa perdem, junto, a capacidade de renovar quadros, de comover eleitores, de convencer quem ainda não está convencido. Porque não se converte ninguém com organograma. Converte-se com causa.

E é justamente isso — a capacidade de converter, de encantar, de unir estranhos em torno de um mesmo sonho — que separa um movimento vivo de uma estrutura em manutenção permanente.

Voltar à raiz não é voltar ao passado

Não se trata de propor um retorno romântico aos anos 80, como se bastasse repetir gestos antigos para reencontrar o encantamento perdido. Trata-se de algo mais exigente: reconhecer que causa não se decreta em congresso partidário — se constrói na prática, na escuta, na coragem de abrir mão de espaço de poder em nome de espaço de vida.

Isso exige dos dirigentes algo que a burocracia raramente pratica: humildade. Aceitar que a legitimidade de uma causa não vem do cargo que se ocupa, mas da confiança que se conquista. Aceitar que fragmentar não é democratizar, e que unir não é uniformizar — é, isso sim, oferecer a estranhos motivo suficiente para caminhar juntos.

Porque, no fim, o que sustenta qualquer projeto coletivo não é o poder de quem manda — é a fé de quem acredita. E fé, uma vez perdida no deserto das tendências, não se recupera com decreto. Recupera-se com causa. Ou não se recupera.

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Artigo de opinião — as ideias aqui expressas refletem a análise do autor.

Padre Carlos