Política e Resenha

ARTIGO – O PT de Lauro de Freitas e o espelho baiano: do pragmatismo ao oportunismo

 

 

Padre Carlos

A notícia que estampa a aliança entre o ex-candidato petista Antonio Rosalvo e a prefeita Débora Régis (União Brasil), sua algoz nas urnas em 2024, não é um fato isolado. É, antes, um sintoma agudo de uma doença crônica que acomete o PT da Bahia: a transformação de suas lideranças em peças móveis de um tabuleiro onde o que importa não é a coerência programática, mas a sobrevivência no “condomínio do poder” que se consolidou em torno do governo estadual.

Rosalvo, que há menos de dois anos disputava a Prefeitura de Lauro de Freitas como antagonista da atual gestora, agora se filia ao PSDB — legenda da base de ACM Neto — e recebe o apoio explícito de Débora Régis para disputar uma vaga de deputado estadual. A guinada política é tão brusca que muitos a enxergam como oportunismo em estado puro. Para quem acompanha a trajetória recente da política baiana, porém, o movimento é apenas mais um capítulo de uma novela em que princípios ideológicos cedem espaço à conveniência eleitoral.

O exemplo mais emblemático dessa flexibilidade talvez seja o de Moema Gramacho, maior liderança histórica do PT em Lauro de Freitas. Ex-prefeita e ex-deputada federal, Moema construiu sua trajetória sempre alinhada ao grupo político que governa a Bahia, adaptando-se às circunstâncias do momento. Após décadas no Partido dos Trabalhadores, deixou a legenda e filiou-se ao MDB para disputar um novo mandato de deputada federal. A mudança reforçou a percepção de que, na política baiana, a fidelidade ideológica passou a ocupar um papel secundário diante das estratégias de sobrevivência eleitoral.

Não se trata de uma aproximação com a direita representada pelo grupo de ACM Neto, mas da permanência sob o amplo guarda-chuva político articulado a partir do Palácio de Ondina. O MDB baiano, historicamente associado à liderança de Geddel Vieira Lima e de outras figuras tradicionais da política estadual, representa uma vertente do pragmatismo que há muito substituiu as antigas fronteiras ideológicas. Nesse ambiente, partidos deixam de ser espaços de identidade política para se transformarem em instrumentos de composição de poder.

Rosalvo, ao migrar para o campo político de ACM Neto, apenas leva essa lógica a outro extremo. Troca o discurso da esquerda pelo abrigo de um projeto eleitoral sustentado por antigos adversários, demonstrando que as divergências de ontem podem ser facilmente superadas quando surge a perspectiva de um novo mandato.

O que se vê, portanto, é a falência do projeto petista como agente de renovação política em Lauro de Freitas. O partido, que já foi identificado com movimentos sociais, sindicatos e bandeiras transformadoras, reduz-se, aos olhos de muitos eleitores, a um balcão de negociações onde ex-candidatos tornam-se aliados daqueles que os derrotaram, e antigos adversários dividem o mesmo palanque sem qualquer constrangimento.

A Bahia, governada por uma ampla coalizão que reúne legendas das mais diferentes orientações, assiste a um cenário em que as fronteiras entre situação e oposição tornam-se cada vez mais difusas. O eleitor, perplexo, observa líderes que mudam de partido, de discurso e de aliados com uma velocidade que desafia qualquer coerência programática.

Antonio Rosalvo é apenas o exemplo mais recente desse processo. Sua mudança de lado não inaugura uma nova prática; apenas confirma um modelo político em que a permanência no poder vale mais do que a fidelidade às ideias defendidas nas campanhas eleitorais. E talvez seja exatamente essa sucessão de metamorfoses que explique o crescente descrédito da população em relação à política: quando todos parecem caber no mesmo projeto de poder, o eleitor já não consegue distinguir quem realmente representa uma alternativa e quem apenas muda de endereço para continuar ocupando espaço no condomínio do poder.