Política e Resenha

O próprio presidente do PL entrega o jogo: Flávio não estava pronto, e agora?

Opinião

Não precisou de esquerda, de PT, nem de analista antipático de plantão. Bastou o próprio dono do partido abrir a boca.

E
le não falha nunca. Valdemar Costa Neto, presidente do PL, o mesmo PL que anda vendendo a candidatura de Flávio Bolsonaro como se fosse água mineral em pleno deserto, acabou de fazer, em entrevista à CNN, aquilo que só um aliado de primeiríssima hora sabe fazer com tamanha elegância: entregou o próprio candidato de bandeja. Disse, sem cerimônia, que Flávio Bolsonaro não estava e talvez ainda não esteja preparado para disputar a Presidência da República. Repito para quem lê rápido demais: não foi comentarista, não foi petista, não foi ninguém “de fora”. Foi o chefe do partido do próprio candidato.

Na entrevista, Valdemar repetiu, com aquela naturalidade de quem está contando que trocou o pneu do carro, que Flávio foi escolhido pelo pai — não pela legenda, não por mérito, não por plano de governo, pelo pai — e que não havia estrutura nenhuma pronta para bancar a candidatura do número 01. Segundo ele, só agora, a esta altura do campeonato, o partido está conseguindo se organizar, fechar alianças estaduais e escolher vice. Ou seja: primeiro anuncia-se o produto, depois se pensa na fábrica. É o método reverso de fazer política, e ainda assim tem gente que aplaude.

A imposição de cima, a confissão de dentro

O que Valdemar deixa claro, direta e indiretamente, é que o plano inicial do PL era outro. Só que, por imposição de Bolsonaro pai — porque no bolsonarismo tudo, absolutamente tudo, se resolve por imposição do patriarca —, a candidatura do filho precisou ser costurada às pressas, no improviso, na canetada última hora. Até aqui, zero novidade: todo mundo com dois neurônios ativos já sabia. A novidade, o verdadeiro furo, é o presidente do próprio partido reconhecer publicamente que o cabeça de chapa da legenda não tem preparo para assumir o comando do país. Isso não é gafe. Isso é diagnóstico.

Reparem no detalhe fino: quando o próprio patrão da fábrica diz que o produto saiu sem inspeção de qualidade, o consumidor não deveria simplesmente confiar, deveria é correr para a saída mais próxima. Só que aqui o consumidor é o eleitorado, e a saída mais próxima costuma ser o WhatsApp da tia, onde nenhuma confissão do Valdemar chega a tempo.

Essa fragilidade, que até então era tratada só nos bastidores, cochichada em corredor de Brasília, agora está escancarada, em rede nacional, com data e hora marcadas. E vai dar munição — e das boas — para quem quiser atacar uma campanha que já vinha sem musculatura, sem propostas e, aparentemente, sem rumo. Não precisa nem procurar adversário. O adversário já foi anunciado, ele é o próprio presidente do partido.

A foto, o sicário e a visita que ninguém pediu

E como diz aquele ditado que eu acabei de inventar agora mesmo, “confissão vem sempre acompanhada de mais uma confissão”. Valdemar, em entrevista anterior, já tinha revelado que sabia da foto de Flávio ao lado do capanga de Daniel Vorcaro, aquele mesmo capanga que, por um mistério insondável da vida carcerária brasileira, decidiu tirar a própria existência dentro da cadeia. Lembram? Pois é, o presidente do PL lembra também, com detalhes.

“Era uma foto de inteligência artificial”, disse Flávio, na época. Curioso como a inteligência artificial, ultimamente, tem uma queda enorme por retratar justamente os personagens mais incômodos da política brasileira.

E tem mais: o presidente do PL trouxe à tona que Flávio Bolsonaro visitou Vorcaro na prisão domiciliar para, segundo relatos, pedir o restante da grana que supostamente bancaria o filme sobre o pai. Enquanto isso, o aliado garantia que o encontro fora apenas para encerrar a relação, um “tchau, foi bom te conhecer” ao estilo mais cordial possível entre um senador e um financiador com currículo digno de série policial. Gente, com um fogo amigo desse, a oposição pode ficar em casa vendo Netflix. O trabalho já está sendo feito, e de graça.

Sabotagem ou apenas o hábito da sinceridade inoportuna?

Fica então a pergunta que não quer calar, e que eu, generosamente, vou fazer por vocês: Valdemar Costa Neto quer sabotar intencionalmente a candidatura de Flávio Bolsonaro, ou são apenas “pequenos deslizes” cometidos, repetidamente, com uma pontaria impressionante, pelo presidente do próprio partido? Porque, convenhamos, deslize uma vez é acidente. Deslize direto na CNN, em mais de uma entrevista, sobre o mesmo candidato, começa a soar como propósito.

Compartilha aqui comigo: o que vocês acham? Falta de preparo do candidato, falta de filtro do presidente do partido, ou as duas coisas caminhando de mãos dadas, num roteiro que nenhum sicário de inteligência artificial teria coragem de escrever?

Política
Eleições 2026
PL
Flávio Bolsonaro
Valdemar Costa Neto

Artigo de opinião. As ideias e o tom aqui são de responsabilidade exclusiva de quem assina embaixo.

— A Coluna