Análise de Conjuntura — Eleições 2026

Por trás da derrota de 2022 havia uma engenharia política que, quatro anos depois, mudou inteiramente de sinal — e os números não deixam dúvida
A
s pesquisas já não deixam dúvida: a eleição de 2026 na Bahia caminha para ser uma das mais disputadas da história recente da política do estado. Diante desse cenário, o Política e Resenha decidiu se debruçar sobre o tabuleiro eleitoral baiano com um olhar independente e analítico. E há um ponto que não dá para deixar de fora da conversa: ACM Neto chega a este pleito em posição mais forte do que estava em 2022. Não se trata de opinião gratuita — os números e o desenho do tabuleiro político sustentam essa leitura, como este artigo pretende demonstrar em detalhe.
O ponto de partida: a derrota de 2022
Em 2022, Jerônimo Rodrigues venceu o segundo turno com 52,5% dos votos, contra 47,21% de ACM Neto — uma diferença de pouco mais de 400 mil votos. À primeira vista, um resultado que consolidaria o governo petista. Mas olhar apenas para o placar final esconde o que estava por trás da disputa, e é justamente aí que mora a diferença entre o ACM Neto de 2022 e o de 2026.
| Candidato (2º turno – 2022) | % dos votos | Diferença |
|---|---|---|
| Jerônimo Rodrigues (vencedor) | 52,5% | ≈ 400 mil votos |
| ACM Neto | 47,21% |
Argumento 1 — Um campo de oposição que estava rachado
Na eleição passada, o campo à direita do governo chegou dividido ao primeiro turno. Enquanto ACM Neto disputava a vaga, João Roma também era candidato, carregando consigo cerca de 770 mil votos. Na prática, tratava-se de um eleitorado de oposição fragmentado — votos que, em sua esmagadora maioria, tinham como destino natural o próprio ACM Neto, mas que se dispersaram entre dois candidatos.
Para 2026, esse racha foi resolvido. João Roma está agora na mesma chapa de ACM Neto. É a unificação de um campo que, em 2022, brigava consigo mesmo antes de brigar com o governo.
Argumento 2 — A rachadura do outro lado
Se a oposição se uniu, o campo governista perdeu peças. Ao montar uma chapa fechada, essencialmente do PT, o governo Jerônimo optou por deixar de fora o senador conhecido como “coronel” — uma liderança com mandato em exercício que, alijada do arranjo petista, migrou para a chapa de ACM Neto. Um movimento simbólico: não é apenas um nome que muda de lado, é um sinal de desgaste interno na base governista.
“O tabuleiro de 2026 não é apenas mais favorável a ACM Neto por acaso: ele reflete o inverso exato da equação de 2022 — oposição que se une enquanto a base governista se fecha e perde peças pelo caminho.”
Argumento 3 — O sentimento de mudança
Some-se a isso um fator menos mensurável, mas presente nas ruas e nas conversas: um sentimento real de desejo de mudança no estado. Esse sentimento não nasce do nada — ele se alimenta da percepção de ineficiência da gestão atual e passa a funcionar como elemento aglutinador de um eleitorado que talvez não tivesse motivo, em 2022, para se engajar tão fortemente contra o governo.
Argumento 4 — A matemática que mais chama atenção: o gap Lula–Jerônimo
O dado mais revelador, porém, é outro. Em 2022, Lula teve 69,5% no primeiro turno na Bahia e 72,5% no segundo turno. Já Jerônimo, no mesmo segundo turno, ficou em 52,5%. A conta é simples e o resultado, evidente: cerca de 20 pontos percentuais do eleitorado que votou em Lula não seguiu para Jerônimo. Em outras palavras, uma fatia expressiva do eleitor lulista baiano votou em ACM Neto.
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Gráfico 1 · Segundo turno 2022 (Bahia) — o gap Lula–Jerônimo
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Esse é o número que sustenta a tese central deste artigo. Se ACM Neto conseguir manter esse contingente de eleitores — que votaram em Lula, mas não em Jerônimo —, o caminho para o governo do estado fica, nas palavras que circulam nos bastidores da política baiana, “absolutamente tranquilo”. Ele amplia o campo à direita e ainda tem a possibilidade de dialogar com um voto que, hoje, se unifica menos por identidade partidária e mais pelo desejo de um governo mais eficiente do que o atual.
Gráfico 2 · A escalada de ACM Neto: piso de 2022 e teto potencial de 2026
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Leitura do gráfico: o “teto teórico” soma o resultado de 2022 ao gap Lula–Jerônimo identificado no segundo turno. É um cenário potencial, não uma projeção de resultado — sua conversão em votos reais depende da campanha, como discutido adiante.
A ressalva necessária
Dito isso, é preciso cautela antes de tratar esse cenário como sentença. Pesquisas eleitorais captam fotografias de um momento, não garantias de resultado. O fato de um eleitor ter votado em Lula não significa automaticamente que ele esteja disponível para votar em ACM Neto — a transferência de voto entre esferas federal e estadual nunca é mecânica, e o eleitorado baiano tem demonstrado, historicamente, capacidade de distinguir claramente entre as duas disputas. Além disso, campanhas ainda serão feitas, erros e acertos ainda vão pesar na balança, e o próprio governo Jerônimo tem instrumentos — recursos, máquina, capilaridade — para tentar reverter esse quadro.
Conclusão
A força de ACM Neto em 2026 não decorre de um salto repentino de popularidade, mas de uma engenharia política mais favorável: união do campo da direita, racha na base governista e um sentimento de mudança que encontra respaldo nos números do gap entre o voto em Lula e o voto em Jerônimo. É um tabuleiro mais favorável do que o de 2022 — mas tabuleiro favorável não é, ainda, vitória garantida. Essa é a diferença entre analisar cenário e cravar resultado, e é exatamente nessa fronteira que o debate sobre a eleição baiana de 2026 promete se intensificar nos próximos meses.
Bahia
ACM Neto
Jerônimo Rodrigues
Análise Eleitoral
Padre Carlos — Teólogo, Filósofo e colunista político — Política e Resenha




