Política e Resenha — Análise

Há políticos que se movem conforme o vento. Há, raríssimos, homens públicos que se tornam o próprio eixo em torno do qual o vento gira.
Existe uma distinção que a linguagem política brasileira insiste em borrar, talvez por conveniência, talvez por cansaço moral: a diferença entre o político e o homem público. O político administra circunstâncias. O homem público administra princípios. O político mede o custo de cada palavra pela reação do dia seguinte. O homem público mede o custo de cada silêncio pelo julgamento da história. Um vive de cálculo; o outro, de espinha dorsal. E é precisamente nessa fronteira, tantas vezes invisível aos olhos apressados da opinião pública, que se ergue a figura do senador Otto Alencar.
Não escrevo estas linhas como panegírico fácil, gênero que a imprensa bahiana pratica com fartura e do qual desconfio por ofício e por fé. Escrevo como quem observa, há décadas, o teatro da política do Sudoeste da Bahia e do estado inteiro, e reconhece, de tempos em tempos, um gesto que não pertence à encenação: o gesto de quem fala porque acredita, não porque convém.
A frase que expõe o caráter
Foi questionado, como sempre é questionado quem ocupa cadeira de relevância pública, sobre onde estaria seu voto, sobre com quem caminharia nas urnas que se aproximam. E respondeu, segundo relatos que circularam entre os corredores da política baiana, em tom que não deixava margem a distorções ou meias-palavras:
“Portanto, como senador da República, eu venho aqui para dizer em alto e bom som, presidente do PSD da Bahia, que o nosso voto será com Lula, será com Jerônimo, será com Wagner, será com Rui. E outra coisa: independente de o meu partido estar apoiando outro candidato, eu estou no caminho, sigo com ele, não saio dele. Não tem força humana que me tira dele.”
Há, nessa fala, uma economia de palavras que só os que já não têm nada a provar conseguem sustentar. Não há adjetivos supérfluos, não há a costumeira arquitetura de subterfúgios com que a política brasileira aprendeu a driblar compromissos. Há apenas a afirmação nua: eis onde estou, eis com quem estarei, e nenhuma pressão partidária, nenhuma conveniência de ocasião, nenhuma força — humana, lê-se bem — será capaz de me deslocar desse lugar.
Quando o partido é instrumento, e não senhor
É preciso pausar sobre um detalhe que o leitor apressado poderia deixar escapar: Otto Alencar afirma, sem rodeios, que sua sigla partidária apoia caminho distinto do seu. E, ainda assim, não hesita, não recua, não busca a saída elegante da omissão. Poderia ter escolhido o silêncio — recurso tão praticado, tão aplaudido pelos que confundem prudência com covardia disfarçada. Escolheu, ao contrário, a exposição. Escolheu dizer, publicamente, que seu compromisso republicano está acima da disciplina de legenda.
Isso tem nome na tradição política clássica, e não é um nome fácil de conquistar: chama-se independência. Não a independência vazia de quem não pertence a nada, mas a independência lastreada de quem pertence, primeiro, a uma ideia de Bahia e de Brasil que ultrapassa a geometria eleitoral de qualquer partido. O partido, para o homem público de verdadeira estatura, é instrumento de ação coletiva — nunca senhor da consciência.
A verdadeira medida de um estadista não se revela nos dias de consenso fácil, quando todos aplaudem a mesma direção. Revela-se nos dias de divergência — quando manter a palavra dada custa caro, e ainda assim se paga o preço sem regatear.
A coragem como categoria política, não como acidente
A tradição republicana — aquela que estudei nos bancos da teologia moral tanto quanto nos arquivos da história política brasileira — sempre reservou lugar de honra para a virtude da fortitude. Não a coragem espetacular dos gestos únicos, mas a coragem sustentada, cotidiana, quase silenciosa, de quem não se deixa comprar pelo aplauso imediato nem intimidar pela ameaça de isolamento.
Otto Alencar exerce essa fortitude quando afirma que caminha com Lula, com Jerônimo Rodrigues, com Wagner e com Rui Costa — nomes que representam, na conjuntura baiana e nacional, um projeto de governo específico, sujeito a todas as críticas legítimas que a democracia autoriza. Não se trata, aqui, de endossar cada escolha desse campo político; trata-se de reconhecer que a coerência de quem declara seu voto sem rodeios, mesmo contrariando a cúpula do próprio partido, é rara o suficiente para merecer registro público. E rara não porque a divergência seja incomum — mas porque a divergência assumida com essa clareza, sem meias-medidas, é o que se tornou incomum.
O que fica para a história do Sudoeste da Bahia
Escrevo de Vitória da Conquista, terra que conheceu, ao longo de gerações, o peso do coronelismo, das facções que trocavam de bandeira conforme trocava o vento do poder central. Conheço bem a genealogia da inconstância política nesta região — e é por conhecê-la que reconheço, com mais nitidez ainda, o valor de um gesto contrário a ela.
Quando um senador da República diz, publicamente, que nenhuma força humana o tira do caminho que escolheu, ele não está apenas falando de uma eleição. Está oferecendo, ao eleitor cansado e desconfiado, um modelo raro de compromisso: aquele que resiste à pressão, ao cálculo, ao medo da dissidência. Esse modelo, mais do que qualquer plataforma eleitoral, é o que precisa ser preservado, discutido e, sobretudo, exigido de todos os que ocupam cargos públicos nesta Bahia que tanto amamos e tanto cobramos.
A história, essa juíza implacável e paciente, não costuma perguntar de que partido era o homem. Pergunta, isso sim, se ele manteve a palavra quando manter a palavra doía. E é essa pergunta, mais do que qualquer urna, que definirá o lugar de Otto Alencar na memória política deste estado.
Otto Alencar
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Padre Carlos — Teólogo, Teólogo e colunista político — Política e Resenha




