Política e Resenha

O PADRE QUE NINGUÉM VÊ: AS DORES, AS SOLIDÕES E AS CRUZES DE QUEM CARREGA O SACERDÓCIO

 

Neste 4 de agosto, dia de São João Maria Vianney, é preciso olhar para além da batina e enxergar o coração do homem que recebeu o Sacramento da Ordem

Por Padre Carlos

 

Há datas que o calendário registra.

E há datas que o coração deveria guardar.

O 4 de agosto é uma delas.

Neste dia, a Igreja celebra São João Maria Vianney, o Santo Cura d’Ars, sacerdote francês que se tornou padroeiro de todos os padres. Sua vida foi uma extraordinária história de entrega, oração, penitência e amor pelas almas. Um homem que fez do confessionário um lugar de encontro entre a miséria humana e a misericórdia de Deus.

Mas talvez o Cura d’Ars tenha deixado para nós uma pergunta que atravessa os séculos:

Quem cuida do coração do padre?

Quem se lembra de que, por trás da batina, existe um homem?

Um homem que sente.

Que se cansa.

Que sofre.

Que tem saudades.

Que enfrenta suas próprias tentações.

Que conhece o silêncio das madrugadas.

Que, muitas vezes, depois de passar o dia inteiro cuidando da dor dos outros, fecha a porta do quarto e se encontra sozinho diante de suas próprias dores.

É preciso falar desse padre.

Do padre que ninguém vê.

Do padre que sobe ao altar com o coração pesado, mas encontra forças para proclamar a esperança.

Do padre que celebra o casamento dos outros, batiza os filhos dos outros, acompanha os enfermos dos outros, sepulta os mortos dos outros e, no entanto, muitas vezes, não tem quem lhe pergunte, com verdadeira sinceridade:

“E você, padre, como está?”

Talvez essa seja uma das perguntas mais esquecidas dentro da Igreja.

Porque todos procuram o padre.

Mas poucos procuram saber como está o homem que existe dentro dele.

O sacerdote aprende, desde cedo, que sua vida não lhe pertence inteiramente.

Ele entrega sua existência a Deus e ao povo.

Seu tempo deixa de ser somente seu.

Sua casa se torna uma casa aberta.

Seu telefone toca quando alguém está doente.

Quando alguém morre.

Quando uma família se desfaz.

Quando um casamento entra em crise.

Quando um jovem perde o sentido da vida.

Quando uma mãe chora.

Quando um pai desespera.

Quando alguém precisa simplesmente conversar.

E o padre escuta.

Quase sempre escuta.

Escuta histórias que não pode contar.

Carrega segredos que não pode dividir.

Conhece dores que não pode revelar.

Acompanha pessoas em seus momentos mais frágeis e, muitas vezes, precisa guardar dentro de si aquilo que ouviu.

É uma espécie de solidão que poucos compreendem.

Porque o padre está cercado de gente e, ainda assim, pode sentir-se profundamente sozinho.

Há uma solidão que não nasce da ausência de pessoas.

Nasce da ausência de alguém diante de quem possamos baixar a guarda.

O padre precisa ser forte.

O padre precisa ser equilibrado.

O padre precisa aconselhar.

O padre precisa ter uma palavra.

O padre precisa celebrar.

O padre precisa chegar.

O padre precisa estar.

Mas quem permite que o padre simplesmente seja?

Quem permite que ele diga:

“Hoje eu não estou bem.”

O celibato, quando vivido como dom e entrega, é uma das mais belas expressões da consagração sacerdotal.

Mas não devemos esquecer que todo dom exige uma renúncia.

O padre renuncia à construção de uma família própria.

Renuncia à experiência cotidiana de ter uma esposa ao seu lado.

Renuncia à alegria de acompanhar, dentro de sua própria casa, o crescimento de filhos.

Renuncia a uma intimidade familiar que a maioria de nós considera natural.

Ele escolhe uma vida em que seu coração pretende pertencer a todos.

Mas essa escolha não transforma o sacerdote em alguém sem necessidades afetivas.

O celibato não elimina a humanidade.

O padre continua precisando de amizade.

Continua precisando de carinho.

Continua precisando de vínculos.

Continua precisando de alguém que se importe com ele sem esperar nada em troca.

O padre não é um anjo.

É um homem que recebeu uma missão divina.

E talvez seja justamente essa contradição que torne o sacerdócio tão sublime e, ao mesmo tempo, tão doloroso.

Ele é chamado a anunciar uma esperança que, muitas vezes, precisa primeiro encontrar dentro de si.

É chamado a falar sobre a misericórdia enquanto enfrenta suas próprias fragilidades.

É chamado a conduzir o rebanho, mesmo quando sente que suas próprias pernas estão cansadas.

E há um peso que poucos conhecem.

O peso de ser pastor.

Porque o pastor não carrega apenas o próprio destino.

Carrega também a preocupação com suas ovelhas.

Um padre pode dormir pensando naquele jovem que se afastou da Igreja.

Naquela família que está se destruindo.

Naquela pessoa que perdeu a fé.

Naquele enfermo que está morrendo.

Naquela criança que sofre.

Naquela comunidade que se dividiu.

E há noites em que o pastor se pergunta:

“Será que fiz tudo o que poderia ter feito?”

É uma pergunta terrível.

Porque o sacerdote pode ser muito amado por uma comunidade e, ainda assim, carregar dentro de si a sensação de que não conseguiu alcançar todos aqueles que precisava alcançar.

É o peso invisível da responsabilidade pastoral.

E existe ainda uma dor sobre a qual a Igreja precisa falar com mais coragem e, sobretudo, com mais misericórdia.

A dor dos padres que, por diferentes circunstâncias da vida, não estão exercendo o ministério sacerdotal.

Aqui é preciso fazer uma distinção fundamental.

Um padre que recebeu validamente o Sacramento da Ordem não deixa de ser padre.

O sacerdócio não é uma profissão da qual alguém se demite.

Não é um cargo que se entrega.

Não é uma função que se perde simplesmente porque, em determinado momento, o sacerdote não está exercendo publicamente o ministério.

O homem ordenado permanece sacerdote.

O Sacramento da Ordem imprime caráter.

Por isso, é preciso abandonar a expressão, tantas vezes utilizada de maneira imprecisa, de que alguém “deixou de ser padre”.

Não.

Ele continua sendo padre.

Pode não estar exercendo o ministério.

Pode estar afastado das atividades pastorais.

Pode estar vivendo uma situação particular.

Pode estar submetido a restrições ou impedimentos de natureza canônica.

Pode estar atravessando um período de discernimento.

Pode estar vivendo circunstâncias pessoais complexas.

Mas o sacerdócio recebido permanece.

O padre continua padre.

E essa verdade deveria mudar completamente a maneira como olhamos para esses irmãos.

Porque há padres que, embora não estejam exercendo o ministério, continuam carregando dentro de si a alma de pastor.

São homens que talvez não tenham mais uma paróquia.

Mas ainda se preocupam com o rebanho.

Talvez não tenham mais um altar onde celebrar.

Mas continuam carregando a memória de milhares de Eucaristias.

Talvez não estejam mais diante de uma comunidade.

Mas continuam sendo procurados por pessoas que precisam de uma palavra.

São, muitas vezes, pastores sem rebanho visível.

E há uma dor profunda nessa condição.

Porque não existe nada mais cruel do que ser aquilo que você é e, ao mesmo tempo, sentir que o mundo passou a tratá-lo como se você não fosse mais.

O padre que não exerce o ministério pode experimentar uma espécie de exílio.

Um exílio afetivo.

Um exílio pastoral.

Às vezes, até mesmo um exílio dentro da própria Igreja.

E aqui precisamos perguntar:

Onde está a misericórdia?

Onde está a compaixão que tanto pregamos?

Onde está a capacidade de olhar para um irmão e dizer:

“Você continua sendo nosso irmão.”

A Igreja não pode ser misericordiosa apenas nos discursos.

A misericórdia precisa existir também quando a história fica complicada.

Quando o padre erra.

Quando o padre sofre.

Quando o padre cai.

Quando o padre atravessa uma crise.

Quando o padre não consegue mais exercer o ministério.

Não se trata de negar a disciplina da Igreja.

Não se trata de relativizar as normas canônicas.

Não se trata de ignorar responsabilidades.

Trata-se de algo muito mais simples.

Trata-se de não transformar a disciplina em desumanização.

Uma coisa é a norma.

Outra coisa é a crueldade.

Uma coisa é a necessidade de preservar a ordem.

Outra coisa é abandonar um ser humano.

Uma coisa é reconhecer que um padre não está exercendo o ministério.

Outra, completamente diferente, é agir como se ele tivesse deixado de ser sacerdote e, pior ainda, como se tivesse deixado de ser irmão.

A Igreja que anuncia a misericórdia precisa saber praticá-la.

Também com os seus.

Talvez o maior desafio pastoral dos nossos tempos seja aprender a cuidar dos cuidadores.

Cuidar dos padres.

Cuidar dos homens que passaram a vida cuidando de todos.

Porque o padre também precisa de colo.

Também precisa de amizade.

Também precisa de silêncio.

Também precisa de descanso.

Também precisa ser lembrado.

Também precisa ser perdoado.

Também precisa ser amado.

E talvez seja isso que São João Maria Vianney nos ensina, tantos anos depois.

Que a santidade não acontece porque o homem deixou de ser homem.

A santidade acontece quando um homem, com todas as suas fragilidades, entrega a Deus aquilo que é.

Por isso, neste 4 de agosto, eu gostaria de pedir uma coisa muito simples.

Quando você encontrar um padre, não diga apenas:

“Reze por mim.”

Diga também:

“Eu rezo por você.”

Não pergunte apenas:

“Quando será a próxima missa?”

Pergunte:

“Você está bem?”

Não procure o padre somente quando precisar de um sacramento.

Procure-o também quando ele precisar de um amigo.

E quando você encontrar um sacerdote que, por circunstâncias pastorais ou canônicas, não esteja exercendo o ministério, não diga que ele “deixou de ser padre”.

Diga apenas:

“Ele é padre. Hoje, não está exercendo o ministério.”

Porque as palavras também podem ferir.

E também podem curar.

Neste Dia do Padre, quero lembrar especialmente aqueles que ninguém lembra.

Os padres cansados.

Os padres idosos.

Os padres enfermos.

Os padres solitários.

Os padres incompreendidos.

Os padres que carregam feridas que ninguém vê.

Os padres que enfrentam crises que ninguém conhece.

E aqueles que, sendo padres, não estão exercendo o ministério e talvez estejam vivendo uma das maiores solidões de suas vidas.

A todos eles, uma palavra:

Vocês continuam sendo padres.

Continuam fazendo parte da história da Igreja.

Continuam sendo irmãos.

Continuam merecendo respeito.

Continuam merecendo dignidade.

Continuam merecendo misericórdia.

E, acima de tudo, continuam sendo homens por quem Deus não deixou de olhar.

Porque Deus não ama apenas os padres que estão diante do altar.

Deus também olha para aquele que está sozinho.

Para aquele que está ferido.

Para aquele que está afastado.

Para aquele que não sabe mais qual será o próximo passo.

Para aquele que, em silêncio, ainda carrega no coração o chamado que um dia recebeu.

Talvez seja por isso que o sacerdócio seja tão misterioso.

Porque o padre pode passar por muitos lugares.

Pode mudar de paróquia.

Pode envelhecer.

Pode adoecer.

Pode deixar de exercer o ministério por um tempo.

Pode atravessar desertos que ninguém conhece.

Mas aquilo que Deus marcou na sua alma permanece.

E talvez, no fim de tudo, quando as luzes dos altares se apagarem, quando os aplausos terminarem e quando todos nós estivermos diante da eternidade, Deus não nos perguntará quantas pessoas nos admiraram.

Talvez nos pergunte apenas:

“Quanto você amou?”

Aos padres, então, neste 4 de agosto, meu abraço.

Aos que estão no altar.

Aos que estão no confessionário.

Aos que estão nas estradas.

Aos que estão nos hospitais.

Aos que estão envelhecendo.

Aos que estão cansados.

Aos que estão feridos.

Aos que estão em silêncio.

Aos que estão atravessando o deserto.

E também aos padres que, por circunstâncias pastorais ou canônicas, hoje não estão exercendo o ministério.

A todos vocês, minha oração.

Que nunca lhes falte uma mão estendida.

Que nunca lhes falte um amigo.

Que nunca lhes falte a esperança.

E que a Igreja, mãe e mestra, jamais se esqueça de que, antes de qualquer julgamento, existe sempre um coração humano.

Um coração que pode estar cansado.

Um coração que pode estar ferido.

Um coração que pode estar sozinho.

Mas que, um dia, foi colocado entre as mãos de Deus.

E quando Deus chama um homem pelo nome, talvez o mundo possa até se esquecer dele.

Deus, não.

Feliz Dia do Padre.

4 de agosto.

São João Maria Vianney, rogai por todos os sacerdotes.

E ensinai-nos a cuidar daqueles que dedicaram a vida a cuidar de nós.