Memória & Patrimônio · Vitória da Conquista

Uma reflexão sobre arte, fé e memória a propósito do tombamento do Cristo de Mário Cravo Júnior
A
imagem que estampou a capa do jornal “Equipe” em novembro de 1980 oferece uma janela para um momento de celebrações e profunda transformação em Vitória da Conquista. Nascia ali o que viria a se tornar um dos maiores símbolos locais: o Cristo de Vitória da Conquista, criação do renomado escultor Mário Cravo Júnior — uma obra que, mais de quatro décadas depois, segue de pé no alto da Serra do Periperi, olhando para a cidade que ajudou a formar.
Essa obra monumental foi mais do que uma homenagem à fé do povo conquistense. Cravo Júnior, com seu estilo único e sua percepção sensível, imprimiu ao Cristo uma representação que transcende o caráter religioso para alcançar um patamar artístico e histórico que define a própria identidade da cidade. A escolha desse artista, um dos maiores expoentes da arte brasileira, evidencia a visão ousada dos líderes da época, que enxergaram na arte uma poderosa ferramenta de identidade e progresso.
O Cristo é hoje um marco visível de diferentes pontos da cidade, um farol que guia o olhar e o espírito da comunidade. É destino de peregrinos e visitantes, e ponto de referência para moradores, reafirmando diariamente os laços entre o homem e o divino. Contudo, sua importância ultrapassa os contornos da devoção: torna-se testemunho da fé e da resiliência de um povo que, no alto de seus desafios, sempre buscou forças para seguir adiante.
“Em plena ditadura militar, quando o Brasil buscava afirmar uma identidade nacional, o monumento representa a resistência cultural de uma cidade do interior — a necessidade de expressão, ainda que silenciosa, de um sentimento de pertença, união e afirmação da cultura local.”
Com o tempo, o Cristo deixou de ser um simples marco no território físico e passou a habitar o imaginário coletivo. É evocado em manifestações artísticas, eventos, campanhas, e até na memória afetiva de uma cidade que cresceu à sua sombra. Mais do que uma estátua, tornou-se síntese da identidade conquistense, unindo história, cultura e espiritualidade.
A arte que deu rosto ao sertão
Para transformar essa ideia em matéria, foi chamado um dos maiores artistas do Brasil: Mário Cravo Júnior. Cravo não criou apenas uma escultura. Criou um retrato. O rosto daquele Cristo não é europeu, não é romano, não é clássico. É nordestino. Tem a expressão do homem que enfrenta o sol impiedoso, a terra seca, a luta diária contra a fome e a desigualdade — um Cristo que parece carregar não apenas a cruz bíblica, mas também a cruz histórica do sertão.
Talvez por isso ele cause impressão tão profunda em quem chega à cidade pela BR-116. No meio da paisagem árida, quase silenciosa, ergue-se aquela figura gigantesca — 33 metros de altura, no ponto mais elevado da serra. Ele parece olhar para a cidade. Mas quem chega sente algo diferente: parece que olha para cada um de nós.
A última despedida do Nordeste
Durante décadas, milhares de nordestinos migraram para o Sudeste em busca de sobrevivência. Antes de partir, muitos passavam por Vitória da Conquista. A Serra do Periperi era uma espécie de fronteira simbólica: ali terminava o sertão conhecido e começava o desconhecido da estrada para São Paulo. Para muitos viajantes, o Cristo parecia fazer um gesto silencioso — uma despedida. Um Deus que ficava. Um Deus que permanecia guardando o povo que partia.
Quando cheguei a Conquista e contemplei aquela imagem pela primeira vez, compreendi imediatamente a força espiritual daquele lugar. Não era apenas um monumento. Era uma catequese silenciosa. Ali estava um Cristo com rosto de povo — um Cristo que compreendia o sofrimento nordestino. E confesso: foi daquela mística que nasceu boa parte da minha vocação pastoral. Dediquei meu ministério a esse povo sofrido porque, de certa forma, aquele Cristo da serra já havia me ensinado tudo.
Raul Ferraz e Pedral: dois homens públicos que pensaram grande
O tombamento do Cristo tem também um significado político no melhor sentido da palavra. Ele reconhece o legado de dois homens públicos que compreenderam o valor da história: Pedral Sampaio, que sonhou o projeto, e Raul Ferraz, que teve a coragem de realizá-lo. Em 1980, quando a obra foi finalmente inaugurada, uma multidão subiu a serra a pé — segundo relatos da época, uma das maiores manifestações populares da história de Vitória da Conquista. Não era apenas uma inauguração. Era um nascimento simbólico da cidade moderna.
Patrimônio não é apenas pedra
Para o historiador Fábio Sena não tem data melhor para celebrar o tombamento do Cristo que o próximo dia 17 de agosto, data em que é celebrado o Dia do Patrimônio Histórico, esta data lembra algo fundamental: patrimônio não é apenas edifício antigo, é memória compartilhada. Ele afirma que preservar o patrimônio é também uma estratégia de sustentabilidade cultural e turística. Já o presidente da Câmara Municipal, Ivan Cordeiro, lembrou que proteger esses símbolos é proteger a história contra o esquecimento. E ele tem razão: cidades que esquecem seus símbolos acabam perdendo sua própria narrativa.
O tombamento como pacto de memória
O tombamento do Cristo de Mário Cravo não é apenas uma homenagem artística. É um pacto entre gerações, um compromisso entre passado e futuro. É reconhecer que algumas obras ultrapassam o tempo político dos governos e passam a pertencer à história profunda de uma cidade. Preservar o Cristo é preservar:
- a memória de Pedral Sampaio;
- a visão de Raul Ferraz;
- a genialidade de Mário Cravo;
- e a fé simples do povo nordestino.
Porque cidades também precisam de alma
Vitória da Conquista cresceu. Expandiu suas avenidas, multiplicou bairros, tornou-se um polo econômico do interior da Bahia. Mas cidades não vivem apenas de concreto e comércio. Cidades vivem de símbolos. O Cristo da Serra do Periperi é um desses raros símbolos que transformam paisagem em significado — e nos lembra, todos os dias, que uma cidade só se torna grande quando aprende a respeitar a própria história.
Por isso, quando o Cristo for oficialmente tombado — e espero que isso aconteça em breve — não será apenas uma vitória da cultura. Será um gesto de justiça. Justiça com os homens públicos que pensaram grande. Justiça com o artista que deu rosto ao sertão. E justiça com o povo que, há décadas, olha para aquela cruz e reconhece ali algo que nenhuma estatística consegue medir: a alma de Vitória da Conquista.
Mário Cravo Júnior
Vitória da Conquista
Cultura Nordestina
Artigo de opinião · Coluna de Memória & Patrimônio




