Política e Resenha

A quem eu vou culpar por ter sido enganado?

 

Por Padre Carlos

A quem eu vou culpar por ter sido enganado?

Qual o grau de culpa das autoridades que juraram de pé junto que sairia o leilão da concessão?

E, agora, diante da notícia publicada pela Folha de S.Paulo, o que fazemos nós, cidadãos comuns, que acreditamos nas promessas oficiais, nos anúncios, nos cronogramas e nas declarações de autoridades?

Confesso: estou profundamente indignado e decepcionado.

E escrevo estas linhas não apenas como articulista, mas como alguém que conhece a angústia de quem depende das estradas brasileiras para trabalhar, transportar mercadorias, viajar, cuidar da família e simplesmente chegar vivo ao destino.

A notícia publicada pela Folha nesta segunda-feira, 3 de agosto, é um daqueles textos que nos obrigam a parar e perguntar: até quando o cidadão será chamado a acreditar em cronogramas que depois desaparecem no labirinto da burocracia?

Segundo a reportagem, o governo federal reduziu de 14 para 10 o número de leilões de rodovias previstos para 2026. A própria reportagem aponta dificuldades relacionadas às chamadas repactuações de contratos e ao acúmulo de projetos na ANTT, além de um acordo frustrado no TCU. (Folha de S.Paulo)

Mas, para quem vive na ponta, essa explicação técnica não basta.

Porque entre uma decisão administrativa e outra existe uma coisa chamada vida real.

E a vida real passa pela BR-116.

Passa por Vitória da Conquista.

Passa pelo Sudoeste da Bahia.

Passa por caminhoneiros, comerciantes, agricultores, empresários, trabalhadores e famílias inteiras que dependem diariamente de uma das principais artérias rodoviárias do país.

E é justamente aí que a indignação cresce.

Durante meses, ouvimos falar em concessão, leilão, investimentos, duplicação, modernização e melhoria da infraestrutura. O cidadão foi levado a acreditar que havia um caminho definido. Que o processo avançaria. Que o futuro da BR-116 seria finalmente tratado com a seriedade que a sua importância econômica e humana exige.

E agora?

Agora somos informados de que os planos estão sendo reduzidos, que há entraves, que projetos se acumulam e que o calendário não é exatamente aquilo que nos fizeram acreditar.

Mas quem paga a conta da espera?

Quem paga pela demora de uma obra?

Quem paga pela estrada perigosa?

Quem paga pelo acidente que poderia ter sido evitado?

Quem paga pelo frete mais caro?

Quem paga pelo atraso na entrega de uma mercadoria?

Quem paga pela insegurança de uma família que atravessa centenas de quilômetros?

Quem paga pelo desenvolvimento que não chega?

O cidadão. Sempre o cidadão.

E é por isso que precisamos fazer uma pergunta incômoda: qual é a responsabilidade de quem anuncia datas, cria expectativas e faz promessas públicas?

Não estou dizendo que todo atraso é fruto de má-fé. Há problemas jurídicos, técnicos, ambientais, regulatórios e financeiros que precisam ser enfrentados. Concessões de rodovias são processos complexos e exigem segurança jurídica.

Mas há uma diferença enorme entre explicar honestamente uma dificuldade e vender ao cidadão a certeza de que tudo está resolvido quando ainda não está.

O problema não é apenas o atraso.

O problema é a frustração da confiança.

E confiança pública, meus caros leitores, não se recupera com uma nota técnica.

A reportagem da Folha chega num momento particularmente sensível para quem acompanha a situação da BR-116 na Bahia. É importante registrar que o cenário não é simplesmente de abandono de todos os projetos: a concessão da chamada Rota dos Sertões, envolvendo as BR-116/BA/PE e BR-324/BA, teve seu leilão realizado em maio de 2026, com previsão de investimentos e modernização do trecho concedido. (Serviços e Informações do Brasil)

Mas justamente por isso precisamos separar as coisas.

Uma concessão realizada não significa que todos os problemas da BR-116 estejam resolvidos.

E muito menos significa que o cidadão deve aceitar indefinidamente a incerteza sobre os demais trechos e projetos que foram apresentados como prioridade.

A situação é ainda mais delicada porque documentos oficiais do próprio governo colocaram no radar a concessão da BR-116 entre Feira de Santana e a divisa Bahia/Minas Gerais, juntamente com a BR-324, em um projeto que previa edital em julho de 2026 e leilão em novembro de 2026. O documento oficial, entretanto, apresentava essas datas como previstas. (Serviços e Informações do Brasil)

É justamente aí que mora a nossa inquietação.

O que aconteceu com esse calendário?

O que mudou?

Quais são os novos prazos?

Quem vai explicar isso à população?

Não podemos aceitar que uma estrada fundamental para o desenvolvimento da Bahia seja tratada como mais uma linha numa planilha de Brasília.

A BR-116 não é apenas asfalto.

A BR-116 é economia.

É produção.

É comércio.

É turismo.

É saúde.

É educação.

É transporte.

É vida.

Para Vitória da Conquista e para todo o Sudoeste baiano, falar da BR-116 é falar do próprio futuro da região.

Por isso, quando alguém promete uma solução, o mínimo que se espera é responsabilidade.

Se o leilão vai acontecer, diga quando.

Se não vai acontecer, explique por quê.

Se o cronograma mudou, apresente o novo cronograma.

Se existem obstáculos no TCU, na ANTT ou em qualquer outra instância, que se diga claramente quais são eles.

O que não podemos continuar fazendo é tratar a população como plateia de um espetáculo em que a cada capítulo o cenário muda e ninguém sabe quando será o final.

O cidadão não precisa de promessa. Precisa de estrada.

Não precisa de discurso. Precisa de segurança.

Não precisa de anúncio. Precisa de obra.

E, acima de tudo, não precisa ser enganado.

Por isso, faço aqui um apelo às autoridades federais, estaduais e municipais, aos representantes políticos da Bahia e, especialmente, àqueles que tantas vezes anunciaram avanços para a BR-116:

Não nos peçam para esquecer o que foi prometido.

Nós estamos olhando.

Nós estamos acompanhando.

Nós estamos cobrando.

E continuaremos cobrando.

Porque a BR-116 não pertence a um governo, a um partido ou a uma agência reguladora.

A BR-116 pertence ao Brasil.

E quem depende dela todos os dias tem o direito de saber a verdade.

Afinal, se mais uma vez fomos levados a acreditar que o futuro estava logo ali, na próxima curva, alguém precisa ter a coragem de responder:

A quem eu vou culpar por ter sido enganado?

E, sobretudo:

Quem vai assumir a responsabilidade por mais uma promessa que ameaça ficar parada no acostamento da burocracia brasileira?

Por Padre Carlos