Por Padre Carlos
Há escolhas políticas que parecem fruto de um cálculo sofisticado. Outras lembram aquele sujeito que entra em campo, olha para o próprio gol e decide que a melhor estratégia é chutar com toda a força. A escolha de Alfredo Gaspar como candidato a vice de Flávio Bolsonaro parece pertencer à segunda categoria.
Flávio passou semanas dizendo que queria uma mulher na vice. O discurso parecia pronto: renovação, sensibilidade, ampliação do eleitorado, diálogo com um segmento decisivo da sociedade. Michelle Bolsonaro foi cogitada. Priscila Costa também. O roteiro estava escrito.
Mas eis que, no apagar das luzes, surge uma chapa “puro-sangue” do PL.
Puro-sangue?
Talvez puro improviso.
Talvez pura falta de opção.
Ou, quem sabe, puro desespero.
A explicação oferecida foi quase comovente: “não deu tempo”. Como se uma candidatura presidencial fosse organizada com a mesma antecedência de um churrasco de domingo.
O problema, porém, não é apenas a mudança de discurso. Na política, mudar de ideia faz parte do cardápio diário. O verdadeiro espanto é trocar a promessa de uma vice capaz de ampliar apoios por um nome que chega acompanhado de uma mala pesada de controvérsias públicas.
Gaspar nega as acusações que pesam contra ele e afirma ser inocente. Em relação à denúncia envolvendo estupro de vulnerável, sustenta que houve um equívoco de identificação e chegou a solicitar exame de DNA para acelerar o esclarecimento do caso. Também é alvo de investigação relacionada ao uso de emendas parlamentares, fatos que ainda dependem da conclusão das autoridades competentes.
Nada disso significa culpa. No Estado Democrático de Direito, a presunção de inocência não é um detalhe: é um princípio constitucional.
Mas política não vive apenas de processos. Vive, sobretudo, de percepção.
E percepção eleitoral costuma ser muito mais rápida que qualquer sentença.
Ao escolher um vice cercado por controvérsias públicas, Flávio Bolsonaro entregou aos adversários um presente embrulhado com laço de fita. A campanha nem começou direito e já nasce obrigada a gastar energia explicando aquilo que deveria evitar explicar.
Em vez de discutir economia, segurança ou propostas para o país, corre o risco de ver entrevistas dominadas por perguntas sobre investigações, denúncias e esclarecimentos.
É o tipo de pauta que nenhum marqueteiro sonha em administrar.
Há uma velha máxima segundo a qual um candidato a vice deve cumprir duas funções básicas: somar votos e evitar problemas.
Quando começa provocando mais perguntas do que respostas, a conta eleitoral muda completamente.
Foi curioso observar Flávio lamentando publicamente que não conseguiu construir uma composição mais ampla. A confissão involuntária revelou mais do que talvez pretendesse: a chapa escolhida não era exatamente o plano A.
Nem o B.
Talvez tenha sido o plano “era o que tinha”.
Na política, símbolos importam.
Uma vice mulher poderia transmitir renovação, ampliar diálogo e reduzir resistências. Em vez disso, a campanha optou por um nome cuja primeira tarefa será defender sua própria imagem antes mesmo de defender o programa de governo.
É uma inversão de prioridades que costuma custar caro.
Os estrategistas eleitorais gostam de dizer que uma campanha deve produzir boas notícias diariamente.
A pergunta inevitável é: como fazer isso quando a primeira grande notícia da chapa não é a proposta apresentada ao país, mas as explicações sobre o currículo judicial do vice?
Os adversários agradeceram.
Nem precisaram produzir munição.
Ela veio pronta.
E talvez seja justamente aí que reside a ironia maior.
Flávio Bolsonaro afirmou desejar uma candidatura forte, disciplinada e “puro-sangue”. Acabou entregando uma chapa que estreia sob forte desgaste político, oferecendo aos opositores um campo fértil para explorar.
Há tiros que acertam o pé.
Há tiros que atingem o próprio projeto.
E há aqueles que deixam a campanha inteira procurando um curativo antes mesmo da largada.
Resta saber se essa escolha foi apenas um tropeço estratégico…
…ou se foi um tiro no peito da própria candidatura.





