
(Padre Carlos)
Na política, as vitórias mais expressivas não são, necessariamente, aquelas conquistadas no dia da eleição. As mais importantes são aquelas construídas ao longo do mandato, quando adversários passam a reconhecer o trabalho realizado, quando resistências se transformam em respeito institucional e quando a liderança deixa de ser apenas um cargo para se tornar uma referência.
Foi exatamente esse movimento que parece ter ocorrido na Câmara Municipal de Vitória da Conquista em torno da presidência do vereador Ivan Cordeiro.
Eleito presidente da Casa com 15 votos favoráveis, sete votos em branco e uma abstenção, Ivan assumiu o comando do Legislativo em uma votação que já demonstrava capacidade de diálogo, inclusive com parte da bancada de oposição. Naquele momento, os votos em branco representavam um gesto político de cautela e de protesto, sem, contudo, constituírem uma candidatura alternativa consolidada.
Passados os meses, o cenário político mudou.
O líder do governo, vereador Edvaldo Ferreira Júnior, afirmou publicamente que acredita na recondução de Ivan Cordeiro à presidência da Câmara e ressaltou que a própria prefeita Sheila Lemos tem defendido a independência entre os Poderes, reafirmando que cabe exclusivamente aos vereadores decidir quem comandará o Legislativo.
Mais significativo, porém, é perceber que vereadores que, na eleição anterior, não acompanharam Ivan já demonstram disposição para votar em sua reeleição.
Esse fato possui um simbolismo político importante.
Na prática, significa que o presidente da Câmara conseguiu transformar um mandato inicialmente legitimado pela maioria em uma gestão reconhecida por setores que antes mantinham reservas quanto ao seu nome.
Na política municipal, onde as relações são construídas diariamente, dificilmente um adversário muda de posição apenas por conveniência. O reconhecimento costuma ser consequência da convivência institucional, do cumprimento de acordos, da capacidade de ouvir e da habilidade em administrar conflitos.
A presidência da Câmara exige exatamente isso.
Não basta conduzir sessões. É preciso administrar interesses divergentes, garantir espaço para governo e oposição, respeitar o Regimento Interno e preservar a autonomia do Poder Legislativo.
Ao que tudo indica, Ivan Cordeiro conseguiu percorrer esse caminho.
Se até mesmo um vereador que poderia ter sido um dos principais adversários na disputa anterior já declara apoio à sua permanência na presidência, isso sinaliza que o ambiente político interno passou por um processo de amadurecimento.
Naturalmente, cada vereador exercerá seu voto de forma livre e soberana quando chegar o momento da nova eleição da Mesa Diretora. Até lá, negociações continuarão acontecendo, posições poderão mudar e novas articulações surgirão.
Mas a política também se mede pelos sinais.
E os sinais que hoje aparecem na Câmara Municipal indicam que Ivan Cordeiro entra no debate sobre a sucessão em uma posição diferente daquela de sua primeira eleição. Não mais como um candidato que precisava construir maioria, mas como um presidente que busca renovar a confiança conquistada durante o exercício do mandato.
Isso talvez explique por que nomes que antes preferiram o voto em branco agora admitem apoiar sua recondução.
Mais do que uma mudança de voto, trata-se do reconhecimento de um estilo de condução política que apostou menos no enfrentamento e mais na construção de consensos.
Em tempos de polarização crescente, esse talvez seja um dos maiores méritos de qualquer liderança pública: demonstrar que é possível governar uma instituição sem transformar divergências em inimigos permanentes.
Se essa maioria se confirmará na eleição da Mesa Diretora, somente o voto dos vereadores responderá. Mas, independentemente do resultado final, o fato de antigos resistentes passarem a integrar o campo de apoio do atual presidente revela que a política continua sendo, acima de tudo, a arte do diálogo, da construção de pontes e da capacidade de unir diferentes em torno da estabilidade institucional.




