Política e Resenha

A VIDA É UM SOPRO

(Padre Carlos)

A vida é um sopro.

Talvez poucas frases sejam capazes de dizer tanto com tão poucas palavras.

Oscar Niemeyer, um dos maiores arquitetos que o Brasil produziu, viveu 104 anos. Nasceu no Rio de Janeiro em 15 de dezembro de 1907 e morreu em 5 de dezembro de 2012, apenas dez dias antes de completar 105 anos. Uma existência extraordinariamente longa para os padrões humanos.

Mas, diante da eternidade, 104 anos continuam sendo apenas um instante.

Talvez seja por isso que Niemeyer tenha dito que a vida é um minuto e que, diante do céu, precisamos perceber como somos pequenos. Há nessa afirmação uma espécie de sabedoria que só conseguimos compreender verdadeiramente quando paramos por alguns instantes de correr atrás das coisas que imaginamos serem tão importantes.

A vida é breve.

E, se sabemos disso, por que tanto orgulho?

Por que tanta arrogância?

Por que tanta disputa?

Por que tantas pessoas passam a vida inteira tentando provar que são superiores às outras?

Olhamos para o céu e percebemos nossa pequenez. Olhamos para uma noite estrelada e compreendemos que somos apenas uma pequena parte de uma realidade que não conseguimos sequer dimensionar.

Ainda assim, passamos boa parte da existência alimentando vaidades.

Queremos ter razão.

Queremos reconhecimento.

Queremos poder.

Queremos ser admirados.

Queremos deixar nosso nome registrado.

E, algumas vezes, nessa corrida para sermos importantes, esquecemos simplesmente de ser humanos.

É justamente nesse ponto que a vida e a obra de Oscar Niemeyer ganham uma dimensão que ultrapassa a arquitetura.

Niemeyer construiu edifícios que se tornaram símbolos do Brasil. Suas curvas, sua leveza e sua ousadia transformaram a arquitetura brasileira em referência internacional.

Mas talvez sua maior construção tenha sido outra.

A construção de uma vida que não se deixou aprisionar completamente pela vaidade da própria grandeza.

Ele poderia ter se transformado apenas no arquiteto famoso, celebrado, premiado e reconhecido mundialmente. Mas continuou falando sobre a vida com uma simplicidade quase desconcertante.

Talvez porque tivesse compreendido algo que muitos de nós demoramos décadas para perceber: nenhum título, nenhum cargo, nenhum patrimônio e nenhuma fama conseguem interromper o tempo.

O relógio não respeita o dinheiro.

A morte não respeita o poder.

O tempo não respeita a vaidade.

Todos nós caminhamos para o mesmo destino.

É uma constatação desconfortável, mas também profundamente libertadora.

Se a vida é um sopro, talvez não devêssemos desperdiçá-la cultivando ressentimentos.

Se a vida é um minuto, talvez não valha a pena transformar cada diferença em uma guerra.

Se a vida passa tão depressa, talvez devêssemos aprender a pedir perdão.

A abraçar mais.

A agradecer.

A olhar para quem está ao nosso lado.

A dizer às pessoas que amamos que as amamos enquanto ainda podemos dizê-lo.

A grande tragédia humana talvez não seja simplesmente morrer. É passar pela vida sem perceber que estava vivendo.

Niemeyer parecia compreender a importância do sonho. Mesmo quando já havia ultrapassado os cem anos, continuava trabalhando, imaginando, desenhando e criando.

Isso também é uma lição.

Envelhecer não deveria significar abandonar a capacidade de sonhar.

O corpo envelhece. O tempo passa. As forças diminuem. Mas enquanto houver dentro de nós a capacidade de imaginar algo novo, existe uma parte da vida que continua jovem.

E talvez seja justamente o sonho que nos impede de envelhecer por dentro.

Niemeyer também nos deixou uma reflexão sobre a generosidade.

Um talento extraordinário pode transformar-se em instrumento de vaidade ou de serviço. Depende de quem o possui.

Ele recebeu um talento imenso para criar. E utilizou esse talento para transformar espaços, cidades e a própria maneira como o mundo enxergava a arquitetura brasileira.

Sua preocupação com a desigualdade social e sua defesa de uma sociedade mais justa também faziam parte de sua visão de mundo.

Isso nos leva a uma pergunta importante:

O que fazemos com aquilo que recebemos da vida?

Alguns receberam inteligência.

Outros receberam capacidade de ensinar.

Outros receberam habilidade para cuidar.

Outros receberam talento artístico.

Outros receberam capacidade de liderar.

Outros receberam simplesmente a capacidade de ouvir.

Talvez a questão não seja descobrir quem recebeu mais.

A questão seja descobrir o que estamos fazendo com aquilo que recebemos.

Porque talento sem generosidade pode transformar-se em arrogância.

Conhecimento sem humanidade pode transformar-se em instrumento de dominação.

Dinheiro sem solidariedade pode transformar-se em isolamento.

Poder sem humildade pode transformar-se em tirania.

E inteligência sem amor pode produzir uma sociedade tecnicamente avançada, mas espiritualmente pobre.

Oscar Niemeyer nos lembra que a grandeza verdadeira não está necessariamente naquilo que acumulamos, mas naquilo que conseguimos deixar.

Não estou falando apenas de obras.

Estou falando de marcas humanas.

Uma palavra que confortou alguém.

Uma mão estendida.

Um gesto de generosidade.

Uma oportunidade oferecida.

Um conhecimento compartilhado.

Um filho educado com amor.

Um amigo que encontrou em nós alguém em quem pudesse confiar.

Essas coisas raramente aparecem nos livros de história.

Mas talvez sejam justamente elas que deem sentido à nossa passagem pela Terra.

Niemeyer construiu prédios que permanecerão por décadas ou séculos.

Nós, seres humanos comuns, provavelmente não teremos essa possibilidade.

Mas todos nós podemos construir alguma coisa que permaneça.

Podemos construir memória.

Podemos construir afeto.

Podemos construir esperança.

Podemos construir dignidade na vida daqueles que encontramos pelo caminho.

E talvez essa seja a verdadeira arquitetura da existência.

No fim, quando olharmos para trás, provavelmente perceberemos que muitos dos problemas pelos quais perdemos noites de sono eram pequenos demais.

As disputas que pareciam definitivas terão perdido importância.

As vaidades terão desaparecido.

O dinheiro terá ficado para trás.

Os cargos terão terminado.

Os aplausos terão cessado.

E então talvez reste apenas uma pergunta:

Que tipo de ser humano eu fui?

Não quantas pessoas me admiraram.

Não quanto dinheiro consegui.

Não quantos títulos acumulei.

Não quantas vezes tive razão.

Mas quantas vidas consegui tocar com alguma bondade.

Oscar Niemeyer morreu aos 104 anos. Seu corpo desapareceu, como desaparecerá o nosso. Mas sua obra permaneceu.

E permanece também uma frase que talvez seja mais importante do que qualquer edifício:

A vida é um sopro.

Talvez devêssemos levá-la mais a sério.

Não para viver com medo da morte, mas para aprender a respeitar a vida.

Não para abandonar nossos sonhos, mas para compreender que eles precisam caminhar ao lado da humildade.

Não para desistir de conquistar, mas para não permitir que nossas conquistas nos façam esquecer quem somos.

Quando estivermos diante de uma noite estrelada, talvez seja bom olhar para o céu.

E lembrar que somos pequenos.

Mas ser pequeno diante da imensidão do universo não significa que nossa existência seja insignificante.

Pelo contrário.

Significa que cada minuto é precioso.

Cada encontro pode ser importante.

Cada gesto pode deixar uma marca.

Cada vida pode fazer diferença.

A vida é um sopro.

E justamente porque é tão breve, talvez o maior erro seja gastá-la tentando parecer grande.

A verdadeira grandeza pode estar em algo muito mais simples:

ser humano enquanto ainda há tempo.


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