Política e Resenha

Dê Descanso ao Seu Domingo

Uma reflexão sobre o ócio, o descanso e a sabedoria de não fazer nada

Antes de começar uma reunião do CFC – Conselho Federal de Contabilidade, em Brasília, estava conversando com meu amigo Cesar Buzzin sobre as nossas rotinas do dia a dia, alguns costumes e vícios que nos tornam meio mecânicos. A nossa discussão versava sobre a quantidade de atividade que desempenhávamos. Chegamos à conclusão de que precisamos dar descanso aos nossos domingos e feriados.

Sempre vejo as pessoas questionarem outras – o que fez no domingo? Alguns respondem com um ar de fracasso dizendo que nada fez. Outras já dizem terem realizado várias atividades. Quem é vitorioso? Quem nada fez ou quem muito fez? Para mim, o que muito fez talvez goste de chegar à segunda-feira estressado, cansado para as suas atividades da semana; já eu prefiro o ócio.

Por que Deus, ao fazer o mundo, descansou no domingo? O que significa descansar? Pelo meu entendimento, é nada fazer. É relaxar, gastar o tempo com coisas de que gostamos mas, principalmente, quando estamos a fim de fazer.

A sabedoria da pausa

O Rabino Nilton Bonder, num belíssimo texto sobre o assunto, diz:

As montanhas estão com olheiras, os rios precisam de um bom banho, as cidades de uma cochilada, o mar de umas férias, o domingo de um feriado… Quem tem tempo não é sério, quem não tem é importante. Nunca fizemos tanto e realizamos tão pouco. Nunca tantos fizeram tanto por tão poucos. Parar não é interromper. Muitas vezes continuar é que é uma interrupção.

O dia de não trabalhar não é o dia de se distrair: literalmente, ficar desatento; é uma atenção — de ser atencioso consigo e com a sua vida.

A pergunta que as pessoas se fazem no descanso é: o que vamos fazer hoje? — já marcada pela ansiedade. E sonhamos com uma longevidade de 120 anos, quando não sabemos o que fazer numa tarde de domingo. Quem ganha tempo, por definição, perde. Quem mata tempo, fere-se mortalmente. É este o grande “radical” livre que envelhece nossa alegria — o sonho de fazer do tempo uma mercadoria.

Em tempos de novo milênio, vamos resgatar coisas que são milenares. A pausa é que traz surpresa e não o que vem depois. A pausa é que dá sentido à caminhada.

A prática espiritual deste milênio será viver as pausas. Não haverá maior sábio do que aquele que souber quando algo terminou e quando algo vai começar.

Afinal, por que o Criador descansou? Talvez porque, mais difícil do que iniciar um processo do nada seja dá-lo como concluído.

Meu domingo, só meu

Tenho o domingo como um dia meu. Não faço nada que não quero. Não faço nada que não esteja a fim e em que não esteja embutida uma imensa agradabilidade. Se és meu amigo e tens um convite para o domingo, não precisa esconder de mim, sabe qual é a minha resposta? Não estou a fim. Geralmente são quatro domingos no mês e eu tiro esses quatro ou cinco domingos como meus dias. Não os dou, não os empresto a ninguém. SÃO MEUS! Quem tem seus compromissos não me inclua porque não vou cumprir.

Nesses domingos, faço o que eu quero, na hora que eu quero, do jeito que eu quero e na velocidade que quero. Esqueça-me no dia de domingo. No domingo, aproveito para ser só eu.

Domenico De Masi, em sua obra “L’Emozione e la Regola” (editora UNB José Olympio, 6ª edição), diz que nós, seres humanos, só pensamos e desenvolvemos mais ideias quando estamos inteiramente despreocupados e relaxados. Quando assume algum trabalho de reestruturação de uma empresa, sua primeira atitude é mandar os executivos limparem as mesas e irem cedo para casa. Trabalhar menos e pensar mais. Como exemplo, diz para irmos às ilhas gregas e ficarmos de papo para o ar ao menos três meses do ano. Quem sou eu para contrariá-lo?

Existem pessoas que se vangloriam por ter precisado trabalhar o domingo; eu me vanglorio por nada ter feito. Passei o domingo com um bom calção, camisa polo e uma sandália de arrasto, e fiquei de papo pro ar. Ainda brinco com meus amigos: “estou doido que o mar pegue fogo para eu comer peixe assado”.

Se tartaruga corresse, duraria 300 anos? O mestre Dorival Caymmi, de saudosa memória, é conhecido como o rei da preguiça. Viveu mais de 90 anos e ainda brincava: “quando estou descansando e me dá vontade de trabalhar, deito em uma boa rede e fico lá, até a vontade passar”.

Correr custa caro

Claro que precisamos trabalhar. É através do trabalho que buscamos conquistar os objetivos, mas precisa de tanto stress? Se Deus, que é infinitamente grandioso, descansou no domingo, quem sou eu para contrariá-lo.

Dê descanso ao seu domingo. Pare e aprenda a ser você. Aprenda a fazer coisas simples, como pisar no chão descalço, chupar picolé, tomar um bom sorvete, sentar num banco de jardim, apreciar os murmúrios dos pássaros e das árvores, ou então ficar de papo para o ar sem fazer nada. Afinal, o domingo é para isso mesmo.

O grande Chico Anysio, em entrevista ao Jô Soares, com sua sapiência, deu alguns exemplos maravilhosos. Citou pessoas de 90 anos, vivas, lúcidas, e provou que essas pessoas nunca viveram a vida com stress, correndo, em atividade frenética. Gosto do meu povo baiano e seu jeito maneiro e alegre de viver.

Dr. Mariano, presidente de uma grande instituição financeira, meu amigo, foi para uma reunião em Salvador e saiu atrasado para pegar o seu voo. Ao entrar no táxi, disse ao motorista que estava atrasado, pedindo “uma puxadinha”. Perdeu o voo mesmo assim e, ao questionar o taxista por que não andara mais ligeiro, o sábio homem respondeu: “sabe, doutor, os únicos caras que ganharam dinheiro correndo foram Pelé e Emerson Fittipaldi”. Dr. Mariano entendeu a mensagem. Se você está com pressa, o problema é seu, mas saiba o que isso lhe custará no futuro.

Domingo é para ser, não para produzir

Domingo não é pra produzir. É pra ser. Você já deu muito essa semana. Hoje é dia de Deus te dizer: “Agora eu tomo conta de você”.

Descansar é deitar o corpo. Desligar a cabeça dos “não” e “sim” que você teve que dar na semana. Relaxar, deixar o jardim, a praia, o vento te tocar sem pressa. Sem ter que narrar pra ninguém. Só sentir. Curtir, comer com calma. Rir bobo. Ligar para quem gostaria de ligar e conversar fiado.

Sorria para todos os seus dias, mas em especial para seu domingo.
Que seu domingo seja de descanso de verdade.
Que a saudade pese menos e a paz pese mais.

BOM DOMINGO!

Reflexão Espiritualidade Bem-viver

Edvaldo Paulo