Por Padre Carlos
Há tragédias que arrancam lágrimas. Há comédias que provocam gargalhadas. E existem aquelas raríssimas situações em que o destino resolve contratar um roteirista de humor, um dramaturgo grego e um diretor de novela mexicana para escreverem juntos o mesmo capítulo.
Foi exatamente isso que me veio à cabeça ao ler a história da arquiteta baiana Kaline Macêdo, que descobriu, durante o velório do companheiro com quem viveu doze anos, que ele mantinha não uma, nem duas, mas três amantes.
Confesso que, ao terminar a reportagem, não sabia se oferecia um lenço ou um ingresso para um espetáculo de humor tragicômico.
Porque existe uma ironia que somente a vida consegue escrever.
O homem passou anos organizando uma logística sentimental que faria inveja aos controladores de voo da NASA. Agenda sincronizada, desculpas calibradas, aniversários decorados, flores distribuídas estrategicamente, mensagens apagadas com precisão cirúrgica…
Mas bastou um único acidente para todo o sistema operacional entrar em pane.
Foi o famoso “bug definitivo”.
O velório, que deveria ser um ambiente de silêncio, respeito e despedida, transformou-se numa convenção nacional das mulheres enganadas.
Imagino a cena.
Uma olha para a outra.
A outra olha para a primeira.
A terceira percebe que nenhuma delas pertence à família.
As sobrancelhas começam a conversar antes mesmo das palavras.
Em poucos minutos, o quebra-cabeça sentimental estava montado.
Se existisse um prêmio para a pior reunião de condomínio da história, aquela teria vencido por unanimidade.
A mãe de Kaline percebeu duas.
Dias depois apareceu a terceira.
Era quase um seriado.
Parecia que, a qualquer momento, alguém anunciaria:
— “No próximo episódio, descubra se existe uma quarta temporada.”
O curioso é que, depois da repercussão, várias mulheres começaram a contar histórias semelhantes.
Descobriu-se que existe um verdadeiro universo paralelo das relações clandestinas.
Hollywood jamais imaginaria roteiros tão criativos.
Mas toda essa história me fez recordar um episódio que vivi há mais de vinte anos, quando eu ainda exercia o ministério sacerdotal.
Recebi uma ligação aflita da mãe de um grande amigo.
— Padre Carlos, venha depressa! Meu filho sofreu um grave acidente. Está internado na Santa Casa. Gostaria que o senhor viesse visitá-lo e lhe desse a Unção dos Enfermos.
Peguei o carro imediatamente.
Durante todo o caminho fui rezando para que Deus lhe concedesse forças e recuperação.
Cheguei imaginando encontrar um quarto silencioso, familiares em oração e um doente aguardando conforto espiritual.
Mas Deus, às vezes, parece escrever roteiros em parceria com os melhores humoristas.
Quando dobrei o corredor, pensei sinceramente que havia entrado na ala errada do hospital.
Na porta do quarto estavam três jovens lindíssimas.
Cada uma acompanhada de sua família.
Pais, mães, irmãos, tias…
Todos olhando uns para os outros com aquela expressão típica de quem pensa:
“Será que somos parentes e ninguém avisou?”
Descobri rapidamente que não.
As três afirmavam ser a namorada oficial.
Uma delas era, inclusive, a noiva.
As outras duas mantinham relacionamentos fixos havia anos.
Frequentavam suas casas.
Eram amigas das famílias.
Recebiam presentes em aniversários.
Almoçavam aos domingos.
Meu amigo havia organizado sua vida sentimental com uma precisão suíça.
Segunda-feira para uma.
Quarta-feira para outra.
Fim de semana alternado.
Feriados cuidadosamente distribuídos.
Administrava romances como quem controla voos internacionais.
Até que o destino resolveu cancelar todos os embarques ao mesmo tempo.
As três queriam permanecer no quarto.
As três diziam ter prioridade.
Cada família olhava para a outra esperando uma explicação que ninguém conseguia dar.
O corredor parecia uma audiência de conciliação organizada pelo próprio destino.
Confesso que, naquele instante, esqueci completamente o motivo da minha visita.
Comecei a me perguntar qual sacramento deveria administrar.
A Unção dos Enfermos?
Ou as Exéquias?
Porque, diante da revolta estampada no rosto daquelas famílias, eu tinha absoluta certeza de que meu amigo não sairia dali vivo.
Se sobrevivesse aos ferimentos do acidente, dificilmente escaparia do tribunal sentimental instalado na porta do quarto.
Naquele momento pensei que talvez fosse prudente preparar os dois rituais.
Nunca se sabe.
Consegui entrar algum tempo depois.
Lá estava ele.
Inteiramente engessado.
Mal conseguia mover a cabeça.
Olhou para mim com um misto de vergonha, arrependimento e desespero.
Falou baixinho:
— Carlos…
— Se eu não estivesse todo quebrado… tinha saído correndo.
Olhei para ele, respirei fundo e respondi:
— Meu filho… correndo para onde?
As três estão na porta.
Nem Moisés abriria aquele corredor.
A única saída possível daqui é um milagre.
Pela primeira vez vi um homem rezando para continuar imobilizado.
O gesso havia se transformado em sua única proteção.
Se levantasse da cama, provavelmente precisaria de outro milagre antes mesmo de sair do quarto.
A verdade é que existe uma ilusão muito comum entre os excessivamente espertos.
Eles acreditam que controlam todas as variáveis.
Esquecem que a vida adora improvisar.
O sujeito monta um xadrez perfeito.
Mas o destino prefere jogar dominó.
Planeja como um engenheiro.
A realidade responde como um roteirista de comédia.
Como costumo dizer, o maior problema do esperto é imaginar que todo mundo é burro.
Só que a inteligência, quando se transforma em arrogância, acaba tropeçando justamente naquilo que acreditava controlar.
A mentira consegue correr durante anos.
A verdade, porém, tem uma qualidade extraordinária.
Ela não precisa correr.
Basta esperar.
Porque, cedo ou tarde, ela chega.
Às vezes chega discretamente.
Às vezes chega acompanhada de três famílias.
E, em casos realmente memoráveis…
Chega justamente no velório.
Ou, como aconteceu com meu amigo…
Chega antes mesmo dele receber a alta hospitalar.





