
Quando Rubião Comprou Letras do Banco Master
Padre Carlos
Conta-se que Machado de Assis nunca morreu. Apenas mudou de endereço. Saiu da Rua do Cosme Velho e passou a morar na alma brasileira, de onde observa, com um sorriso quase imperceptível, cada nova tragédia nacional.
Numa dessas manhãs, resolveu passear novamente pelo Rio de Janeiro. Não o Rio das carruagens, mas o das torres espelhadas, dos relatórios financeiros e dos balanços publicados em letras miúdas.
Ao seu lado caminhava Rubião.
Continuava o mesmo.
Mais velho apenas na aparência. Por dentro, conservava a mesma fome de pertencimento.
— Onde estamos? — perguntou.
Machado respondeu sem olhar para ele:
— No mesmo lugar de sempre. Apenas mudaram os figurinos.
O Prédio de Vidro e a Antiga Sedução
Foi então que Rubião viu um elegante edifício de vidro. Havia homens de terno, gravatas impecáveis, discursos sobre inovação, rentabilidade, oportunidades únicas. Tudo parecia sólido. Tudo transmitia confiança.
Rubião sorriu.
Reconheceu aquele ambiente. Não porque já o tivesse visitado, mas porque já conhecia aquela sensação. Era a mesma que experimentara quando Cristiano Palha lhe abriu as portas da alta sociedade. A mesma delicadeza. O mesmo acolhimento. O mesmo convite para fazer parte de um mundo reservado aos escolhidos.
Machado apenas suspirou.
— Cuidado, Rubião. Os salões mudam de endereço, mas a vaidade continua morando neles.
Logo apareceu Cristiano Palha. Não trazia cartola. Usava planilhas. Falava em liquidez, ativos, confiança do mercado, engenharia financeira. Era um homem moderno. Tão moderno que aprendera a substituir promessas por apresentações em PowerPoint. Rubião ficou encantado.
Sofia apareceu logo depois. Também mudara de roupa. Já não usava vestidos de seda. Vestia a elegância das campanhas publicitárias, dos eventos sofisticados, das entrevistas tranquilizadoras, da estética impecável que faz qualquer risco parecer uma oportunidade. Continuava belíssima. Porque a beleza da sedução nunca pertenceu ao rosto. Pertence à narrativa.
Machado observava tudo em silêncio. Sabia que nenhuma grande ilusão começa com uma mentira escandalosa. Ela começa com uma história bem contada.
Rubião acreditou. Como sempre acreditava. Não porque fosse ingênuo. Mas porque desejava acreditar. Existe uma diferença enorme entre ser enganado e precisar daquilo que nos engana.
Foi então que apareceu outro personagem.
Chamava-se Mercado. Era um sujeito curioso. Quando tudo ia bem, vestia-se de profeta. Quando tudo desmoronava, vestia-se de historiador. Sempre explicava depois aquilo que ninguém conseguira prever antes.
Rubião aproximou-se dele.
— Então era verdade?
“Verdade? Meu caro, a verdade é o ativo menos negociado da praça.”
— O Mercado
Machado sorriu discretamente. Reconheceu a frase. Poderia tê-la escrito.
Enquanto isso, o velho filósofo Quincas Borba parecia repetir, ao longe:
— Ao vencedor, as batatas!
Mas a frase já não soava filosófica. Parecia um comunicado ao mercado. No salão das finanças, os vencedores continuam recolhendo as batatas. Os últimos da fila discutem quem ficará com a conta.
As Primeiras Rachaduras
Rubião começou, enfim, a perceber pequenas rachaduras. Não eram grandes. Eram quase invisíveis. As primeiras notícias desconfortáveis. As primeiras perguntas inconvenientes. Os primeiros sinais de que talvez a realidade não fosse exatamente aquela apresentada nos discursos.
Olhou para Machado.
— Eu já vi esse filme…
Machado respondeu:
— Sim. O problema é que você sempre demora para acreditar no que já viu.
Rubião abaixou a cabeça.
Era verdade. Os olhos costumam chegar muito antes do coração.
E foi nesse instante que compreendeu algo que nunca aprendera. O Banco Master, como tantos episódios que atravessam a história econômica brasileira, talvez não seja apenas um caso sobre finanças. É uma história sobre confiança.
O fio da meada
Toda grande crise financeira começa muito antes dos números. Começa quando a aparência passa a valer mais do que a substância. Quando o prestígio substitui a prudência.
Quando o desejo de participar de um grande banquete impede alguém de perguntar quem pagará a conta.
Machado sempre soube disso. Por isso escreveu Quincas Borba. Nunca lhe interessou apenas contar a história de um homem enganado. Quis contar a história de uma sociedade inteira apaixonada por aparências.
No romance, Rubião compra um sonho. Na vida contemporânea, muitos compram uma narrativa. Em ambos os casos, a pergunta permanece a mesma.
Quanto vale uma ilusão bem apresentada?
O Cão Fiel e a Última Gravata
Na saída, o cachorro Quincas Borba caminhava atrás dos dois. Continuava silencioso. Continuava fiel. Era o único personagem que jamais precisou vender esperança para conquistar confiança.
Machado fez um último comentário antes de desaparecer na esquina do tempo.
— Os bancos mudam.
Os governos mudam.
Os mercados mudam.
Mas Cristiano Palha sempre encontra uma nova gravata.
Sofia sempre aprende uma nova forma de sorrir.
E Rubião…
Rubião continua nascendo todos os dias.
Talvez porque a maior tragédia humana nunca tenha sido perder dinheiro. A maior tragédia é investir a própria capacidade de julgar na promessa de que, desta vez, finalmente seremos aceitos no grande salão das aparências.
Sátira Política
Machado de Assis
Economia
Banco Master
Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha




