Por Padre Carlos
Há livros que nós lemos. Outros, porém, permanecem silenciosamente nos lendo durante toda a vida.
Hoje, enquanto procurava um volume em minha biblioteca para fundamentar um artigo, meus olhos repousaram sobre um exemplar que há muitos anos não tocava. Era “As Meninas”, de Lygia Fagundes Telles. Bastou segurá-lo novamente para que as lembranças dos tempos de seminário voltassem com uma força surpreendente.
Naquela época, eu era um jovem fascinado pela filosofia, pela teologia e pela literatura. Lia com avidez tudo aquilo que pudesse ampliar minha compreensão do ser humano e da sociedade. Entre tantas obras que passaram por minhas mãos, poucas me marcaram tanto quanto esse romance publicado em 1973, em pleno período mais duro da ditadura militar brasileira.
Não era apenas uma história.
Era um retrato da alma de uma geração.
Três vozes, três destinos
Lygia Fagundes Telles conseguiu realizar aquilo que somente os grandes escritores alcançam: transformar personagens em espelhos da condição humana. Lorena, Li e Ana Clara não são apenas três jovens que dividem um pensionato de freiras em São Paulo. Elas representam três maneiras de existir em um país dilacerado pelo medo, pela repressão, pelas desigualdades e pelos conflitos morais.
Lorena vive o drama da sensibilidade e das contradições de uma juventude educada entre privilégios e angústias existenciais. Ana Clara encarna a devastação provocada pela pobreza, pela violência e pela busca desesperada por algum sentido na vida. Já Li simboliza a juventude que decidiu enfrentar o regime militar, assumindo os riscos da clandestinidade, da prisão e da tortura.
É justamente através dessas vozes que Lygia constrói uma denúncia poderosa da violência política sem jamais transformar seu romance em um panfleto. Sua literatura permanece literatura em sua forma mais elevada: profunda, humana e artisticamente sofisticada.
Sua narrativa inovadora, construída por múltiplas vozes e pelo fluxo de consciência, permite que o leitor caminhe pelos corredores da mente de cada personagem. A autora revela e oculta ao mesmo tempo. Sugere mais do que afirma. Faz o silêncio falar.
Essa talvez seja uma das maiores virtudes de sua escrita.
Enquanto muitos denunciam por meio do discurso direto, Lygia denuncia por meio da humanidade de suas personagens.
A lenda da censura
Durante anos ouvi uma história que sempre me impressionou. Conta-se que, ao submeter o manuscrito aos censores da ditadura, a autora — aconselhada por seu marido — colocou justamente uma das passagens mais contundentes sobre a tortura nas páginas finais do romance.
A narrativa tornou-se tão densa e sofisticada que, segundo essa conhecida versão, os censores não chegaram até aquele trecho ou não compreenderam plenamente sua força simbólica, permitindo a publicação da obra.
Independentemente de todos os detalhes dessa narrativa, ela expressa uma verdade maior: em períodos de censura, a inteligência artística frequentemente encontrou caminhos para preservar a liberdade da palavra.
Foi assim em muitos momentos da história.
Quando a força tenta calar a consciência, a literatura aprende a falar por metáforas.
Quando o medo ocupa as praças, os romances preservam a memória.
Quando os arquivos são destruídos, os livros continuam testemunhando.
Uma obra que atravessa o tempo
É por isso que “As Meninas” permanece atual mais de cinquenta anos depois de sua publicação.
Seu valor ultrapassa o contexto da ditadura militar. O romance nos recorda que toda sociedade precisa estar vigilante diante de qualquer forma de autoritarismo, venha ele de onde vier. A liberdade de pensamento não pertence à esquerda nem à direita; pertence à civilização.
Nenhuma democracia é perfeita. Mas nenhuma sociedade livre pode sobreviver sem memória.
Esquecer o passado não elimina seus erros. Ao contrário, aumenta a possibilidade de repeti-los.
Livros que amadurecem com seus leitores
Foi justamente essa reflexão que me invadiu ao reencontrar aquele velho exemplar em minha estante. O livro estava coberto pelo pó natural do tempo, mas suas páginas permaneciam vivas. Parecia esperar apenas o momento certo para voltar às minhas mãos.
Percebi, então, que certos livros possuem uma estranha capacidade de amadurecer junto com seus leitores.
Na juventude, admirei “As Meninas” pela ousadia literária.
Hoje, décadas depois, admiro ainda mais sua coragem moral.
Lygia Fagundes Telles compreendeu que escrever também é um ato de responsabilidade histórica. Sua obra demonstra que a literatura não serve apenas para entreter. Ela também preserva memórias, denuncia injustiças, humaniza estatísticas e impede que as vítimas desapareçam no silêncio.
Vivemos tempos em que a velocidade das redes sociais muitas vezes substitui a reflexão profunda. Talvez seja justamente por isso que romances como “As Meninas” continuem indispensáveis. Eles nos obrigam a desacelerar, ouvir as vozes humanas por trás dos acontecimentos históricos e compreender que toda violência política produz marcas que ultrapassam gerações.
Ao fechar novamente aquele livro, senti que não havia simplesmente reencontrado um romance.
Havia reencontrado uma parte da minha própria formação intelectual.
Alguns livros envelhecem.
Os grandes livros permanecem.
E “As Meninas” continua sendo uma dessas obras raras que lembram ao Brasil que a liberdade nunca deve ser considerada uma conquista definitiva, mas uma construção permanente, alimentada pela memória, pela cultura e pela coragem daqueles que ousam escrever quando tantos preferem o silêncio.
LITERATURA
LYGIA FAGUNDES TELLES
MEMÓRIA
DITADURA MILITAR
— Padre Carlos





