Política e Resenha

ARTIGO — A BAHIA NÃO PODE TRANSFORMAR SUAS ESTRADAS EM UMA RODOVIA DO ABANDONO

 

 

(Padre Carlos)

Há lugares onde o abandono não precisa ser explicado. Basta olhar.

Uma ponte deteriorada. Uma curva perigosa. Uma estrada sem sinalização adequada. Um acostamento que praticamente desaparece. Um motorista que reduz a velocidade porque sabe que, naquele trecho, qualquer erro pode custar caro.

É assim que a infraestrutura rodoviária deixa de ser apenas uma questão de engenharia e passa a ser uma questão de dignidade humana.

A denúncia apresentada por Natan da Carroceria sobre as condições da rodovia entre Itapetinga e Potiraguá merece ser recebida com seriedade. Não porque toda afirmação política deva ser aceita automaticamente, mas porque existem fatos concretos que demonstram que aquele trecho precisa de atenção permanente do poder público.

A ponte sobre o Rio Pardo e suas proximidades já foram palco de acidentes graves. Em fevereiro de 2024, um ônibus que transportava 46 pessoas, em viagem entre Vitória da Conquista e Porto Seguro, tombou próximo à ponte. Cinco pessoas morreram.

E o problema não ficou no passado.

Em março de 2026, uma caminhonete despencou da ponte após o motorista perder o controle em uma curva considerada perigosa. Em maio, novos acidentes foram registrados no mesmo trecho: um caminhão tombou na cabeceira da ponte e, dias depois, uma Fiat Toro caiu da estrutura. Segundo a imprensa regional, este último episódio ocorreu depois de outro acidente que havia danificado a proteção lateral.

Diante disso, a pergunta que precisa ser feita não é apenas quem tem razão no discurso político.

A pergunta é outra:

o que precisa ser feito para que o próximo acidente não seja uma tragédia anunciada?

Estrada não é luxo.

Ponte não é favor.

Sinalização não é detalhe.

Manutenção não é obra secundária.

Tudo isso faz parte de uma obrigação elementar do Estado: garantir condições mínimas de segurança para quem precisa se deslocar.

E aqui está uma das grandes contradições do Brasil. Falamos constantemente em desenvolvimento, crescimento econômico, geração de empregos, fortalecimento do turismo e escoamento da produção. Mas nenhuma dessas palavras pode ser levada a sério quando uma região economicamente importante permanece dependente de estradas que não oferecem segurança adequada.

Uma rodovia é muito mais do que uma faixa de asfalto.

Ela liga famílias.

Liga cidades.

Liga hospitais.

Liga escolas.

Liga trabalhadores aos seus empregos.

Liga produtores aos mercados.

Liga o interior aos grandes centros.

Quando uma estrada está em más condições, não é apenas o veículo que sofre. É toda a economia regional que perde eficiência.

É o agricultor que demora mais para transportar sua produção.

É o comerciante que recebe mercadoria com dificuldade.

É o ônibus que enfrenta uma viagem mais perigosa.

É a família que passa a viajar com medo.

É a ambulância que precisa enfrentar obstáculos para transportar alguém que necessita de atendimento médico.

Por isso, discutir a situação das rodovias baianas deveria estar acima das disputas partidárias.

Não importa se o governo é de esquerda, direita ou centro.

Quando uma ponte oferece risco, a responsabilidade pública precisa falar mais alto que a conveniência política.

Também é preciso reconhecer que acidentes rodoviários têm múltiplas causas. Condições da pista, comportamento do motorista, velocidade, condições climáticas, problemas mecânicos, sinalização e características geométricas da estrada podem contribuir para uma ocorrência. Por isso, não é correto atribuir automaticamente cada acidente à administração pública.

Mas existe uma responsabilidade que ninguém pode ignorar: identificar pontos críticos, corrigi-los e agir preventivamente quando os riscos são conhecidos.

É aí que entra o verdadeiro sentido da política.

Fiscalizar não é torcer contra o governo.

Cobrar não é ser inimigo de quem administra.

Denunciar um problema não deveria ser confundido com fazer oposição.

A democracia precisa exatamente disso: cidadãos, imprensa, parlamentares e comunidades atentos àquilo que o poder público está fazendo — e também àquilo que deixou de fazer.

O discurso de Natan da Carroceria ganha força justamente quando deixa de ser apenas uma crítica eleitoral e passa a representar uma pergunta que pertence a todos os baianos:

quanto vale uma vida perdida em uma estrada que poderia ter sido mais segura?

Essa pergunta não tem partido.

Não tem ideologia.

Não tem candidato.

Tem humanidade.

A Bahia é um estado gigantesco, com enormes distâncias e uma economia que depende profundamente de sua malha rodoviária. Melhorar estradas significa melhorar a economia, fortalecer o turismo, reduzir custos, ampliar oportunidades e, sobretudo, preservar vidas.

Por isso, não podemos aceitar que a discussão sobre infraestrutura fique restrita aos períodos eleitorais.

O cidadão não precisa de promessa quando está diante de uma ponte perigosa.

Precisa de sinalização.

Precisa de proteção.

Precisa de pavimento adequado.

Precisa de fiscalização.

Precisa de manutenção.

Precisa, acima de tudo, sentir que o Estado está presente.

Existe uma frase que deveria estar escrita na porta de todos os gabinetes responsáveis pela infraestrutura pública:

toda estrada conduz pessoas, e toda pessoa tem uma história.

Quem atravessa uma rodovia não é apenas um número em uma estatística de trânsito. É um pai, uma mãe, um filho, uma trabalhadora, um estudante, um agricultor, um comerciante.

São vidas.

E uma política verdadeiramente comprometida com o povo começa quando o poder público compreende que cuidar de uma estrada também é cuidar de gente.

A Bahia não pode se acostumar com acidentes anunciados.

Não pode naturalizar pontes perigosas.

Não pode transformar buracos, curvas sem proteção e sinalização insuficiente em paisagem permanente.

O desenvolvimento que queremos precisa chegar também pelas estradas.

Porque uma Bahia que pretende prosperar não pode obrigar seu povo simplesmente a sobreviver aos caminhos que deveria usar para construir o próprio futuro.

A estrada deve levar à vida.

Nunca ao abandono.